A suspeita de seletividade algorítmica percebida por usuários, durante a campanha eleitoral, sobre o alcance de publicações políticas do campo progressista deixou o campo da hipótese nesta semana.
Testes realizados no ambiente do WhatsApp verificaram que a Inteligência Artificial permitiu a geração de conteúdos políticos do candidato Flávio Bolsonaro e negaram os mesmos comandos quando o pedido foi feito para materiais pró-Lula.
Nas tentativas de geração de conteúdo com a combinação “Lula” e “13”, a IA respondia negando o pedido, com frases como “essa combinação está bloqueada”. Por outro lado, ao ser demandada a gerar conteúdo com “Flávio” e “22”, o chatbot, além de atender ao pedido, ainda acrescentava ao material expressões como “Pátria, trabalho e liberdade” e “Pelo Brasil, com honra e confiança”.
Além da falta de isonomia, a ação fere a legislação eleitoral vigente no país. A resolução 23.755/2026 do Tribunal Superior Eleitoral proíbe “emitir opiniões, indicar preferência eleitoral, recomendar voto ou realizar qualquer forma de favorecimento ou desfavorecimento político-eleitoral, de maneira direta ou indireta, inclusive por meio de respostas automatizadas”.

Ao ser questionada a Meta, empresa responsável pela plataforma, alegou que ampliou os filtros para atender a legislação. A empresa participou de uma reunião, nesta quinta-feira (15), com o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, e representantes das duas campanhas. Além de questões envolvendo a geração de conteúdos, também foi discutida a circulação de informações nos canais “Exército de Lula” e “Tropa do Flávio”.
Denúncia Internacional
O Partido dos Trabalhadores protocolou uma denúncia contra a empresa proprietária do WhatsApp, Instagram e Facebook à Organização dos Estados Americanos, a OEA, por interferência no processo eleitoral brasileiro. De acordo com a campanha de Lula, o caso de parcialidade na plataforma de IA não é considerado isolado, pois, além do que veio à tona nesta semana, há também relatos de restrições no Instagram.
“A Meta não consegue nos provar que isso é fruto do acaso”, afirmou o secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares. Além dos apelos ao TSE, a campanha também apresentou um relatório detalhado à Agência Nacional de Proteção de Dados com indícios de favorecimento ao candidato Flávio Bolsonaro nas redes sociais.
“Mais uma vez a campanha vem denunciar a interferência externa nas eleições e nós sabemos o peso que tem as redes sociais hoje numa eleição presidencial, principalmente uma eleição curta, de poucos dias, que é o caso do segundo turno”, disse o senador Camilo Santana.

O coordenador da campanha reforçou que a denúncia será detalhada: “a gente vai relatar tudo que tem ocorrido de estranho, de indícios que tem interferido na campanha do presidente Lula. Tanto interrupções, derrubada de bloqueio de impulsionamento, interrupção de visualizações”, explicou. Segundo o senador, foram mais de 2,5 mil relatos de problemas apontados por usuários na página oficial de Lula somente nos últimos três dias.
A coligação “Brasil Pronto pra Mais” já havia acionado o TSE na segunda-feira (13) devido a problemas no alcance de postagens na plataforma X. Ainda nesta semana, houve uma reunião online da campanha com observadores, representantes de entidades e partidos políticos, de 12 países.
O secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares, comentou que “processo de manipulação da vontade popular não é novidade nas democracias mundo afora”, mas que o caso brasileiro merece destaque. Dentre as irregularidades apontadas, Valadares citou que a página oficial de Lula ficou com o botão de repost fora do ar durante horas, além de defeitos sistemáticos nos stories.
Falhas em anúncios
Além do caso envolvendo a plataforma de IA da Meta, a campanha já havia realizado uma denúncia formal no TSE e na ANPD por conta de problemas na divulgação de anúncios da campanha, além de interrupções na contagem de visualizações e restrições ao impulsionamento de publicações. O relatório apontou diferenças no engajamento dos candidatos desde dezembro do ano passado.
A Meta reconheceu publicamente que houve falhas técnicas, porém declarou que os problemas mencionados não afetaram exclusivamente o Brasil ou contas específicas. “Cumprimos com as normas eleitorais e estamos comprometidos com a isonomia do uso das nossas plataformas por todos”, disse a empresa.
Sociedade Civil mobilizada
A ONG CTRL+Z, que defende os direitos dos usuários, lançou a campanha “Meta tire a mão da nossa eleição”, em que organiza denúncias de banimento de contas sem explicação, especialmente ligadas aos movimentos sociais e ativistas, além de perfis de veículos da mídia independente, catalogados pela Federação Nacional dos Jornalistas.
A petição cita também um experimento promovido pela Anistia Internacional que expõe falhas na detecção de conteúdos eleitorais. Mais de 70 mil pessoas já assinaram o documento que cobra explicações sobre a moderação de conteúdos políticos nas redes sociais.
Segundo informações da coluna Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, Flávio Bolsonaro liderou o engajamento nas redes em setembro, mas Lula cresceu depois do 1º turno e alcançou mais de 9,9 milhões de interações três dias após a votação, o que representou o maior resultado diário dos dois candidatos desde 14 de setembro, de acordo com o monitoramento do Projeto Brief.