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Mobilização humana e a estratégia do capital – breves reflexões

No século 21, o mundo traz grandes desafios a todas as dimensões da vida humana, desde a produção do saber, do poder, do desejo, entre outras. Essa é a fase em que o capital deixa de ter um exterior, em que nada, coisa alguma está fora do processo de produção, ou seja, todos os processos produtivos nascem e estão no interior do próprio capital. As regras que monitoravam os processos produtivos e os mecanismos de exploração, desenvolvidos dentro da fábrica, difundiram-se, “permeando e definindo todas as relações sociais”. Ou seja, a sociedade se transformou numa grande fábrica, nada mais se encontra fora do capital, e este se torna o único elemento “sujeito” da produção social (NEGRI; HARDT, 2004).

Nesse contexto, há uma convergência da produção do capital com a produção e reprodução da vida. Nessa fase do capitalismo, a presença do trabalho no centro da vida ganha dimensão nunca antes vista, o que nos leva a concordar com essa máxima afirmada por Toni Negri: “O mundo é trabalho”.

A extensão que ganhou o trabalho não é mensurada apenas pela quantidade do seu alcance, mas pela capacidade de deslocamento humano e pela fluidez do capital que passa a estar em todos os mercados globais. Essa realidade muda a natureza do trabalho, sua realização revela um novo campo de valorização que passa a eleger desde o elemento técnico ao afetivo no processo produtivo.

O trabalho hoje envolve novas combinações sociais, a linha de montagem foi substituída pela rede como método de organização da produção. A fluidez do capital implicou a precarização e a redução dos tradicionais postos de trabalho, retirando os direitos conquistados e esvaziando, politicamente, as associações e sindicatos dos trabalhadores.

É preciso entender, a partir daí, as novas relações de poder que foram estabelecidas e o novo formato das lutas sociais diante dessas transformações estruturantes, bem como identificar os dispositivos de controle que ampliaram a capacidade de domínio do poder do capital na nova realidade global.

Nessa fase do capitalismo, a introdução das inovações tecnológicas, principalmente no campo da informação e comunicação, tem criado uma extensa rede de informação e controle em todas as dimensões da sociedade. Essas mudanças tecnológicas têm sido apontadas como fonte de turbulências no sistema capitalista, causando desemprego em nível global, precarização do trabalho, monopólio e massificação da cultura, privatização dos campos de conhecimento e mercantilização radical da vida.

O novo contexto laboral trouxe, desse modo, novas formas de relações sociais que vão além daquela esboçada pelas tradicionais configurações do capital. A reorganização e a recomposição dos trabalhadores tendem a provocar reações do capital que sempre tem respondido por meio de inovações tecnológicas, com o claro propósito de debilitar e desestruturar a classe trabalhadora e minimizar o sujeito antagônico.

Nesse cenário, o fluxo migratório crescente, decorrente da pauperização mundial, da precarização do trabalho, da perda dos direitos e do avanço da tecnologia, além de guerras e perseguição política e cultural, é colocado em circulação pelo sistema como estratégia de controle do capital sobre o trabalho e promover a instabilidade da força de trabalho em circulação no mundo. Essa vulnerabilidade permite ao poder lançar a população numa rede de circulação, reativando e garantindo a sua capacidade de aprisionamento e respondendo aos desafios postos pela crescente expansão e mobilização da população pobre no mundo.

Além dessas estratégias, o capitalismo redesenha o território global e estabelece novos espaços do ciclo de produção do capital. Do mesmo modo, promove uma mobilidade do trabalho nunca antes vista e estabelece contenções mediante redes de condicionamento. Redes que não têm um centro e nem são hierarquizadas, são verdadeiras teias espalhadas pelo mundo, interconectadas por extensas rotas, promovendo e intensificando o processo de desterritorialização.

Nesse processo, o poder se instrumentaliza com nova estratégia e mecanismos de controle da força de trabalho. O capitalismo lança mão da “circulação do medo”, promovendo uma guerra global, potencial ou real, que desencadeia um poder de polícia em escala global, fazendo circular por todos os cantos do mundo o medo como sentimento de contenção das pessoas. Portanto, se a migração é impulsionada pela desigualdade econômica, ela é, acima de tudo, uma força de trabalho posta a circular, um movimento que está integrado ao funcionamento do capital.

Entretanto, a contraface dessa realidade tem sido o uso dessa mesma tecnologia como instrumento de luta e de geração de inúmeros pontos de tensão e resistência da classe trabalhadora, posta a circular pelo planeta.

Os novos sujeitos da luta social revelam, assim, um potencial de ação coletiva,
envolvendo vários setores de trabalhadores que têm como realidade a mobilização e a
fluidez; não mais restritos ao espaço fabril, agora extensivo a toda a comunidade global
organizada em redes de circulação e de cooperação.

Essa população flutuante global é, portanto, capaz de reinventar e ressignificar o uso de ferramentas tecnológicas de informação e comunicação para a formação de redes de cooperação a fim de reagir ao controle do capital. Atribuir um novo sentido a essa ferramenta utilizada pelo sistema capitalista para promover a rede de controle, graças a estrutura interativa e descentralizada de cooperação das redes criadas pela população migrante trabalhadora em todo o planeta. E acima de tudo, dado a sua movimentação e fluidez, imprevisível.

Podemos nos arriscar a afirmar que apesar de ser constitutivo da atual dinâmica do desenvolvimento do capital, é o movimento migratório que dá visibilidade ao impasse em que a economia globalizada se encontra com suas medidas perversas de superação.

Mariangela Nascimento é cientista política, professora da UFBA

Referências
AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção – São Paulo, Boitempo, 2007.

MEZZADRA, Sandro. Direito de Fuga – migrações, cidadania e globalização. EdUnipop, PT, 2012.

NASCIMENTO, Mariangela – Pós-Modernidade: da sociedade fábrica à emersão de novos sujeitos – Ed. Mondrongo, 2020

NEGRI, Antonio. Império. Rio de Janeiro:Editora Record, 2006