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Macron perde quinto premiê e crise política na França se agrava

Menos de 24 horas após anunciar seu gabinete, o primeiro-ministro francês Sébastien Lecornu apresentou nesta segunda-feira (6) sua renúncia ao presidente Emmanuel Macron, aprofundando a crise política que se arrasta desde o início do segundo mandato do chefe de Estado. 

O governo, formado no domingo, não chegou a realizar a primeira reunião ministerial, e sua dissolução deixou Macron sem maioria e sem rumo político, em meio à pressão crescente por uma saída institucional.

A renúncia, confirmada pelo Palácio do Eliseu, representa a terceira queda de governo em um ano e reforça a percepção de que a Quinta República, sistema político criado em 1958, entrou em colapso funcional. 

Lecornu era o quinto primeiro-ministro nomeado em 21 meses e havia assumido o cargo em setembro, com a promessa de recompor pontes entre o centro e a direita. 

Sua demissão, a mais rápida da história moderna francesa, expôs a erosão da autoridade presidencial e o bloqueio absoluto do Parlamento, que segue dividido em três blocos — esquerda, centro e extrema direita — sem nenhuma maioria possível.

Lecornu afirmou em discurso no pátio do Hôtel de Matignon, residência oficial do premiê, que “não se pode ser primeiro-ministro quando as condições não estão reunidas” e que “é preciso sempre preferir o país ao partido”. 

O ex-ministro, de 39 anos, alegou que as formações políticas continuam agindo como se detivessem maioria absoluta, num contexto em que qualquer tentativa de pacto se inviabilizou.

A Nova Frente Popular (NFP) e a França Insubmissa (LFI), movimentos políticos da esquerda francesa, reagiram imediatamente ao colapso do governo. 

Em pronunciamento, Jean-Luc Mélenchon disse que o episódio confirma o “esgotamento histórico da Quinta República” e anunciou que 104 deputados da sua coligação já apresentaram uma moção pela destituição de Emmanuel Macron. 

“A República está deturpada, a democracia está falseada. É hora de devolver a palavra ao povo francês”, afirmou. Para Mélenchon, o presidente é “a origem do caos” por ter convocado eleições antecipadas em 2024 e se recusado a assumir o resultado, que deu maioria relativa à esquerda.

Os partidos que compõem a NFP — socialistas, comunistas, ecologistas e a França Insubmissa — defendem uma saída democrática baseada no voto popular, enquanto rejeitam a formação de um novo gabinete por arranjos de bastidores. 

A coalizão convocou uma reunião emergencial para discutir a condução política após a renúncia e avaliar a possibilidade de eleições legislativas antecipadas. 

“Nenhuma combinação pode substituir o voto popular. O retorno ao povo é a resposta das democracias quando se encontram em impasse”, declarou Mélenchon.

Com cinco primeiros-ministros em menos de dois anos — Élisabeth Borne, Gabriel Attal, Michel Barnier, François Bayrou e agora Lecornu —, o governo francês enfrenta um nível de instabilidade sem precedentes desde a fundação do sistema político atual. 

As sucessivas crises refletem a erosão da legitimidade do Executivo e o fracasso de Macron em construir maioria parlamentar após a derrota de seu partido, o Renascimento, nas eleições legislativas de 2024.

A esquerda atribui o impasse à concentração de poder presidencial e às políticas de austeridade que reduziram o apoio popular ao governo. 

Desde setembro, mobilizações sindicais e manifestações em defesa dos serviços públicos vêm sendo realizadas em todo o país, sem qualquer resposta do Palácio do Eliseu. Segundo Mélenchon, “adiar a solução só agravará a crise” e “a França precisa de uma decisão clara, democrática e popular”.

Em meio ao silêncio do presidente, a pressão para a dissolução da Assembleia Nacional cresce entre parlamentares e movimentos sociais. Para a esquerda, Macron perdeu as condições políticas de governar e deve permitir que o povo francês decida o futuro do país nas urnas.

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