Ando em tempos de compartilhar a luta política, a meu modo algo inafastável, nessa fase da existência mais na função de retaguarda, com a tentativa de, passado já dos 80, aproximar-me de mim, esquadrinhar um pouco minha subjetividade, tarefa por si condenada ao insucesso, mas sigo, como em busca de uma utopia.
Revelo uma coisa, e isso não foi nem será resolvido: no decorrer de minha prisão e mesmo depois, descobri o quanto consegui soterrar de acontecimentos vividos por mim. As pessoas me dizem, me contam de minha participação em tantos episódios, provam por a mais b, e eu nego de modo categórico. A negativa decorre do fato de eu não me lembrar mesmo. Tais episódios sempre dizem respeito à política, e aqui por política entenda-se o período da militância anterior à prisão e durante alguns anos após.
Não resolvi e de fato não me preocupei em elucidar essa questão. Sei, isso sei: foi a maneira encontrada por mim de deixar coisas essenciais daquele período no subsolo, memórias do subsolo, muito bem guardadas, resguardadas ao ponto de não serem permitidas a mim mesmo o conhecimento delas. Coisas do inconsciente. Sei não ter sido uma escolha – pudesse, eu faria tal escolha. Ao menos, não foi consciente, obviamente.
Deu-se isso comigo, e ponto final. Muitos e muitos episódios. Não vou citá-los, esse é apenas o lead, como dizemos em jornalismo.
Assisti nos últimos dias ao filme sobre Honestino Guimarães. Um excelente documento, registro da memória daquele tempo sombrio. Fui assaltado pela lembrança de um dos esquecimentos, a envolver Honestino. Provocado por uma querida companheira: Isabel Gouvêa.
Esclareço: eu a conheci, muito jovem, secundarista do Colégio Vocacional, em São Paulo. Eu, militante de AP, fazia trabalho político no movimento secundarista e me aproximei muito dos estudantes daquele colégio, instituição de vanguarda, professora Maria Nilde Mascellani à frente.
Isabel Gouvêa, uma das quais me aproximei e consegui trazê-la para a militância. E é exatamente ela a fazer a ponte com a história de Honestino Guimarães, um dos desaparecidos políticos, um dos bárbaros crimes da ditadura militar. *
Ela, morando na Bahia faz décadas, ** num encontro fortuito, havia me revelado ter me encontrado e a Honestino Guimarães, juntos, em São Paulo. Eu, me matassem na tortura, não me lembraria disso e, portanto, não falaria do encontro. E se o encontrei naquela vez, ocasião testemunhada por ela, provavelmente tive outros encontros com ele, os dois, do movimento estudantil, os dois, militantes de AP.
Assistindo ao filme, provoquei-a. Precisava pôr no papel, e ela não se fez de rogada: abriu tudo, carinhosamente. Era final da década de 1960, começo dos anos 1970, eu ainda estava em São Paulo, caçado de todo jeito pela repressão, clandestino, já Pedro Luiz Vian, nome de minha identidade então.
Isabel cursava o terceiro ano colegial. Costumava ir a Campinas nos finais de semana. Para a chácara de uma amiga ou então para a república estudantil universitária onde moravam amigos queridos. Não só: também um namorado.
Numa dessas idas, bate à porta da casa onde funcionava a residência. O namorado abre a portinhola e tem uma reação entre lacônica e tomado por algum mal-estar.
Atônita, Isabel, não se sentindo bem-vinda, uma sensação ruim desconcertada, quem sabe uma outra namorada. Ele, então, toma da mão dela, segue para o jardim da frente e explica: o padre-coordenador da república estudantil orientara os estudantes a não receber visitas naquele dia.
No porão da casa, estava escondido um casal de perseguidos políticos, e o cuidado se impunha face à ditadura militar, naquele momento a todo vapor, prendendo, sequestrando, matando, desaparecendo com pessoas.
Desfeito o mal-entendido, ela entende perfeitamente a situação e resolve se retirar. Ele a acompanha até o portão exatamente quando o padre-coordenador ia chegando. Isabel pede desculpas por ter vindo naquele dia, não sabia daquela situação, e ia embora.
É surpreendida pela reação do padre. Nada de ir embora, fique conosco. E explicou: havia uma bebê de apenas oito meses, uma loirinha convivendo com o casal no porão havia vários dias sem tomar sol. Ela poderia pegar a criança e levá-la para passear na praça, sem despertar suspeitas. Passaria por mãe da menina, até porque ela, Isabel, também tinha cabelos loiros arruivados. Topou, emocionada, não obstante um frio na barriga, a alternar medo e coragem.
O padre entrou e pouco minutos após surgiu empurrando um carrinho de bebê, a criança dentro, e uma mamadeira com água. O sacerdote não usava batina – apenas um clergyman indicava a condição dele.
Combinou com Isabel: ele também iria para a praça. Ficaria acompanhando-as de longe, sem qualquer contato. Tudo transcorreu tranquilamente, a criança passeou, bebeu água, tomou sol, como planejado.
Isabel volta para a república, como boa mãe, e entrega a bebezinha. Faz menção de se despedir, e então a segunda surpresa: o padre a convida para dormir na casa. Dia seguinte, repetiria o passeio com a menina, novo banho de sol. Aceitou.
No jantar, depois de o padre ter tomado o cuidado de fechar todas as janelas da casa, ela viu surgir, saído do porão, o casal, pais da menina. Participaria da Ceia de Natal antecipada – período natalino.
Isabel, tomada de profunda emoção.
Do porão, surgiram Honestino Guimarães e a esposa dele, Isaura Botelho, mãe de Juliana, ele um dos mais procurados militantes políticos do Brasil.
Uma enxurrada de sentimentos, pensamentos, quase uma vertigem, ela tão jovem e parte daquele encontro, coração em descompasso.
Não lembra nada da conversa do decorrer do jantar.
Quase estupefata de estar à frente de um homem de tanta coragem, tanta entrega, dedicação, tanta disposição em enfrentar a ditadura, admirada diante do grau de doação à luta pela libertação do país.
Celebrava intimamente também a mesma atitude daquela mulher, daquela mãe, envolvida naquela batalha de um país sitiado. E ela ainda foi surpreendida com um ato, para ela, supremo, ao final do jantar, no momento do brinde com vinho: Honestino se levanta, sorrindo, alegre, ergue a taça e diz entusiasmado:
– Um brinde à vida!
Dia seguinte, Isabel repete o passeio com a menina, e depois volta para São Paulo, ainda sob o impacto daquelas últimas horas, especialmente pela energia poderosa, confiante e amorosa de Honestino.
Agora, vou deixar-me entregue ao relato de Isabel, personagem dela. Passado algum tempo, ela toma um ônibus na avenida Brigadeiro Luís Antônio, e o sobressalto: no banco de trás, sentados, conversando, Honestino Guimarães e Emiliano José.
– Fiquei paralisada por alguns segundos, e rapidamente Emiliano gesticulou enérgica e discretamente um NÃO com as mãos à altura do joelho para eu não falar com eles e nem se aproximar. Aquele milésimo de segundo que na ditadura entendíamos tudo, sempre vivendo no fio da navalha.
O ônibus com pouca gente. Isabel, pernas trêmulas e pesando feito chumbo. Coração disparado, quase sem respirar, paga a passagem, passa na roleta, e senta no meio do ônibus junto ao corredor, sem olhar para trás um segundo sequer.
– Algum tempo depois, Emiliano passou por mim, fez um discreto gesto carinhoso, passando a mão no alto de minha cabeça, e afagando meu cabelo, sem palavra ou contato visual. Foi um alento.
Logo depois, Isabel desce do ônibus, as pernas ainda bambas. Parada na calçada, aguardando o ônibus seguir. Da janela do banco de trás, Honestino se vira para ela e manda um beijo com o doce olhar dele. Uma recordação eterna, enquanto vida tiver.
– Posso ver e sentir ainda hoje a cena, nitidamente. Depois, nunca mais o vi e tempos depois os boatos de sua morte… boatos, sempre boatos, tudo então nebuloso, secreto, terrível.
Emiliano, Isabel reencontrará em Salvador, em 1979, trabalhando na sucursal do Estadão, em 1979.
– Dei um grito de felicidade: “Emiliano, você está vivo!!! O gaiato se beliscou no braço: Acho que sim”.
Estava.
Ainda estou aqui.
*Honestino Guimarães foi preso pelo CENIMAR em 10 de outubro de 1973, e desapareceu nas mãos ensanguentadas dos torturadores da ditadura militar. A família não pôde enterrá-lo. Entre aquele outubro e fevereiro do ano seguinte, a ditadura pôs em curso uma operação de extermínio contra a Ação Popular. Depois dele, um dos dirigentes da organização, os generais-torturadores seguiram com a ofensiva destinada a acabar com AP. Mataram, nesse período, Eduardo Collier, a quem encontrei na Bahia, Fernando Santa Cruz, com quem convivi na minha gestão na Ubes, Humberto Câmara Neto, com quem também estive em várias ocasiões, José Carlos Novais da Mata Machado, Gildo Macedo Lacerda e Paulo Stuart Wright, todos eles, dirigentes. A AP havia enfrentado uma dissidência – maioria tinha seguido para o PCdoB, a partir de 1972. Seguia, no entanto, em ação. Tal operação foi fatal para o partido – poucos anos depois, desaparecerá, ao menos aquela AP.
** Isabel chegou à Bahia em 1979, e na terra dos orixás, casou-se, teve uma filha, firmou-se como excelente fotógrafa, dedicada pesquisadora. Ajudou-me no livro Em carne viva, quando da abordagem do episódio de Pau de Colher, onde quatrocentos camponeses foram mortos pela metralha de um capitão pernambucano, Optato Gueiros. Íntima daquela luta como pesquisadora, me brindou com excelentes fotos, presentes na publicação. E agora retirou esse episódio a me envolver das memórias do subsolo.
Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (v. I), entre outros