A direção da Fundação Perseu Abramo, por meio do Núcleo de Cooperação Internacional, recebeu, nesta quarta-feira (15), a visita da Ministra da Defesa do Uruguai, Sandra Lazo, em sua sede em São Paulo.
Integrante do Movimiento de Participación Popular, partido que compõe a coalizão Frente Amplio, Lazo, que foi senadora, comanda a pasta dentro do governo do presidente Yamandú Orsi desde 2025.
A ministra compartilhou a experiência uruguaia na relação entre governo e Forças Armadas e falou dos desafios da esquerda latinoamericana frente às ameaças contra a soberania nacional na região.
Participaram do encontro: o presidente da Fundação Perseu Abramo, Brenno Almeida, a diretora Mônica Valente, que é Secretária Executiva do Foro de São Paulo, o diretor de Cooperação Internacional, Valter Pomar, e a coordenadora do núcleo, Mila Frati. Além do jornalista Pedro Estevam Pomar.
Os diretores da FPA destacaram a relevância de uma mulher ocupar o comando da pasta da Defesa, já que no Brasil ainda não houve nenhuma a ocupar a cadeira. No Uruguai, Lazo é a segunda no posto, a primeira foi Azucena Berrutti, em 2005.
Durante a reunião, dentre os principais temas foram abordados: a linha de trabalho e as políticas educativas a partir da temática dos Direitos Humanos, a estrutura militar dentro do funcionalismo público uruguaio, o currículo de formação dos oficiais e o intercâmbio entre as forças uruguaias com tropas de outros países da região e de outros continentes. Além disso, foram tratadas questões relacionadas à saúde mental do efetivo e o aumento dos casos de violência, em especial, dos feminicídios.
Pontos da conjuntura geopolítica atual como o convênio que permite a instalação de bases militares norte-americanas no Paraguai, iniciativas de solidariedade e parcerias com o governo cubano, e a influência chinesa no continente também foram discutidas, assim como o avanço de facções do crime organizado como PCC e o Comando Vermelho, para além das fronteiras do território brasileiro.
Sobre a luta por memória e justiça em relação aos crimes cometidos no período da ditadura militar uruguaia, Lazo destacou que participa todos os anos da Marcha do Silêncio, que ocorre em 20 de maio, desde a década de 90, e que esse é um tema importante no país.
Após o encontro, a ministra Sandra Lazo falou à Revista Focus Brasil. Confira:
Qual a importância da união regional na América Latina? Qual sua avaliação dessas alianças entre os países?
Creio que temos que estar muito unidos, há um alerta de uma situação mundial que é complexa e está gerando incertezas, conflitos que têm interesses profundos. Nós somos absolutamente internacionalistas, além disso, acreditamos na nossa região e daí a necessidade de estarmos muito unidos. Apesar das dificuldades, das desigualdades, que ainda estão por resolver, esta é uma região de paz, que hoje está sofrendo ameaças vinculadas, sobretudo, a uma questão econômica, mas continuamos como uma região de paz e vamos defender essa paz e a nossa soberania. Esses encontros com companheiros de diferentes partidos latinoamericanos se tornam imprescindíveis porque também há outras pessoas se organizando, com outras finalidades, em temas que não se relacionam com os verdadeiros interesses latinoamericanos; é por isso que nós precisamos estar muito unidos.
Somos uma região que contém pólos importantes de recursos naturais, incluindo a questão das terras raras e das reservas de petróleo. Como esse tema se relaciona com a questão da soberania? Ficamos em vantagem ou isso nos deixa ainda mais vulneráveis?
Acredito que temos um potencial enorme. Nós temos o maior pulmão do mundo, que é a Amazônia. E, no caso uruguaio, o aquífero. Eu sempre digo que os recursos naturais significam soberania. E no caso da América Latina acredito que precisamos avançar no conceito de uma soberania latinoamericana, uma soberania regional. Essa soberania regional que hoje vemos sofrendo ameaças a partir de empresas, grandes indústrias, que poderiam melhorar, e muito, a qualidade de vida da nossa população, mas que, muitas vezes, por estarem nas mãos de grandes potências, acabamos ficando de fora. Somos um celeiro importante do mundo; no caso do Uruguai, temos três milhões de habitantes, com um volume grande de exportação, mas ainda assim há pessoas no país que estão em vulnerabilidade. Acredito que está na hora de, além de crer na nossa soberania, entendermos que é importante compreender o conceito de soberania como um conceito mais coletivo e com muito mais pertencimento à América do Sul.
O tema da defesa se tornou muito importante agora com a discussão sobre a reorganização da multipolaridade e a divisão por zonas de influência entre China e Estados Unidos. Como podemos localizar essa importância de falar sobre defesa neste momento?
No Uruguai, o comando militar está subordinado ao comando civil e o Uruguai tem cinco ou seis pontos que ultrapassam os governos, são políticas de Estado, do nosso relacionamento com o mundo. O Uruguai não tem inimigos, mantém vínculos com todos os países, então, não irá se alinhar a nenhuma potência, simplesmente mantém seus vínculos, principalmente, econômicos, sociais e culturais. Do ponto de vista da Defesa, faz intercâmbios, sobretudo, do ponto de vista acadêmico com diversos países, mas tem muito claro que a defesa da soberania implica, não diria em uma “neutralidade” porque para ser neutro é preciso deixar de opinar sobre as injustiças e isso nós não vamos fazer, mas sim, pelo menos, tentar manter um equilíbrio com os princípios que são inegociáveis, como a não-intervenção em assuntos internos das nações, a não ingerência, a resolução pacífica dos conflitos, nem mais nem menos do que dizem os organismos que foram criados há muitos anos e que hoje estão em questionamento por um mundo polarizado e, eu acho, também pela falta de escrúpulos. Nós vamos continuar defendendo esses princípios porque entendemos que são os que fizeram da América Latina o que ela é, ainda que também tenhamos tido consequências do ponto de vista econômico, porque de alguma forma as grandes potências também estão observando isso. Mas acho que é hora de sentar, de conversar, de nos reunir e, enfim, construir essa grande pátria latino-americana com a qual sonharam nossos heróis e que hoje nossos líderes dos governos de esquerda e progressistas da América Latina pretendem continuar fortalecendo e aproximando.





Ministra Sandra Lazo e a diretoria da Fundação Perseu Abramo durante encontro na sede da FPA. Fotos: Vínicius Toledo/FPA