Há 59 anos, em 31 de agosto de 1967, a revolucionária teuto-argentina Tamara Bunke era assassinada por militares bolivianos durante uma emboscada no Vado del Yeso, coordenada pelo capitão Mario Vargas.
Filha de comunistas exilados que fugiram da Alemanha após a ascensão de Adolf Hitler, Tamara exerceu diversas funções no governo revolucionário cubano. Em 1963, ela foi recrutada para servir como espiã da Inteligência Cubana, auxiliando Che Guevara na tentativa de criar um novo foco insurgente na América do Sul.
Durante a “Operação Fantasma”, Tamara se infiltrou junto à elite política e militar da Bolívia e ajudou a estabelecer uma rede de apoio para a Guerrilha de Ñancahuazú. Após ter sua identidade exposta, ela se uniu aos combatentes, tornando-se a única mulher a participar da guerrilha de Che Guevara na Bolívia.
Juventude, militância e formação
Haydée Tamara Bunke Bider nasceu em 19 de novembro de 1937, em Buenos Aires, Argentina. Ela era filha caçula da polonesa Nadia Bider e do alemão Erich Bunke, ambos judeus e militantes ativos da causa comunista. O casal havia fugido da Alemanha logo após a ascensão dos nazistas ao poder, em 1933.
A família se estabeleceu no bairro de Once, um dos principais polos de comércio popular em Buenos Aires. Tamara cursou o ensino primário na Escola Cangallo Schule, onde seu pai trabalhava como professor. Interessava-se por música e dança folclórica, sobretudo pela zamba, e aprendeu a tocar piano, violão e acordeão. Destacou-se ainda como atleta, praticando diversas modalidades no Club Vorwärts, em Quilmes.
Os pais de Tamara exerceram forte influência sobre a visão de mundo e a formação política da filha. Aos 14 anos, já matriculada na Escola Normal Nº 9, ela ingressou na Federação da Juventude Comunista (FJC), o órgão juvenil do Partido Comunista da Argentina (PCA). Atuava nas tarefas de base e colaborava na redação do jornal “Juventud”.
Em 1952, após a fundação da República Democrática Alemã (RDA, ou Alemanha Oriental), a família Bunke decidiu deixar a Argentina e se mudou para Stalinstadt, uma cidade planejada para servir como modelo de gestão socialista. À época, o governo da RDA mantinha uma campanha que visava estimular o retorno das famílias comunistas exiladas durante o regime nazista, convidando-as a colaborar com a reconstrução do país.
Dando continuidade à sua militância política, Tamara se filiou à Juventude Livre Alemã e, posteriormente, ao Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED). A participação nas atividades da Federação Mundial da Juventude Democrática permitiu que a jovem realizasse diversas viagens, conhecendo cidades como Viena, Praga e Moscou.
Tamara estudou Letras e Filosofia na Universidade Humboldt de Berlim e recebeu treinamento para defesa junto à Associação para Esportes e Habilidades Técnicas, tornando-se instrutora de tiro. Estudiosa, a jovem dominava cinco línguas — inglês, espanhol, francês, alemão e russo —, o que a habilitou a atuar como intérprete e tradutora de delegações estrangeiras que visitavam a Alemanha Oriental.
Atividades em Cuba
O trabalho como intérprete possibilitou que Tamara conhecesse pessoalmente Che Guevara. Em 1960, o revolucionário argentino visitou a Alemanha Oriental como membro de uma delegação incumbida de estreitar os laços entre o governo de Cuba e as nações do bloco socialista europeu. Tamara serviu como intérprete da comitiva de Che Guevara e, paralelamente, atuou como tradutora para a bailarina Alicia Alonso, do Balé Nacional de Cuba.
O recente triunfo da Revolução Cubana havia despertado enorme entusiasmo entre os militantes de esquerda em todo o mundo, tornando-se um símbolo poderoso da luta popular contra os regimes autoritários, o imperialismo e o colonialismo. Fascinada pela façanha dos guerrilheiros de Serra Maestra, Tamara não pensou duas vezes quando Alicia Alonso a convidou a ir para Havana.
Cuba vivia os primeiros anos turbulentos da revolução quando Tamara chegou em maio de 1961. As nacionalizações e reformas conduzidas pelo gabinete de Fidel Castro criaram crescentes atritos com os Estados Unidos, que culminariam em uma tentativa de depor o novo governo através da Invasão da Baía dos Porcos. Reagindo às pressões e tentativas de desestabilização coordenadas a partir de Washington, os revolucionários mobilizaram a população a se engajar na luta pela soberania da ilha.
Tamara se destacou por seu comprometimento com a defesa da revolução, exercendo diversas funções e participando das jornadas dos voluntários. Estudou Jornalismo na Universidade de Havana, trabalhou no Ministério da Educação e no Instituto Cubano de Amizade com os Povos (ICAP) e ajudou a organizar a conferência da União Internacional de Estudantes em Havana.
A jovem também atuou como professora voluntária no interior cubano e se juntou aos mutirões responsáveis pela construção de creches, escolas e hospitais. Participou da célebre Campanha Nacional de Alfabetização, que erradicou o analfabetismo da ilha em um período de apenas nove meses, e foi integrante das Milícias de Defesa Popular. Destacou-se ainda como dirigente nacional da Federação das Mulheres Cubanas (FMC), organização voltada ao fomento da participação política feminina.

via Jornal GGN
Carreira como espiã
A fidelidade de Tamara à revolução e sua entrega à causa da libertação latino-americana impressionaram os dirigentes do país. Che Guevara decidiu então recomendá-la para atuar em ações especiais junto à Diretoria de Inteligência Cubana. Em março de 1963, Manuel Piñeiro Losada, o chefe da inteligência cubana, convidou Tamara para se tornar uma agente secreta.
O treinamento de Tamara para missões de espionagem ficou a cargo de Ulises Estrada, que se tornaria seu parceiro amoroso. A jovem, então com 25 anos, foi designada para atuar na chamada “Operação Fantasma”, um núcleo incumbido de fortalecer e prestar apoio aos movimentos revolucionários latino-americanos.
Tamara aprendeu técnicas de vigilância, contravigilância e comunicação secreta. Foi instruída no uso de identidades falsas, criptografia e organização de redes clandestinas. Seu nome de guerra era “Tania”, uma homenagem que evocava o pseudônimo utilizado pela partisan soviética Zoya Kosmodemyanskaya, mártir da resistência antinazista.
Em 1964, Tamara viajou à Tchecoslováquia sob uma identidade falsa. Ela passou quatro meses no país, sendo treinada pela Segurança Estatal (StB) no Campo Ládví. Em seguida, viajou para a Europa acompanhada de oficiais da inteligência cubana, tanto para buscar informações quanto para elaborar uma biografia fictícia que usaria como cobertura. Empregou vários nomes falsos no período, incluindo “Haydée Bidel Gonzalés”, “Marta Iriarte” e “Vittoria Pancini”.
Concluído o treinamento, Tamara recebeu instruções diretas de Che Guevara sobre sua missão. A agente seria enviada para a Bolívia, país escolhido como ponto estratégico para criar um novo foco guerrilheiro, a partir do qual a luta revolucionária pudesse se expandir para outros países da América do Sul.
Tamara foi incumbida de estabelecer relações com representantes da classe política e do alto comando das Forças Armadas na Bolívia. Ela assumiu a identidade de “Laura Gutiérrez Bauer”, uma suposta etnóloga e antropóloga, especializada em arqueologia e nascida em Buenos Aires. Entre as estratégias adotadas por Tamara estava a de ministrar aulas de alemão para os filhos da oligarquia local, obtendo um pretexto para frequentar as casas de famílias poderosas.
Carismática e talentosa, “Laura” ingressou rapidamente nos círculos restritos da elite. Travou contato com artistas como Ortega Leytón e Moisés Chire Barrientos e se aproximou de burocratas, ministros e altos oficiais, incluindo o general Alfredo Ovando Candia, comandante do exército. Acabou por fazer amizade com o próprio presidente da Bolívia, René Barrientos Ortuño, que a convidou para acompanhá-lo em viagem de férias.
Por meio de seus contatos, “Laura” conseguiu ter acesso às dependências do chefe de informações da presidência e aos boletins restritos do alto escalão do governo. Como parte de seu disfarce, ela assumiu um cargo no Departamento de Folclore do Ministério da Educação, elaborando um dos mais abrangentes compêndios de canções populares nativas. Para obter a cidadania boliviana, Tamara arranjou um casamento de conveniência com o estudante universitário Mario Martínez.
A guerrilha
Ao longo do segundo semestre de 1966, à medida que os planos de Che Guevara para a instalação de um foco guerrilheiro na selva boliviana avançavam, o papel de Tamara se tornou cada vez mais operacional, voltado à construção de uma rede de apoio logístico aos guerrilheiros.
Tamara era responsável por receber os futuros combatentes que chegavam clandestinamente à Bolívia e organizava o deslocamento até a região de Ñancahuazú, onde seria montada a base de operações da futura coluna revolucionária. Ela também tentou cooptar apoio das organizações da esquerda boliviana e chegou a conduzir Mario Monje, Secretário-Geral do Partido Comunista da Bolívia, para uma reunião com Che Guevara. Monje, no entanto, recusou-se a apoiar a guerrilha.
Che Guevara recomendou a Tamara que não retornasse ao acampamento para não correr o risco de ser descoberta, mas, em março de 1967, a agente fez uma nova visita a Ñancahuazú, levando consigo o jornalista francês Régis Debray e o ex-guerrilheiro argentino Ciro Bustos.
No mesmo período, três membros da guerrilha desertaram e informaram as autoridades bolivianas sobre a localização do grupo. Durante as buscas pela região, os militares bolivianos encontraram um imóvel utilizado pelos revolucionários e um jipe onde havia documentos expondo a verdadeira identidade de “Laura Gutiérrez Bauer”. Com seu disfarce comprometido, Tamara não podia regressar a La Paz. A agente foi então incorporada à guerrilha, tornando-se a única mulher a combater no movimento insurgente de Che Guevara na Bolívia.
A vida na selva impunha dificuldades terríveis e as condições se deterioravam rapidamente à medida que o exército boliviano, diretamente auxiliado pela CIA, apertava o cerco contra os rebeldes. Em abril de 1967, Tamara acabou se ferindo na perna e desenvolveu uma febre persistente após uma infestação de parasitas.
Com a saúde debilitada, Tamara foi transferida para uma coluna de guerrilheiros enfermos comandada por Juan Vitalio Acuña Núñez, exercendo principalmente funções de retaguarda, gestão de suprimentos e monitoramento de transmissões de rádio. A divisão era necessária para que Che Guevara e os combatentes saudáveis pudessem avançar com maior rapidez pela densa vegetação da região.
Em 31 de agosto de 1967, já enfraquecida por múltiplas deserções e ataques dos militares, a coluna comandada por Acuña Núñez caiu em uma emboscada preparada por um destacamento especial do exército boliviano no Vado del Yeso, sob comando do capitão Mario Vargas. A emboscada foi viabilizada pela delação do camponês Honorato Rojas, um antigo aliado dos guerrilheiros que fora capturado pelas tropas bolivianas.
Tamara morreu após ser atingida por uma rajada de tiros enquanto tentava cruzar o Rio Grande. A guerrilheira tinha 29 anos de idade. Outros oito combatentes morreram no ataque. Algumas semanas depois, em outubro de 1967, o próprio Che Guevara tombaria em combate.
A CIA conduziu uma campanha de desmoralização e difamação contra os insurgentes, ventilando boatos sobre escândalos sexuais e tentando rotular Tamara como amante de Che Guevara — uma narrativa que é cabalmente desmentida pelas evidências historiográficas.
O corpo de Tamara foi levado pela correnteza e somente foi encontrado dias depois. As camponesas se organizaram para obrigar os militares a concederem a Tamara um “enterro cristão”. Sua sepultura somente foi localizada em 1998.
A pedido da mãe de Tamara, seus restos mortais foram trasladados para a cidade cubana de Santa Clara e depositados no Mausoléu Che Guevara. Tamara Bunke foi proclamada por Fidel Castro como heroína da Revolução Cubana, figurando no panteão dos mártires da ilha. A guerrilheira foi homenageada em canções, filmes, poemas e livros e empresta seu nome a escolas, hospitais e equipamentos públicos de Cuba e de outros países.
O post Militante, espiã e guerrilheira: a trajetória de Tamara Bunke apareceu primeiro em Opera Mundi.