Notícias

Madeleine Albright: a dama de ferro do Partido Democrata

Há 89 anos, em 15 de maio de 1937, nascia a diplomata norte-americana Madeleine Albright. Ela foi a primeira mulher a ocupar o cargo de Secretária de Estado da Casa Branca e foi uma das principais formuladoras da política externa dos Estados Unidos na década de 1990.

Durante o governo de Bill Clinton, Madeleine articulou a expansão da OTAN rumo ao Leste Europeu e colocou em prática uma estratégia de reivindicar a defesa da democracia e dos direitos humanos como pretexto para impor sanções e iniciar guerras e intervenções militares.

Celebrada acriticamente pelos liberais como uma pioneira que rompeu barreiras de gênero na política norte-americana, Madeleine foi a principal responsável pelos bombardeios contra a Iugoslávia em 1999.

Ela também atuou para impedir que a comunidade internacional interviesse no genocídio de Ruanda e liderou a campanha pelas severas sanções econômicas contra o Iraque, que resultaram na morte de mais de 500 mil crianças — e que reforçaram o seu epíteto de “Açougueira de Georgetown”.

Origens, formação e atuação no governo Carter

Natural de Praga, capital da antiga Tchecoslováquia, Madeleine Albright era filha do diplomata Josef Korbel, que serviu como embaixador tcheco na Iugoslávia. De ascendência judaica, sua família migrou para a Grã-Bretanha em 1939, fugindo da ocupação nazista. Eles retornaram para a Tchecoslováquia após o fim da Segunda Guerra Mundial, mas partiram para o exílio novamente em 1948, após o Partido Comunista assumir o comando do governo tcheco no chamado “Fevereiro Vitorioso”.

Madeleine se fixou em Denver, no estado do Colorado, e se naturalizou norte-americana em 1957. Graduou-se em ciência política pelo Wellesley College em 1959 e se casou com o jornalista Joseph Albright. Posteriormente, cursou o doutorado pela Universidade de Columbia, apresentando uma tese sobre a Primavera de Praga.

Na década de 1960, Madeleine atuou no meio acadêmico e trabalhou como colunista em diversos jornais, produzindo uma série de artigos e ensaios recheados de um anticomunismo virulento. Aluna de Zbigniew Brzezinski, ela se tornou uma defensora entusiasmada da supremacia geopolítica dos Estados Unidos, apoiando as intervenções militares e as estratégias agressivas de contenção do socialismo.

Filiada ao Partido Democrata, Madeleine iniciou sua carreira política angariando fundos para a campanha presidencial do senador Edmund Muskie em 1972. Tornou-se a principal assessora de Muskie, ganhando visibilidade entre os dirigentes do partido. Quatro anos depois, em 1976, Madeleine recebeu o convite de Zbigniew Brzezinski para integrar o Conselho de Segurança Nacional durante a gestão de Jimmy Carter.

A assessora trabalhou na coordenação política do governo Carter, tendo como enfoque as relações com o Legislativo. Também ajudou a implementar a estratégia de cooptação utilizada para refrear a Revolução Sandinista na Nicarágua e testemunhou a criação das milícias mujahidin, empregadas contra os soviéticos no Afeganistão.

Nos anos 80, Madeleine trabalhou como professora de relações internacionais na Universidade de Georgetown. Ela integrou conselhos de think tanks e tornou-se pesquisadora do Smithsonian Institution, envolvendo-se com o fomento às insurreições do Leste Europeu e apoiando os movimentos anticomunistas vinculados à CIA, nomeadamente o Solidariedade, dirigido por Lech Walesa.

Embaixadora na ONU

Em 1993, após a eleição de Bill Clinton à Casa Branca, Madeleine Albright foi nomeada como Embaixadora dos Estados Unidos na ONU. Sua gestão foi marcada pelo recrudescimento do intervencionismo belicista e pela imposição agressiva dos interesses norte-americanos no tabuleiro global.

A diplomata se consagraria como uma das principais representantes dos “falcões de guerra” entre os democratas — os chamados “hawks”, partidários do militarismo e de uma política externa agressiva, muito próximos dos lobistas do setor bélico.

Como chefe da delegação norte-americana na ONU, Madeleine atuou para impedir a intervenção da comunidade internacional no genocídio de Ruanda. Defendendo os interesses econômicos de Washington, que era mais favorável ao domínio político dos hutus, Madeleine pressionou pela retirada da força de paz da ONU, justamente quando o massacre da minoria tutsi chegava ao ápice. O genocídio se prolongou por quase quatro meses, resultando na morte de mais de um milhão de civis.

Em 1996, Madeleine liderou a campanha para impedir que o diplomata egípcio Boutros Boutros-Ghali fosse reeleito como secretário-geral da ONU. Primeiro árabe e africano a comandar a organização internacional, Boutros-Ghali defendia que a ONU deveria ter uma postura mais autônoma em relação aos interesses das grandes potências ocidentais e criticava abertamente o intervencionismo norte-americano.

A tentativa de Boutros-Ghali de responsabilizar Israel pelo bombardeio contra o campo de refugiados de Qana, no Líbano, irritou profundamente a Casa Branca. Madeleine pressionou o secretário-geral a renunciar e depois utilizou seu poder de veto para impedir sua recondução ao cargo, construindo um consenso em torno de Kofi Annan, visto pelos Estados Unidos como mais pragmático e conciliador.

A diplomata também foi responsável por negociar a ampliação das severas sanções econômicas impostas ao Iraque, em represália à invasão do Kuwait em 1990. O embargo ao Iraque incluía até mesmo a proibição de adquirir alimentos e remédios. Estima-se que mais de 1,5 milhão de iraquianos morreram em função das sanções, incluindo 500 mil crianças — a maioria de fome e doenças relacionadas à desnutrição.

Ao ser questionada no programa 60 Minutes se acreditava que as sanções contra o Iraque tinham valido a pena, mesmo custando a morte de meio milhão de crianças, Madeleine respondeu resolutamente que sim.

Alguns anos depois, Madeleine se destacaria como uma das principais defensoras da guerra contra o Iraque. Ela promoveu o apoio dos democratas à ofensiva e ajudou a difundir a falsa alegação de que o governo de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa.

Em uma discussão com Colin Powell, Secretário de Estado do governo Bush, Madeleine chegaria a questionar o que via como uma suposta leniência dos militares norte-americanos, afirmando não ver sentido no Pentágono “possuir esse magnífico poderio bélico e não o utilizar”.

Madeleine Albright em 2019.
Wikimedia Commons

Secretária de Estado

Em 1997, Madeleine foi nomeada por Bill Clinton como Secretária de Estado, tornando-se a primeira mulher a ocupar esse posto. À frente da pasta, ela intensificou o assédio militar às nações do Oriente Médio, preparando o terreno para as invasões e guerras que seriam iniciadas por George Bush após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Sob sua liderança, a política externa de Clinton assumiria uma postura cada vez mais agressiva. Madeleine foi responsável por articular o ingresso da OTAN na guerra do Kosovo e defendeu a campanha de bombardeios aéreos contra a Iugoslávia, conduzida sem autorização do Conselho de Segurança da ONU.

Embora possuísse uma capacidade militar muito inferior à OTAN, a Iugoslávia foi violentamente bombardeada por 78 dias seguidos. Alegando razões humanitárias, a OTAN atacou estações de televisão, redes de eletricidade, sistemas de abastecimento hídrico e diversos alvos civis.

A intervenção militar deixou cerca de 2.500 mortos. Após o conflito, o governo do Kosovo foi obrigado a privatizar seus sistemas de telecomunicações e os correios. Um fundo de investimentos controlado por Madeleine — a Albright Capital Management — foi o principal beneficiário dessas transações.

A Guerra do Kosovo e a fragmentação da Iugoslávia criaram diversas oportunidades de negócios para empresários norte-americanos, agraciados com privatizações, concessões e contratos lucrativos. Muitos desses empresários eram diretamente vinculados à Secretária de Estado.

Madeleine também teve papel central na expansão da OTAN para o Leste Europeu. Sob sua gestão, países anteriormente pertencentes ao bloco socialista, como Polônia, Hungria e República Tcheca, ingressaram na aliança militar.

A expansão da OTAN consistiu em uma violação dos compromissos assumidos após a reunificação alemã, contribuindo para a instabilidade política no Leste Europeu e para o agravamento das tensões entre os Estados Unidos e a Rússia nos anos seguintes.

Após o governo Clinton, Madeleine dedicou-se aos negócios, assumindo um assento no conselho gestor da Bolsa de Valores de Nova York e tornando-se sócia de Jacob Rothschild e George Soros em investimentos internacionais.

Madeleine Albright também seguiu participando ativamente de think tanks de estratégias políticas e militares e assessorando os governos democratas nas últimas duas décadas. Em 2018, foi condecorada por Barack Obama com a Medalha Presidencial da Liberdade por “seus esforços em prol da paz”.

Após uma vida inteira dedicada a promover guerras, ataques, pilhagens, massacres e genocídios, Madeleine Albright publicou em 2018 o livro “Fascismo – Um Alerta”, que lhe rendeu o inacreditável título de “militante antifascista” nos Estados Unidos. Faleceu em 23 de março de 2022, aos 84 anos.

O post Madeleine Albright: a dama de ferro do Partido Democrata apareceu primeiro em Opera Mundi.