Mariane Fridrich tem 34 anos, mora na rua Aderbal Rocha de Fraga há 20 anos, junto com o marido e a filha de 9 anos. Solange Avillaneda Melo Dias tem 45 anos e mora desde que nasceu no bairro Sarandi, sendo há quase 30 anos na casa da rua Aderbal Rocha de Fraga. O endereço fica ao lado do dique do Sarandi, a estrutura que rompeu em maio de 2024 e causou uma tragédia na região.
Um ano depois, a reconstrução do dique tem sido motivo de disputa entre a Prefeitura, algumas famílias que ainda vivem no local e a Justiça. Uma decisão judicial paralisou a obra em março deste ano e, desde então, o governo municipal tem pressionado as seis famílias restantes a deixarem suas casas.
Na última quarta-feira (25), com a notícia de que o dique estava vazando, o prefeito Sebastião Melo (MDB) subiu o tom, culpou as famílias pela paralisação da obra e anunciou que iria descumprir a decisão da Justiça. Nem foi preciso ir tão longe. Horas depois, na manhã de quinta-feira (26), uma nova decisão judicial autorizou a retomada das obras, incluindo a demolição das casas já desocupadas e em escombros, mas manteve a negativa de não atender o pedido da Prefeitura relativo à desocupação das residências que ainda são habitadas por seis famílias.
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“É muito complicado. Tenho ansiedade, depressão, estava bem mal da depressão com tudo o que aconteceu (a enchente de 2024)”, comenta Mariane. Depois de perder tudo na enchente, incluindo o carro da família, ela não se conforma de ter recebido a informação de voltar para casa depois da enchente para logo depois ter que sair novamente.
“Por que eles mandaram a gente retornar para as nossas casas, limpar todo aquele lodo horrível, perigando pegar uma leptospirose? Por que a gente voltou, limpou, recebeu o auxílio de R$ 5.100 e, depois de tudo isso, eles disseram que a gente teria que sair daqui para uma obra? É uma coisa sem lógica”, reclama, ao mesmo tempo em que entende plenamente que a obra do dique é uma prioridade para todo o bairro.
“A gente quer sair daqui, porque sempre alagou. Qualquer chuva que dá, sempre alaga, só que nunca tinha alagado com a proporção do ano de 2024, que foi muito tenso. Eu saí daqui com o meu marido no último momento, quando já tinha água na metade da minha porta do segundo piso”, recorda. No andar de baixo do imóvel, morava a mãe do seu marido, que agora já se mudou.
Mariane lembra que no começo eram 58 famílias que viviam sobre o dique. Ao poucos, após o que chama de “pressão psicológica” da Prefeitura, algumas pessoas desistiram e saíram, autorizando a demolição das suas casas. Sobraram então 24 famílias e, hoje, restam as últimas seis. Durante esse período de pressão, conta que ficou na rua todos os dias, das 7h às 18h, em frente a sua casa, vigiando, cuidando, e só ia embora quando os funcionários da Prefeitura recolhiam o maquinário e também partiam.
“É uma coisa que afeta muito o nosso psicológico, principalmente de quem tem depressão, ansiedade, quem tem algum problema na família, pessoas mais idosas, pessoas que tomam medicação”, avalia. Ela diz ser muito triste pensar em deixar para trás as amizades feitas na rua, a história de uma vida. Ela tinha 17 anos quando casou e foi morar no imóvel, prestes a ser demolido.

Como o marido trabalha no Sarandi, eles escolheram um apartamento no próprio bairro, por meio do programa “Compra Assistida”, criado pelo governo federal. Mariane foi uma das primeiras a ser contemplada. Ainda assim, conta que há cerca de dois meses aguarda para assinar o contrato e pegar a chave do imóvel.
“Esse apartamento foi escolhido duas semanas depois que eu saí na lista. Ele passou por toda a fase de documentação, pela vistoria e agora está na fase de assinatura e estou há dois meses esperando para assinar”, diz, sem esconder a aflição de resolver logo o seu futuro.
Então o que falta? A pergunta óbvia encontra uma resposta que demonstra a morosidade e os meandros da burocracia. “Falta a Caixa (Econômica Federal) me levar lá e me dar a caneta pra assinar e me entregar a chave.”
Parece simples, mas não tem sido. Mariane continua passando os dias na rua, em frente sua casa, espremida entre outras duas residências cujos donos já foram embora e estão em processo de demolição. “Se eles mexerem em qualquer uma das duas casas que estão do lado da minha, a minha vai abaixo.”
No último contato com o superintendente da Caixa Econômica Federal, ela ouviu que a assinatura ocorrerá na “próxima semana”, ainda que a “próxima semana” já dure meses. “Não tem mais nada faltando. A pessoa quer vender, o apartamento está impecável, é mobiliado, inclusive, graças a Deus, porque perdi todos meus móveis na enchente.”
Enquanto vive a aflição da indefinição, Mariane ainda teve que ouvir o prefeito acusá-la de ser culpada pelo atraso na obra do dique. A situação lhe causa revolta e tristeza. “O prefeito foi muito rude com o povo. Porque o papel do prefeito é proteger o povo, né? E ele não faz isso em momento nenhum. Ele esperou um ano para botar os pés dele no Sarandi, não veio aqui quando tava cheio d’água. Ele veio aqui no momento que o dique começou a vazar e se aproveitou disso para botar as pessoas do Sarandi contra seis famílias. Ele quis fazer um tumulto, quis passar por bom, dizendo que ia passar por uma ordem judicial, coisa que ele não fez, porque teria que pagar uma multa enorme. Ou seja, ele só causou um tumulto com as pessoas, fazendo elas terem ódio da gente”, lamenta.
Apesar de tudo que tem vivido desde a histórica enchente de 2024, Mariane adota uma postura firme e ressalta que só irá embora quando assinar o contrato da casa nova e pegar a chave. “Espero que se resolva e que eles realmente estejam falando a verdade e que na semana que vem, a gente possa sair daqui. A gente quer muito ir para um lugar que não tenha alagamento.”

Se Mariane espera há dois meses para finalmente se mudar, o mesmo ocorre com a amiga Solange. Por motivos distintos, ambas passam por imbróglios burocráticos difíceis de explicar. No caso de Solange, tudo parecia estar se encaminhando para um desfecho positivo com a casa escolhida no bairro Mário Quintana. A proprietária do imóvel, que mora no interior do estado, aceitou baixar o valor de venda de R$ 250 mil para R$ 200 mil, preço máximo do programa “Compra Assistida”.
Apesar do apego afetivo ao bairro onde nasceu e morou a vida toda, ela quer ir embora, junto com o marido e a filha de cinco anos de idade. O desejo é recomeçar a vida em outro lugar, em segurança, mas também que a obra do dique seja feita e possa finalmente dar mais proteção ao bairro em que se criou.
“Já era pra gente ter saído. Quero sair, apesar de viver muito tempo aqui, a gente com certeza vai deixar esse sentimento de lado para morar num novo lugar, uma nova vida, dando assim continuação na obra (do dique), que é muito necessária para todo mundo”, reconhece.
Infelizmente, a mudança para a nova casa sofreu um revés nesta sexta-feira (27). Uma funcionária da Caixa Econômica Federal lhe ligou para dizer que seu caso voltou a “estaca zero”. “A casa que escolhi não passou na vistoria por causa de uma simples caixa d’água, que para mim não tinha problema nenhum deles liberarem. Então, agora vão ter que fazer uma nova vistoria, arrumar o que tiver que arrumar na caixa d’água e fazer uma nova vistoria”, conta.

Solange diz não compreender o problema apontado na caixa d’água pelo engenheiro que fez a vistoria, pois a caixa está fixa numa estrutura nos fundos da casa, longe de qualquer peça da residência. Além da caixa d’água, a vistoria também avaliou o imóvel em R$ 170 mil, valor abaixo do pedido pela proprietária do imóvel.
Em conversa com o corretor, lhe foi dito que será feita nova vistoria. Solange torce para que o próximo laudo libere o imóvel e ela possa, enfim, deixar a casa sobre o dique do Sarandi. “A Caixa não está nem aí, ela só quer ouvir o lado dela, não quer ouvir o lado das outras pessoas que estão trabalhando, como o corretor que conhece a casa. Então, foi lá e botou R$ 170 mil, é um absurdo. Não adianta a pessoa ir lá e não ser humana, olhar só o lado técnico, tem que ser humano também.”
Em meio à indefinição do novo imóvel, ela ainda sofre com o sentimento ruim de largar toda uma vida construída no Sarandi, os momentos bons da infância, as amizades, os vizinhos. Se confirmar a casa no bairro Mário Quintana, se mudará para um lugar desconhecido, sem referência de amigos ou conhecidos. “É bem complicado, é um sentimento de tristeza, às vezes de choro…é bem difícil.”
Com tantos sentimentos aflorados, Solange se ressente da acusação feita por Melo contra as famílias que ainda vivem no dique. Ela destaca que a Prefeitura falhou com uma série de procedimentos necessários para a realização da obra, conforme tem sido apontado nas decisões da Justiça. Por isso, se sente injustiçada com a postura do prefeito. “A gente ficou com medo até de ser linchado por quem tava aqui, porque foi muita gente ali (no dique). É perigoso mover com o sentimento de ódio das pessoas contra outras.”
Amigas, Mariane e Solange afirmam que seguirão fazendo vigília na Aderbal Rocha de Fraga para que suas casas não sejam demolidas enquanto não receberem as chaves para um novo futuro, longe da enchente.
O post ‘Melo se aproveitou do vazamento para botar as pessoas do Sarandi contra seis famílias’ apareceu primeiro em Sul 21.