Entre os muitos exemplares da cultura material produzida pelos povos indígenas do Brasil, os mantos Tupinambá ocupam um lugar de destaque. Mais do que obras primas da arte plumária, os mantos são expressões de uma sofisticada cosmologia indígena e símbolos poderosos da identidade, ancestralidade e resistência dos povos originários.
Durante séculos, todos os exemplares conhecidos dos mantos Tupinambás permaneceram em museus e coleções da Europa, para onde foram levados ainda no período colonial. Em julho de 2024, no entanto, após passar mais de três séculos na Dinamarca, um desses mantos retornou ao Brasil, estabelecendo um marco no processo de repatriação dos nossos bens culturais.
Os Tupinambás
Os Tupinambás foram os primeiros indígenas com quem os portugueses tiveram contato quando desembarcaram no Brasil em 1500. A organização social, os hábitos e rituais religiosos dos nativos impressionaram enormemente os colonizadores e viajantes — sobretudo as práticas ritualísticas antropofágicas, que moldariam a visão do “homem selvagem” presente no imaginário europeu.
Os rituais Tupinambás se tornaram objeto das crônicas de Hans Staden e Jean de Léry e foram difundidas pelas xilogravuras de Théodore de Bry, alimentando a curiosidade sobre o “exótico Novo Mundo”.
A fim de saciar a curiosidade dos europeus, dezenas de Tupinambás foram retirados de suas aldeias e enviados para a Europa. Em 1550, por exemplo, um séquito de 50 Tupinambás foi enviado para a França para servir de “atração” aos festejos da chegada do rei Henrique II à cidade de Rouen.
A fascinação pelo “exótico” também alimentou o comércio dos artefatos produzidos pelos Tupinambás. Tacapes, coifas e colares de concha se tornaram itens muito apreciados por colecionadores europeus. De reis e príncipes aos burgueses enriquecidos com o comércio de especiarias, todos queriam objetos que remetessem aos Tupinambás.
O fascínio pelos mantos
Os suntuosos mantos emplumados utilizados pelos Tupinambás em cerimônias religiosas e festividades, entretanto, eram os artefatos mais cobiçados. Os mantos Tupinambás eram objetos sagrados, reservados ao uso do pajé, reconhecido como mediador entre o mundo dos homens e o mundo dos “encantados” — os espíritos vivos que habitam as florestas.
Possuíam uma fatura esmerada, com uma malha finamente trançada com fibras naturais, geralmente algodão ou tucum, reforçada com cera de abelha. A plumagem era vívida, predominantemente escarlate, constituída por milhares de penas de araras, araúnas, guarás e periquitos.
Além da beleza, os mantos Tupinambás evocavam os rituais antropofágicos, que tanto intrigavam os europeus. O fato de que o traje Tupinambá era reservado ao uso do pajé também permitia paralelos com os “mantos reais” dos monarcas europeus, contribuindo para sua conversão em símbolo de status.
Obras de arte produzidas no período atestam o fascínio que os mantos exerceram sobre as cortes europeias. Uma aquarela alemã datada de 1599 retrata membros da corte durante uma cerimônia festiva em Stuttgart, ostentando um exemplar do manto emplumado.
Essas evidências também são encontradas na retratística oficial do século 17. Os retratos de Sofia de Hanôver, a Duquesa de Brunsvique-Luneburgo, e Maria Stuart, esposa de Guilherme II, por exemplo, mostram as princesas envergando o manto Tupinambá como símbolo da realeza.
Os mantos na Europa
Todos os mantos tupinambás conhecidos foram enviados para a Europa entre os séculos 16 e 17. Maurício de Nassau levou um conjunto dessas peças ao retornar para os Países Baixos em 1644. Outros foram remetidos a Roma por missionários, como evidências da conversão dos Tupinambás à fé cristã.
Herdados das coleções reais e gabinetes de curiosidades, os mantos passaram a integrar os acervos dos museus europeus. Onze exemplares de mantos tupinambás chegaram aos nossos dias. Cinco desses estavam na Dinamarca (Museu Nacional, em Copenhague) e três na Itália (um na Pinacoteca Ambrosiana de Milão, um na Basílica de São Lourenço em Florença e outro no Museu de Antropologia e Etnologia, também em Florença). Os outros mantos estão na Bélgica (Museu de Arte e História de Bruxelas), na França (Museu do Quai Branly em Paris) e na Suíça (Museu das Culturas de Basileia).
A transformação dos mantos sagrados dos Tupinambás em decoração “exótica” de ambientes palacianos levou progressivamente à perda dos vínculos culturais dessas peças. Os europeus buscaram repaginá-los, adequando a identificação das peças ao gosto de cada época. O manto conservado em Bruxelas virou uma “capa de Montezuma” e passou a ser associado a uma origem mexicana. Já a peça mantida na França foi vinculada ao povo Galibi das Guianas.

Via Wikimedia Commons
Resistindo ao genocídio
No Brasil, os Tupinambás sofriam ataques ainda mais severos. Malgrado a resistência heroica capitaneada por Aimberê durante a Confederação dos Tamoios, os Tupinambás foram subjugados pelos colonizadores. Foram expulsos de seus territórios, privados de suas tradições, submetidos ao trabalho escravo e todo tipo de violência.
Entre os séculos 18 e 19, o povo Tupinambá quase foi erradicado, vitimado por doenças ou pelos massacres perpetrados por colonizadores. O Estado brasileiro chegou a decretar, erroneamente, a extinção da etnia.
A retificação da origem cultural dos mantos Tupinambás conservados na Europa ocorreu somente na década de 1930, quando o antropólogo Alfred Métraux empreendeu uma vasta pesquisa sobre os relatos dos viajantes do período colonial.
No mesmo período, Caboclo Marcelino liderava a resistência dos Tupinambás contra os ataques da elite cacaueira no sul da Bahia. O lobby dos latifundiários e grileiros por muito tempo justificou a invisibilização dos nativos.
Os Tupinambás somente foram reconhecidos legalmente como etnia indígena em 2001. Desde então, realizam ações de recuperação de suas terras. Obtiveram uma importante vitória em 2009, quando o governo deu início à demarcação da Terra Indígena Tupinambá de Olivença, localizada em Ilhéus. O processo, entretanto, ainda não foi concluído e a comunidade segue sofrendo ataques de latifundiários e posseiros.
O retorno do manto
Além das terras, os Tupinambás também lutam para restaurar sua herança cultural. Um marco desse processo ocorreu no ano 2000, quando o Museu Nacional da Dinamarca emprestou um dos seus mantos Tupinambás para a “Mostra do Redescobrimento”, sediada no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. A vinda do manto fomentou um debate sobre a restituição do patrimônio indígena e motivou a comunidade Tupinambá a criar ações de valorização e resgate de sua cultura.
Glicéria Tupinambá, jovem liderança da Terra Indígena Tupinambá de Olivença, estudou de perto o processo de confecção do manto conservado em Paris. Desde então, ela tem se dedicado a produzir réplicas dos mantos para uso cerimonial da comunidade. Um dos mantos de Glicéria foi doado ao Museu Nacional do Rio de Janeiro em 2006 e, felizmente, sobreviveu ao incêndio que destruiu a instituição em 2018.
Em 2023, após anos de mobilização e pressão da comunidade Tupinambá, o Museu Nacional da Dinamarca anunciou que um dos mantos mais bem preservados da sua coleção retornaria ao Brasil. O processo de repatriação envolveu negociações diplomáticas e esforço articulado dos Ministérios das Relações Exteriores, Cultura, Educação e Povos Indígenas. Glicéria Tupinambá teve papel central nesse processo, conduzindo diretamente o diálogo com as autoridades dinamarquesas.
O manto chegou ao Brasil em julho de 2024. A apresentação oficial ocorreu dois meses depois, em 12 de setembro, em uma cerimônia no Museu Nacional da UFRJ, com a presença do presidente Lula, da ministra dos Povos Indígenas Sonia Guajajara e de lideranças indígenas. O manto será integrado ao acervo do Museu Nacional, que tem sua reabertura prevista para 2029.
O retorno do manto Tupinambá impulsionou as discussões sobre a repatriação de artefatos indígenas brasileiros espalhados por museus da Europa e dos Estados Unidos, além de evidenciar a necessidade de uma nova abordagem museológica que incorpore a participação dos povos originários na preservação e interpretação de seu próprio patrimônio cultural. Há pelo menos 20 negociações em andamento com instituições de 14 países visando a devolução de bens culturais originários do Brasil.
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