Corria o ano de 2001.
Naquela época trabalhava como repórter freelancer para várias publicações do Brasil e do exterior.
Recebi a incumbência, então, da Revista Reportagem, dirigida pelo grande jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, de cobrir a 9ª Reunião do Foro de São Paulo, que se realizaria em Havana.
Lá fui eu, escrever meus modestos artigos sobre o colóquio, que reunia os principais dirigentes da esquerda latino-americana.
Estava prevista a presença de Fidel Castro no ato de encerramento, mas surpreendentemente ele chegou no meio das atividades, que se realizavam no Palácio das Convenções, ocupando um lugar na mesa e ouvindo as intervenções que debatiam os mais diversos assuntos.
Quando a sessão foi encerrada, para que os delegados pudessem jantar antes das solenidades finais, Fidel fez uma afirmação para os jornalistas que se acotovelavam na fila do gargarejo, bem próxima ao palco:
– Maradona foi o maior jogador da história do futebol.
O ídolo argentino estava em tratamento na ilha, tinha desenvolvido uma relação de amizade com o líder cubano, que pela primeira vez na vida se interessava pelo esporte bretão, como diria o saudoso radialista Fiori Giglioti.
Eu fiquei enfezado, cercado por jornalistas portenhos, e me arrisquei:
– Comandante, o senhor pode entender de beisebol e revolução, mas de futebol está por fora. Maradona não é metade do Pelé, em números, feitos ou talento.
Abriu-se uma ferrenha discussão, obviamente movida a humor. Ele escutava meus argumentos, nitidamente encantado pela personalidade de Maradona, mas sem poder refutar os fatos que eu desfilava, transbordando minha alma santista.
Entre contrariado e convencido, ele deu uma última espetada:
– Está bem, está bem. Peço desculpas por minha afirmação precipitada. Como posso reparar meu erro?
Não tive dúvidas:
– Gostaria de uma entrevista com o senhor assim que se encerrasse a reunião.
Todo mundo riu. Ele também. E fui-me embora jantar, certo de que minha proposta não tinha sido levada a sério.
Eu já estava fora do auditório quando um segurança veio correndo me chamar:
– Brasileiro, brasileiro, aonde vai? O comandante está te chamando, volte para o auditório.
A passos rápidos, retornei. Ele já tinha se retirado, mas seu secretário privado me aguardava:
– Depois da atividade, aqui mesmo no Palácio das Convenções, o comandante te receberá para a entrevista.
Cumpriu sua palavra. Às 3h da manhã, depois de discursar por quase quatro horas, estava a postos para responder minhas perguntas.
O encontro demorou quase treze horas, só foi se encerrar às 16h. Jantamos, tomamos café da manhã, lanchamos e almoçamos enquanto ele aceitava abordar todos os temas, sem restrição ou cerimônia.
Dizem que foi a mais longa entrevista contínua que ele concedeu na vida. Somente seria publicada em março de 2002. Era uma época marcada pelo colapso econômico argentino, que levaria à renúncia do presidente Fernando de la Rua, e pelo início da guerra dos Estados Unidos contra o Afeganistão, em retaliação ao atentado contra o World Trade Center.
Também era um momento definido pela crise do neoliberalismo na América Latina. Hugo Chávez tinha tomado posse na Venezuela menos de três anos antes e já se vislumbravam as chances de Lula chegar ao Palácio do Planalto.
O que vocês lerão a seguir é uma versão mais enxuta, adequada aos tempos das redes sociais.

Os atentados contra Nova Iorque e a guerra contra o Afeganistão
Como o senhor explica a decisão dos Estados Unidos de ir a guerra no Afeganistão? Trata-se de uma retaliação contra os grupos responsáveis pelo atentado de 11 de setembro, buscando aniquilar uma ameaça à segurança norte-americano, ou vai além disso, em sua opinião?
Os EUA gastam dinheiro com as guerras principalmente porque há uma crise, há problemas, e eles têm que desviar atenção para a guerra. Quando há guerra, fornecem muitas armas, navios e tudo o mais, colocando dinheiro em circulação. Eu me recordo que, na Segunda Guerra Mundial, a economia estava em crise. Roosevelt não começou esse conflito, mas tirou o país do isolacionismo. Viu o perigo do fascismo e aproveitou a oportunidade.
Como a Grã-Bretanha ainda era dona de grandes colônias, como a Índia, e exercia quase um monopólio sobre suas atividades econômicas, os norte-americanos negociaram com Churchill [Winston Churchill, primeiro-ministro conservador] e trocaram apoio militar por liberação do comércio com aqueles países. Ele era autenticamente partidário do livre comércio, saiu da crise de 1929 com a construção de infraestrutura. Injetou dinheiro no mercado, ainda que isso tenha produzido um pouco de inflação.
Roosevelt fez andar a economia. Mas me recordo que, começada a guerra, os preços subiram e ele aumentou os salários. Além disso, a guerra reduz o desemprego, muita gente alistada recebe salário.
Eu me lembro, quando tinha 15 anos, talvez 16 – sou de 1926 – e começou a guerra, acho que em dezembro. Recordo os discursos de Roosevelt, os orçamentos e planos militares: construir não sei quantos milhares de aviões, não sei quantas dezenas de milhares de tanques, de canhões, de navios. Eles vinham de uma crise com desemprego e puseram todo mundo a trabalhar.
E já desde a Primeira Guerra haviam descoberto o mecanismo para financiar as guerras. Os bônus surgiram com a Primeira Guerra Mundial. Venderam aos bancos, os bancos lhes entregavam o dinheiro disponível, davam-lhes a vantagem de uma capacidade maior de crédito, reduzindo a quantidade de dinheiro que deviam guardar como cobertura, pagavam juros por esses bônus.
Assim surgiu a guerra. Como a economia dos EUA sempre prosperou, os bônus não se desvalorizavam. Venciam, ganhavam juros, eram convertidos em dinheiro no caixa. As pessoas, assustadas, não queriam nem investir o dinheiro nas bolsas, colocavam suas poupanças em bônus porque tinham confiança.
O dólar era estável, tinha a garantia de moeda do Estado. A única razão pela qual se produzia inflação era porque as pessoas tinham mais dinheiro no bolso, mais demanda. Os investimentos em armas davam emprego ao povo e aumentavam os salários.
Como havia dinheiro suficiente na economia, tomavam emprestado, não confiscavam como Cavallo [o ex-ministro da Economia da Argentina, Domingos Cavallo]. Entregavam às pessoas uns papéis que rendiam juros, em troca de suas reservas, das famílias e das empresas. Havia muita confiança nesses papéis, nesses títulos de dívida pública, que depois iriam substituir o lastro-ouro sem abalar a economia norte-americana.
Na Segunda Guerra Mundial, os EUA tinham 80% do ouro do mundo porque ganharam o primeiro conflito sem seu território ser tocado. Tinham recursos naturais, indústrias, todo o alimento que quisessem. Vendiam, forneciam e prosperavam na guerra, que ajudava a economia.
E esta guerra atual, contra o Afeganistão?
Esta guerra, não. A quem você vai vender armas? Esta guerra não irá gerar consumo de armas, a não ser que não sejam armas norte-americanas.
Mas há reservas petroleiras no país, como circulam em alguns meios?
Não. Isso são invencionices.
Mas toda a família Bush é de origem petroleira e toda a administração Bush tem raízes no petróleo, não?
Sim, mas é uma guerra deflagrada por hegemonia, por mais poderio. Essa administração vem com uma forte dose de prepotência. Querem poder sobre o mundo. Eles sabem que têm rivais. A China, com um promissor futuro econômico, talvez militar. Sabem que a Rússia possui armas, mesmo que ainda não sejam capazes de atingir alvos nos Estados Unidos.
Para os norte-americanos, a segurança é uma religião. Inculcaram isso nas pessoas, que não pode haver nenhum perigo. Qualquer coisa que aconteça no Haiti, dizem que é um perigo para a segurança dos EUA. Imagine se Cuba fizesse a loucura de produzir armas nucleares. Se disparássemos três mísseis, eles podem disparar trezentos contra nós. Melhor fazer uma guerra com estilingues, pedras e coisas assim. Legitimar o emprego de uma arma que possuem mil vezes mais não tem lógica nenhuma.
Acha que essa guerra por hegemonia, como a classifica, pode se estender até a América Latina?
Não, não. Na América Latina não há nenhuma necessidade de fazerem uma guerra. Basta darem ordens.
Os norte-americanos falam de novas etapas de guerra. De alguma maneira isso pode gerar novos problemas de segurança para Cuba?
Não, nenhum problema novo, porque lá se vão 43 anos com o mesmo problema de segurança, estamos acostumados mentalmente com isso, não há nenhum novo perigo. A quem atacarão é coisa que ninguém poderá adivinhar, inclusive não estou muito seguro de que o saibam na Casa Branca e no Pentágono. Eu não estou em guerra nem com os EUA nem com os talibãs. Não conhecemos um único talibã, nem temos relação diplomática.
Temos que levar em conta uma coisa. Há fotos de Bin Laden nos EUA com os chefes da contrarrevolução nicaraguense, porque foram também dessa turma. Nós não temos embaixada no Afeganistão, tivemos durante um tempo, mas nossa gente teve que defender-se lá porque iam tomar a representação. Os nossos tinham armas e se defenderam. E aí se retiraram, porque era o caos total e foram os do Norte que os ajudaram. Não conhecemos ninguém do grupo do Sul [talibãs], que também recebeu muitas críticas quando começou a destruir as estátuas de Buda.
Nossa posição não tem nada que ver, nenhuma relação com Bin Laden ou com os talibãs. Mas nosso ponto de vista é diferente do norte-americano, porque acredito sinceramente que guerra não resolve. Seria muito mais fácil, menos custoso e arriscado, resolver isso por via política, reunindo todas as forças políticas do mundo, sem exceção, criando uma consciência a partir da enorme consternação que o atentado terrorista produziu no mundo.
Mas a ação dos EUA obedece a outras razões: necessitavam exaltar o machismo, o espírito nacional, o fervor patriótico, para levar a cabo uma determinada estratégia de hegemonia.

Uma nova Internacional?
Os movimentos antiglobalização podem jogar um papel importante nesse momento? Podem vir a ser uma continuação do velho internacionalismo proletário, parece ter se esfumado?
Não somente isso, mas muito melhor. Por não nascerem como partidos, tão regulamentados, mas como algo muito espontâneo e livre, com normas de respeito à opinião de cada um e espírito de união e criatividade, podem chegar a ser algo melhor que a antiga Internacional.
Está propondo refundar a Internacional?
Uma Internacional que não se defina com uma ideologia regulamentada, mas sim sobre princípios. Muito mais rica em variedade de ideias, de iniciativas, de critérios, de discursos. Organizada sob princípio do consenso, o que não quer dizer unanimidade, nem se basear em ambições, em caudilhismo.
Hoje não pode haver uma Internacional com um perfil estreito, mas só com muito mais amplitude. Criar força na coincidência de pilares fundamentais. Um deles, a justiça social. Outro, os valores éticos. Outro, o antineoliberalismo.
Com a globalização se impondo ao mundo, outro desses pilares é a luta contra a Alca, a luta em defesa da soberania nacional, a luta para preservar a pureza da cultura, proteger e preservar as culturas autênticas, que vão desde o idioma até as questões artísticas, os dialetos, a ecologia. Os participantes podem ser crentes ou não, praticar qualquer religião, o que importa é uma série de princípios éticos e sociais.
O marxista pode ser cristão ou não, e vice-versa. Eu tive que ler a Bíblia. Mas quero conhecer os princípios do cristianismo, as ideias do Novo Testamento, não do Velho, que expõe uma religião que começava a nascer, que tinha características primitivas, com um deus vingativo, um deus que castiga. Lembro-me do castigo ao filho de Noé, por exemplo, porque enganou o pai, cultivou a vinha, produziu vinho, bebeu um pouquinho além da conta e riu do pai, sendo condenado a que seus descendentes fossem negros.
Algum dia tem que se ver essas coisas num sínodo com o papa. E este papa fez bastante coisa, porque para dizer que a teoria da evolução não é inconciliável com a doutrina da criação, tem que ser um papa com toda a autoridade do Império do Mal, como diz aquele outro cavalheiro. O papa é um crente sincero e sente amor pelas crianças. Eu o vi saudando as crianças, a ternura que ele sente. A gente vê que ali não há teatro, embora ele conheça teatro, sabe representar e ser um ator.
E o senhor, conhece teatro?
Eu, que não conheço nada, não faço outra coisa [risos].

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A situação da América Latina
Considera a crise da Argentina uma situação específica ou parte de uma crise estrutural do modelo neoliberal na América Latina?
Olhe, há muitas coisas aí. Você tem que partir do fato de que há uma dívida colossal [dos países latino-americanos] que se criou inclusive antes da aplicação rigorosa do neoliberalismo. Já deviam cerca de US$ 300 bilhões e essa dívida continuou crescendo e deve estar neste momento em US$ 800 bilhões. Pagaram, na última década, US$ 950 bilhões, quer dizer, quase US$ 200 bilhões a mais do que devem.
É impossível pagar isso quando se tem que tomar tantos por cento do Produto Interno Bruto e do orçamento nacional. Não pode haver escolas, nem hospitais, nem um monte de serviços que se poderia prestar às populações. A dívida criou uma crise por si mesma e é em si mesma uma, tragédia que pesa sobre a economia dos países.
A situação tão crítica da Argentina não poderia afetar o Brasil, que tem um processo eleitoral em marcha, facilitando o voto em Lula?
Se o neoliberalismo se desprestigia terrivelmente, vai favorecer os que forem antineoliberais. Foi o que aconteceu em alguns lugares, no Equador por exemplo. Não sei neste momento qual é a situação econômica do Brasil, mas entendo também que não é um país a salvo de complicações.
A seu ver, há uma crise geral do modelo?
Há uma crise mundial e é séria, devido ao fato de a economia estar tão globalizada. A Rússia, com cerca de 2% do PIB mundial, criou uma crise por não pagar uns milhões de bônus vencidos. Teve que correr ao Grupo dos 8. O Brasil também foi ajudado, com US$40 ou US$50 milhões, o que era preciso para não estourar uma crise. Com a crise russa, houve uma queda nas bolsas de valores no mundo todo. Aqui, na América Latina, uma crise brasileira arrastaria todos os demais e daria um golpe tremendo na economia norte-americana, que tem aqui seus maiores investimentos.
Por quatro ou cinco anos recebemos um boletim semanal com artigos selecionados das revistas econômicas mais sérias, e acompanhamos todos os dados, teorias, tudo. Fiz um artigo apoiado sobre dados recebidos em 8 de setembro, três dias antes dos atentados, e já eram tenebrosos. Foi o que aconteceu em 29. Os efeitos começaram então a se fazer sentir em cadeia, mais desemprego e menos consumo devido ao desemprego, porque são mecanismos livres atuando em virtude de determinadas leis econômicas. Todo mundo sabe que se você começa a vender muito mais do que as pessoas necessitam ou podem pagar, de imediato o preço começa a baixar.
Há uma crise de superprodução.
Disse-lhe há pouco que vejo se aproximar uma crise como a de 29. É o mesmo fenômeno. Inflam o valor das ações, uma riqueza virtual. Conheço Ted Turner, sou amigo dele desde antes que fundasse a CNN e faz três anos que lhe digo: “Ted, você não teme que esse globo enorme se desinfle e que o valor das ações caia?” E ele me diz: “Claro que sim. Por que acha que doei US$ 1 bilhão para as Nações Unidas?” É um sujeito simpático, gostava de caçar e pescar comigo, e vinha fazer pesca submarina.
Agora tem meia Patagônia e o melhor rio de salmão, me contou, fica lá em Bariloche. Está criando bisões na Califórnia, comercializando. O dinheiro não lhe importa, mas gosta dos negócios. Para os norte-americanos, vender, comprar, tirar o mercado uns dos outros se converte em um vício. Então é o seu esporte, como a outros agrada jogar xadrez.
Eu não digo que será uma crise estrutural igual a de 1929, as condições são bem diferentes, e as repercussões poderão ser muito maiores.
E quanto às alternativas?
Não é uma pergunta fácil, as alternativas são complicadas e difíceis. Dependem primeiro do nível de preparo da população e do conhecimento. E, desgraçadamente, a população, em temas econômicos, percebe e sente a crise quando lhe falta dinheiro, quando as coisas estão caras e quando há inflação. Mas não conhece bem as causas.
Há o velho sonho de exportar e vender, que é a tragédia dos nossos países, tendo que pagar tarifas altas aos países ricos. Todos os países se tomaram ricos protegendo-se com as tarifas e assim se desenvolveram. E agora pretendem que os países pobres se desenvolvam sem proteção para suas indústrias e sem a receita das tarifas. O que se deve compreender é que eles têm mais experiência, mais tecnologia, mais organização, mais publicidade, mais dinheiro.
Porque se você e eu estamos em iguais condições para vender sapatos e os produzimos exatamente da mesma qualidade, mas você pode dar a qualquer loja, a qualquer comerciante, um crédito para que lhe pague dentro de um ano, com juros fixados, ou em dois anos, e eu não posso oferecer isso, vão comprar de você, ainda que os produtos sejam iguais. Você tem todas as vantagens e eu, nenhuma, embora façamos o mesmo produto.
Isso acontece até mesmo entre nossas empresas. E eu lhe digo, somos socialistas neoliberais: às vezes nos damos conta de que estamos subsidiando em divisas, que têm um papel chave em nossa economia ou modelo econômico traçado à mão.
O caminho da esquerda
Comandante, em Cuba há um outro sistema econômico e social. Considera que a situação na América Latina está madura para que a esquerda volte a defender, como fez nos anos 60 e 70, um projeto socialista?
Mais que projeto, creio que a esquerda está preparada para defender determinados princípios e determinados objetivos.
Isso não é o socialismo.
Ainda não pode ser. Não creio que haja condições. O momento em que fizemos a revolução socialista em Cuba era muito diferente deste. Havia duas potências, havia um ponto onde apoiar-se.
Se começarem a combater o neoliberalismo, já travarão uma batalha altamente proveitosa em defesa dos interesses de seus países, da população, da independência, em defesa de uma política mais justa. Se começam a despojar o Estado, a privatizar e vender tudo, todas as terras e riquezas de que carece a nação – o que já ocorreu na Argentina, que já vendeu estradas, parques, petróleo, comunicações, ferrovias, vendeu tudo –, será uma tragédia. Criaram hábitos de consumo, dívidas que agora têm que pagar. Basta que os EUA subam os juros de 2% para 8% e será o diabo, a não ser que tenham recebido empréstimo com taxa fixa.
Uma pergunta sobre o Fórum de São Paulo, dez anos depois de sua fundação: melhorou a situação da esquerda?
É melhor. Eu mesmo não estava tão informado sobre o Fórum, porque estávamos em pleno período especial. Agora é mais necessário do que nunca. Temos que unir muita gente que tem critérios diferentes e há que respeitá-los. Temos que aprender a trabalhar com essas diferenças.
Mas acredita que a esquerda, voltou a ter possibilidade de ser protagonista na América Latina?
Eu digo que pode chegar a ter, devido à crise, a todo esse combustível que é a crise. A Revolução Francesa não foi invenção de ninguém, era uma fome tremenda, um regime insuportável, intolerável, que obstruía todo o desenvolvimento. Não cheguei a ler dez livros sobre o assunto, mas li o suficiente para compreender que aquilo tinha que estourar numa revolução. Deu-se, como definiu Marx, o choque das forças produtivas com a superestrutura, o sistema.
O que se passa em Cuba?
Como a crise desencadeada pelos atentados e a guerra no Afeganistão afetam diretamente Cuba?
De muitas formas. Afetam o preço do níquel, que baixou 50%, afetam as exportações de tabaco em várias dezenas de milhões, afetam o turismo, embora não dependamos tanto do turismo norte-americano. Enfim, quase todas as nossas atividades são prejudicadas.
Veio o ciclone Mitchell e liquidou uma excelente safra de cítricos, causou prejuízos, mas temos reservas. Há reservas de alimentos, dinheiro, materiais, a capacidade de produção está toda aí, é bastante grande para telhas de zinco, de metros quadrados de asbesto, cimento e outros produtos.
A situação não se assemelha nem remotamente à do período especial. Mas há um duro aperto. Faltam coisas essenciais. Alimento está garantido, sem problema. Não se toca no comércio que opera com divisas, não se toca nas casas de câmbio.
Estamos distribuindo alimento e alimento adicional depois de pesar duas milhões de crianças para ver se estão se desenvolvendo de acordo com a idade. Quanto aos outros, estamos numa batalha, porque os pais não lhes criaram hábitos alimentares ou porque socialmente há um núcleo que vende o leite de que a criança necessita para comprar cigarros, cerveja, rum. Compram o litro de leite por 25 centavos e o vendem a 2 pesos ou 5. Quem faz isso, o faz por uma questão social.
Como se controla isso?
Com a cooperação dos vizinhos e trinta mil trabalhadores sociais. Em 2001
formamos dois mil desses profissionais, no ano que vem já vão se formar mais sete mil que entrarão na campanha. Em cinco anos, vamos ter mais de trinta mil profissionais para identificar esses problemas e buscar as soluções para as famílias.
A abertura ao turismo, em Cuba, tem influência sobre a juventude cubana? Há deslumbramento com coisas estrangeiras?
Tivemos altos e baixos. Nessa batalha, mantive contato constante com vários grupos de jovens. Recolhemos a opinião deles, uma opinião crítica. Alguns chegam e dizem: não há comida. Outros afirmam: está certo quanto aos americanos, mas isso não vai resolver nada. Outros acham aborrecidas as tribunas abertas. Eu não acho, são dramáticas, de impacto, uns temas incríveis.
Seis mil estudantes e oitocentos professores fizeram uma enquete, em meados de 2001, nos quinhentos mil domicílios da capital. Queríamos saber, entre outras coisas, porque muitos jovens deixam de estudar e trabalhar depois de concluírem a 9ª série. Todos foram localizados e entrevistados. Nessa visita a meio milhão de pessoas, com trinta e tantos temas, havia uns espaços em branco para a pessoa dizer se havia algum assunto em que gostaria de opinar.
Os pesquisadores foram recebidos com alegria, pois quando alguém recebe uma visita toma consciência de que existe. Sabemos muito bem do impacto causado quando um trabalhador social vai a uma casa onde há uma criança com problemas. Aprendemos o valor que há em dar atenção e isso nunca se fez em nenhuma sociedade apesar da liberdade. Ouvimos falar de democracia e tudo isso, mas é bom lembrar que o norte-americano vai votar se lhe apetece e metade da população vai à praia e ninguém volta a consultá-los durante a administração.

Marcelo Montecino / Wikimedia Commons
Um demônio que gosta de rap…
Como o senhor avalia sua importância histórica para Cuba?
Uma importância muito relativa. Cada vez mais a lembrança das pessoas desaparece mais rápido. Eu sou útil porque tenho experiência. Vão surgindo situações meio complicadas e eu sou útil com minha segurança, fruto da experiência, a intuição, o hábito de buscar soluções rapidamente. Eu me tornei socialista por minha conta, desgraçadamente não tive preceptor e me converti em comunista sem ter lido um só livro. Eu era um comunista utópico além do mais. Não havia lido o Manifesto Comunista, não sabia que a sociedade estava dividida em classes, sabia que tinha gente com muito dinheiro e que fazia o que queria, ao mesmo tempo em que havia os infelizes. Essa foi aminha experiência. Minha utilidade é a experiência, uma autoridade que se ganha na vida.
Mas não pode negar a preeminência de sua figura…
Bem, mas isso tenho que agradecer aos ianques. Foram eles que me fizeram famoso como demônio. E tem gente que gosta de falar com os demônios. Pedem que eu autografe uma foto e ao mesmo tempo dizem: “não imaginava que Cuba fosse assim, achava que era diferente.” Olhe, em matéria de propaganda e publicidade, podem lhe dar uma fama de demônio e as pessoas se interessarem em falar com o demônio.
É um bom título para essa entrevista: “Falando com o demônio”.
Trabalho como jornalista, mas anonimamente.
Um bom jornalista…
Toda essa tarefa dos editoriais é uma tarefa que não posso entregar a ninguém, porque os demais inclusive não têm faculdades suficientes. Conheço jornalistas muito bons e não posso lhes entregar a tarefa. Quando você está escrevendo, tem que ir tomando decisões. Ponho isso, não ponho? E tenho mais elementos para julgar e avaliar do que o jornalista a quem possa pedir que o faça. Eu não suporto a ideia dos fazedores de discursos, dos que fazem discursos para os presidentes lerem.
Quantas horas trabalha por dia atualmente?
Em termos de tempo, é como antes. Com vocês, com compromissos, com congressos, com entrevistas, com um milhão de coisas. Ultimamente é uma desordem danada, o caos. De modo que me faz falta dias de trinta horas, pelo menos. Mas quando um homem se aposenta e deixa de produzir atividade mental intensa, a mente atrofia como um músculo.
O que está lendo, comandante?
Olhe, estou com um punhado de livros. Temas de economia, uma história dos talibãs, estou para ler um livro sobre uma famosa batalha. Claro, romances e essas coisas, nada. Tenho uma nova história de Cuba para ler, imprimimos 500 mil exemplares.
Agora temos umas máquinas novinhas tremendas. Temos capacidade de imprimir em cada município, porque temos umas máquinas que custaram cerca de onze mil dólares cada e podem imprimir feito loucas, com o computador. As pessoas enviam seus disquetes zipados para lá. Tem uma comissão que avalia as obras por sua qualidade. Criamos a capacidade de imprimir quase instantaneamente. Podemos imprimir todos os milhões que quisermos. Tem uma comissão na Casa da Cultura e outra em cada município, alguns mais de uma. Quinze máquinas podem imprimir quinze milhões, trinta milhões de livros.
Que tipo de música aprecia?
Quando era um rapazinho enamorado, uns bolerinhos. São canções de amor, mas não vou cantar. Depois, um pouco mais velho, fui conhecendo um pouco mais de música clássica e vim a gostar de Bach. A ópera Aída, de Verdi, é uma maravilha. De Beethoven, as marchas, as sinfonias, especialmente a 5ª Sinfonia. Também Tchaikovsky.
A música alegre, o samba, o merengue, o ritmo jamaicano, essas coisas, não me desagradam. Há muitas variedades. O que aprecio é que há valores em todos esses gêneros musicais. Não sou muito aficionado à ópera, embora houvesse aqui uma cantora, Cecília Valdés, uma moça que cantava maravilhosamente. Mas em geral a ópera me aborrece um pouco.
Há outros gêneros musicais: o rap, o rock. No rap, esse Dellafuente, da Espanha, merece uma atenção muito especial. O rap foi criado pelos negros de Nova York para protestar contra as injustiças e depois o comercialismo quis utilizar o rap para outros fins. Eu o escutei no dia 1° de janeiro de 2001, quando tocavam rap, rock. Deixe-me explicar, entramos o ano novo, o novo século com um novo aniversário da revolução. Houve festas em todo o país, com orquestras, no dia 1º. O dia 2 foi todo dedicado às crianças, sem rum, no máximo cervejas – estamos numa luta contra o alcoolismo.
Que importância atribui aos meios de comunicação?
O que eu vejo é aqui em Cuba. são de um poder infinito. E, se você combina esse poder com a cultura, se vai descobrindo talentos, se combina esses meios com a arte, com o discurso e a mensagem política, refresca tudo. Se exportássemos oradores, seríamos realmente um país rico.
Penso que os sistemas modernos de informação, nos países capitalistas, podem conduzir à supressão da liberdade de pensar, ou algo pior que a falta de liberdade de pensar, que é a supressão do equipamento de pensar. Quando tudo o que o individuo faz é fumar tal cigarro porque alguém lhe disse, tomar banho com tal sabonete, beber tal refrigerante… Hoje, os meios de comunicação sabem, todos os publicitários e empresários sabem como fazer com que um indivíduo use uma determinada roupa um perfume, um sapato, uma calça comprida ou curta, tal ou qual alimento.
Chega-se ao ponto em que 90% das coisas que o indivíduo faz não provêm de ideia própria, pois está acostumado a que pensem por ele. Ele não pensa, não exerce essa capacidade que o homem primitivo exercia. O que faz lhe é inculcado. E, da mesma forma que lhe inculcam isso ou aquilo, também lhe inculcam as ideias, a moral, a política. Por que os candidatos nos EUA gastam centenas de milhões de dólares na televisão? Foi desenvolvida toda uma técnica para induzir o indivíduo e subtrair sua capacidade de pensar ou decidir.
Quanto mais cultura, mais liberdade, mais conhecimento e mais critério. Só uma sociedade verdadeiramente culta pode alcançar uma liberdade praticamente total. Na minha opinião, aqui em Cuba nós estamos marchando para essa sociedade.
Usa a internet pessoalmente?
Tive que aprender um pouquinho. Tenho a ideia geral da coisa, no que consiste, os conceitos, tudo o que se pode fazer com ela. Às vezes temos que averiguar pessoalmente as coisas, pelo método socrático. Ocorre muitas vezes que não pensamos em um problema porque nunca foi levantado.
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