
A reunião realizada nesta quarta-feira (15), em Nova Déli, entre o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, e o ministro da Defesa da Índia, Rajnath Singh, marcou um novo patamar na cooperação estratégica entre Brasil e Índia.
O encontro integra a missão oficial brasileira à Índia, que busca consolidar parcerias em comércio, defesa, energia, tecnologia e investimentos, dando sequência aos compromissos firmados entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro Narendra Modi em julho.
“É uma grande satisfação reforçar o diálogo entre Brasil e Índia na área de defesa, setor em que compartilhamos uma visão de autonomia estratégica, cooperação tecnológica e equilíbrio global”, afirmou Alckmin.
No contexto das tensões geopolíticas e dos ataques ao multilateralismo, o avanço da parceria entre dois integrantes do BRICS é interpretado como sinal de reconfiguração das alianças globais. A agenda reforça o papel de Brasil e Índia como vozes do Sul Global, que buscam maior peso na governança internacional.
Defesa: cooperação entre marinhas, aeronaves e tecnologia militar
O ministro José Múcio destacou que a área de defesa é uma das mais promissoras da relação bilateral. Segundo ele, os dois países já possuem diálogo entre os comandos das Forças Armadas e estudam operações conjuntas e cooperação tecnológica.
Um dos temas centrais é a manutenção dos submarinos Scorpène, modelo francês utilizado tanto pela Marinha do Brasil quanto pela Marinha indiana.
“Estamos discutindo operações conjuntas. Eles estão adquirindo aviões-radares que nós estamos trazendo do Brasil para adaptação aqui. Também estudamos a cooperação na manutenção de submarinos, já que nossos modelos são semelhantes”, explicou Múcio.
Outro destaque é o avanço das tratativas sobre a venda de seis aeronaves E-145 da Embraer, que seriam convertidas em plataformas de alerta avançado e controle aéreo para a Índia. A empresa brasileira também negocia a venda do cargueiro militar multimissão C-390 Millennium, com possibilidade de coprodução local com a Mahindra Systems.
A Embraer inaugura, durante a missão, seu escritório regional em Nova Déli, marco da consolidação de sua presença no mercado indiano.
Oportunidade estratégica: Tejas Mk1A e modernização da FAB
Um ponto técnico sensível da visita é a possível troca de interesse entre Brasil e Índia: caso a Índia selecione o KC-390 para sua frota de transporte médio, o Brasil poderá adquirir os caças leves indianos HAL Tejas Mk1A, como substitutos dos envelhecidos AMX da Força Aérea Brasileira (FAB).
O Tejas, com desempenho e raio de combate semelhantes ao AMX, oferece velocidade e manobrabilidade superiores, podendo suprir lacunas operacionais urgentes da FAB.
Atualmente, o Brasil conta com apenas 17 aeronaves de combate plenamente operacionais, número considerado crítico para um país de dimensões continentais. O mínimo indicado seria em torno de 100 aeronaves para uma defesa adequada à sua posição geopolítica.
A eventual parceria com a Índia diversificaria fornecedores e reduziria riscos de dependência de países da OTAN, como a Suécia, fabricante do Gripen E, cuja entrega está atrasada.
Cooperação industrial e transferência de tecnologia
Além da defesa, a missão brasileira aposta em coprodução e transferência de tecnologia em setores estratégicos como veículos blindados, munições, radares e sistemas aéreos.
“O momento é propício para aprofundar o relacionamento à luz da expansão da indústria indiana de defesa e de sua estratégia de diversificação de fornecedores. Brasil e Índia compartilham a ambição de desenvolver uma capacidade autônoma de defesa, ancorada na confiança mútua e na busca de soluções tecnológicas próprias”, declarou Alckmin.
A cooperação reflete um novo modelo de parceria Sul-Sul, em que produção local, inovação e autonomia industrial substituem o antigo paradigma de dependência tecnológica.
Expansão do comércio e novas frentes de integração
Comércio e investimentos também estão no centro da missão. De janeiro a maio de 2025, as exportações brasileiras à Índia cresceram 14,8%, alcançando US$ 2,39 bilhões, enquanto as importações aumentaram 31,8%, consolidando o país asiático como 11º destino das exportações e 6º maior fornecedor do Brasil.
O plano é ampliar o acordo de preferências tarifárias Mercosul–Índia, atualmente restrito a 450 produtos, abrindo espaço para nova diversificação da pauta comercial.
“Vamos ampliar mercados e investimentos recíprocos. Brasil e Índia têm tecnologia, escala e inclusão — podemos crescer juntos e de forma sustentável”, declarou Alckmin.
Biocombustíveis, saúde e tecnologia digital
A missão inclui ainda cinco eixos estratégicos de cooperação:
- Complexo industrial da saúde — ampliação da cooperação em genéricos e insumos farmacêuticos, fortalecendo o SUS.
- Biocombustíveis e transição energética — integração de políticas para etanol e combustível sustentável de aviação (SAF).
- Defesa e indústria aeronáutica — abertura do escritório da Embraer e parcerias em coprodução militar.
- Agroindústria e segurança alimentar — incremento das exportações brasileiras de proteínas e alimentos processados.
- Transformação digital — parcerias em infraestruturas públicas digitais e data centers, inspiradas nas soluções indianas.
Aliança do Sul Global: um contraponto ao unilateralismo
O fortalecimento da relação Brasil–Índia ocorre em um cenário de rearranjo da ordem internacional. Ambos os países defendem uma multipolaridade equilibrada, resistindo à pressão das grandes potências e reforçando a cooperação entre nações do Sul Global.
A missão liderada por Alckmin e Múcio simboliza a retomada do protagonismo internacional do Brasil, não mais como mero exportador de commodities, mas como ator estratégico na defesa, na inovação e na diplomacia tecnológica.
“A Índia é a quinta economia do mundo, o Brasil é a oitava. Nossos países são líderes regionais e compartilham a mesma visão de mundo: desenvolvimento soberano com inclusão social”, resumiu Alckmin.
Com informações da Sputnik News
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