
Jaboatão dos Guararapes ocupa o segundo lugar na economia em Pernambuco, mas não consegue se quer garantir o básico para sua população. Sofrendo com diversos problemas na creche municipal, um grupo de mães com apoio do movimento de mulheres Olga Benario e do MLB estão se mobilizando para cobrar seus direitos.
Pedro Noah | Jaboatão dos Guararapes
LUTA POPULAR- O Brasil registrou, entre os anos de 2014 a 2024, um aumento de 29,7% para 41,2% no percentual de crianças de 0 a 3 anos matriculadas na Educação Básica. Este é o índice mais alto já alcançado. No entanto, fatores como ausência de creche, falta de vaga, recusa por idade, falta de inclusão ou a distância do local de moradia, impedem que 19,7% de crianças nessa faixa etária sejam acolhidas. Em outras palavras, cerca de 2 a 3 milhões de crianças brasileiras não estão em creches ou na pré-escola.
Essa triste realidade pode ser vista em Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana do Recife, que apesar de ser a segunda maior economia do estado, enfrenta problemas estruturais básicos e deixa famílias inteiras sem assistência. Falta de profissionais, salas de aulas lotadas ou sem ar-condicionado, e até falta de vagas ou demora para garantir a matrícula atrapalham a vida de pais e mães trabalhadoras no município.
O Centro Municipal de Educação Infantil (CEMEI) Professora Lindomar Domingos da Silva Anjos, tem sido uma dor de cabeça para as famílias. O Jornal A Verdade recebeu diversas denúncias de mães, que estão organizando uma campanha por melhorias na creche, e conversou com algumas delas que estão na mobilização, mesmo algumas não querendo expor seus nomes, fizeram questão de demonstrar sua indignação.
Jornal A Verdade: vocês têm enfrentado problemas com a estrutura da creche? Como isso afeta o dia a dia das crianças?
Ana: Tem que ter mais gente trabalhando na creche. Meu filho desde 2024 estuda aqui e sempre tem esse problema de rodízio e falta de profissionais. Esse ano está péssimo em relação a energia, falta de auxiliar. Pra quem realmente trabalha e não tem uma rede de apoio, quem é mãe solo, sofre desse jeito.
Alba: Tem várias coisas que deveriam ser melhoradas. A infraestrutura da escola, que é o básico. Ter professores e auxiliares fixos ou quando não tiver, ter uma substituição rápida para não ficar sem aula porque eu preciso que a minha filha fique na creche para poder trabalhar.
De que forma essas dificuldades atrapalham sua rotina de trabalho e a organização da família?
Julya: É uma luta constante. São três dias sem aula e dois dias com aula. A gente que é mãe precisa trabalhar e não tem com quem deixar nossas crianças. Às vezes avisam em cima da hora que não vai ter aula, que não vai ter expediente; às vezes a gente está com as crianças na porta da escola e diz que não tem ninguém para auxiliar e às vezes tem e a creche não quer colocar.
Falta de creche é um ataque a vida das mulheres
“A falta de creche é um ataque recorrente ao direto das mulheres de participar ativamente das atividades sociais, laborais e da vida acadêmica e política”, afirma Larissa Vanessa, coordenadora do Movimento de Mulheres Olga Benário. “Muitos são os casos de mães que não podem trabalhar ou concluir os estudos por falta de um local seguro para deixar suas crianças”.
Luciana Filadelfia é militante da Frente Negra Revolucionária e mora em Jaboatão. Ela conta que passou por várias dificuldades para conseguir uma vaga para seu filho, que é autista: “eu penei para conseguir uma vaga pra meu filho. Tive que lutar, ir pra cima, cobrar. É muito ruim quando querem nos dá um chá de cadeira no lugar de resolver nossa situação”.
Já Gerlândia, moradora da ocupação Selma Bandeira em Dom Helder Câmara, relata dificuldades para ter acesso ao ensino para seus filhos: “pra gente que mora aqui, a coisa é sempre mais difícil, o que não deveria acontecer. Esse é um bairro considerado privilegiado. Mas pra gente que é mãe e que é da classe trabalhadora é tudo mais difícil. Se a gente não lutar não consegue garantir nem o mínimo”.
O desrespeito às crianças e às mulheres mães que está sendo denunciado em Jaboatão, está longe de ser um fato isolado. Se repete em muitas cidades do estado e por todo nosso país. É decisão política que as mulheres e crianças trabalhadoras continuem em situações desse tipo. Segundo o relatório do Conselho Federal de Administração (CFA), em 2023, a cobertura de creches na cidade foi de 11,7%, quando a meta nacional seria em torno 38,6%.
Isto representa a face da gestão do prefeito Mano Medeiros (PSD), que negligencia saúde e educação, em detrimento de privilegiar empresários e a sua própria família. Além disso, a cidade é historicamente governada pela extrema direita, que há mais de 4 décadas tem tornado a cidade um campo aberto pra a violência, o descaso com os mais pobres e ao mesmo tempo um barril de pólvora para a indignação e organização da classe trabalhadora.
Diante deste cenário, as mães estão decididas a continuar com a mobilização em defesa de uma educação de qualidade para suas crianças, e não vão parar até conseguir garantir as melhorias e os direitos básicos para seus filhos.