
O México alcançou o menor nível de pobreza das últimas quatro décadas, segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística e Geografia (INEGI). Mais de 13,4 milhões de pessoas deixaram de viver em situação de pobreza entre 2018 e 2024, em um processo que autoridades e analistas classificam como uma virada histórica.
O feito é apresentado pelo governo como resultado direto da chamada Quarta Transformação, projeto iniciado pelo ex-presidente Andrés Manuel López Obrador e aprofundado pela atual presidenta, Claudia Sheinbaum, com a máxima “pelo bem de todos, primeiro os pobres”.
Em discursos recentes, Sheinbaum qualificou a redução da pobreza como “uma façanha” e afirmou que deve ser motivo de orgulho nacional.
Ela ressaltou que, durante 40 anos, a pobreza no país não havia diminuído de forma consistente e, em alguns períodos, chegou a crescer. Entre 2006 e 2018, por exemplo, o México ganhou mais de 15 milhões de pobres, um cenário descrito pela mandatária como “fábrica de pobres”.
O contraste, segundo a presidenta, está no novo modelo de desenvolvimento, que direciona recursos públicos para os setores mais necessitados e promove uma redistribuição mais equilibrada da riqueza nacional.
A queda da pobreza foi acompanhada de uma redução expressiva da desigualdade. De acordo com a Pesquisa Nacional de Renda e Despesa das Famílias, em 2012 os mais ricos ganhavam 38 vezes mais que os mais pobres.
Hoje, essa diferença caiu para 14 vezes. “Ou seja, a riqueza foi distribuída”, resumiu Sheinbaum, ao sublinhar que essa transformação só foi possível porque o Estado retomou responsabilidades que haviam sido relegadas ao setor privado nos anos do neoliberalismo.
O aumento histórico do salário mínimo é apontado como a primeira razão para a mudança.
O piso salarial dobrou de valor em seis anos, sem provocar inflação, e a meta do governo é que ele alcance o equivalente a duas cestas e meia de bens básicos — atualmente cobre 1,8. Apenas em 2025, o salário foi reajustado em 12,5%. Essa política, segundo Sheinbaum, elevou também os demais salários e reforçou o consumo interno.
Outro eixo central foram os Programas de Bem-Estar, que deixaram de ser ações focalizadas e passaram a ser reconhecidos como direitos universais.
Entre os exemplos, estão a Pensão Universal ao Idoso, que hoje beneficia 13 milhões de pessoas; bolsas para estudantes do ensino médio público; pensões para pessoas com deficiência; apoio a pequenos agricultores com até dois hectares de terra; e o programa Sembrando Vida, que atende meio milhão de trabalhadores rurais.
Somados, os programas alcançam mais de 30 milhões de famílias mexicanas.
“A pensão é um direito do povo do México”, disse a presidenta ao reafirmar que o combate à pobreza passa também pelo reconhecimento formal de direitos.
O investimento público em grandes obras foi outro pilar da estratégia. Projetos como o Tren Maya, o Corredor Interoceânico do Istmo de Tehuantepec e a refinaria de Dos Bocas, além de ampliarem a infraestrutura nacional, atraíram capital estrangeiro e impulsionaram o emprego formal.
Sheinbaum destacou que o fim do modelo de terceirização conhecido como outsourcing também contribuiu para gerar postos de trabalho mais estáveis.
A saúde apareceu como dimensão simbólica dessa mudança. Em eventos no Estado do México e em Jalisco, a presidenta inaugurou e reinaugurou unidades hospitalares que haviam sido abandonadas ou destruídas, como a Unidade de Medicina Familiar 93, em Ecatepec, e o Hospital Regional de Tlajomulco.
“A saúde, o acesso à saúde é um direito do povo do México estabelecido na Constituição, e o Estado deve prover esse acesso da melhor maneira. O IMSS é patrimônio nacional”, afirmou Sheinbaum, ao lado de autoridades locais e do diretor do Instituto, Zoé Robledo.
A presidenta também aproveitou essas ocasiões para anunciar novas medidas: a expansão da Pensão Universal para mulheres de 60 a 62 anos, a construção de um Centro de Educação e Cuidado Infantil em Ecatepec e a meta de elevar o salário mínimo gradualmente até chegar às 2,5 cestas básicas.
O marco de quatro décadas sem uma redução consistente da pobreza dá o tom de como o governo busca apresentar os resultados da Quarta Transformação. A expressão é utilizada no México para designar o projeto político iniciado por Andrés Manuel López Obrador em 2018 e continuado por Claudia Sheinbaum.
Inspirado em três momentos fundacionais da história nacional — a Independência, a Reforma e a Revolução Mexicana —, o termo remete a uma “quarta grande mudança”, voltada para romper com o neoliberalismo, fortalecer o papel do Estado, ampliar direitos sociais e colocar os mais pobres no centro das políticas públicas.
Para Sheinbaum, o contraste com o neoliberalismo é evidente. “Esse modelo afirmava que era muito melhor que tudo fosse privado e que o setor público praticamente desaparecesse, que o governo não tinha capacidade de oferecer serviços em benefício da população. Só não avançou mais porque não foi permitido”, afirmou.
Ao contrário, sua gestão reforça o papel do Estado em garantir direitos constitucionais como saúde, educação e seguridade social.
O feito é tratado como conquista histórica, mas também como um processo em aberto.
Ao mesmo tempo em que o governo celebra a marca de 13 milhões de pessoas que saíram da pobreza, reforça que a continuidade das políticas sociais e dos investimentos públicos será determinante para que os avanços não sejam interrompidos.
O México, após quatro décadas de estagnação, mostra que é possível reverter tendências de miséria e desigualdade, desde que o centro da política econômica esteja, de fato, nos que mais necessitam.
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