Um grupo de moradores do Guarujá planeja estar na Câmara, nesta quarta-feira (2), para demonstrar a insatisfação com a situação vivida no bairro, que voltou a ter ruas e quadras alagadas após as chuvas que atingiram a Capital nos últimos dias. A ideia do grupo é fazer um protesto pacífico, mostrando em cartazes o que estão sentindo e passando com o local novamente alagado.
“A gente vai solicitar que os vereadores tenham um olhar sobre o Guarujá. Não é possível. A gente paga impostos e, depois da enchente, houve toda essa desvalorização dos imóveis e o nosso imposto (IPTU) aumentou”, critica Maria Cristina Nunez Abbud, de 66 anos, moradora da rua Jacipuia, uma das mais alagadas do bairro.
Cristina diz que o alagamento nas esquinas das ruas Jacipuia, Oiampi e Guenoas, é causado por um problema de escoamento, pois a área é mais baixa que o Guaíba. Ela destaca terem sido criados nos últimos anos vários loteamentos no trecho do bairro acima da Avenida Serraria, onde antes era uma área de mata, e avalia que as construções prejudicaram a absorção da água no solo e seu escoamento.
“Lotearam, o solo ficou impermeável e todo edificado. É uma água que não está sendo absorvida porque não existe mais a mata para fazer isso. E existe toda essa água pluvial que vem agora para uma área que não tem condições, não tem rede pluvial para suportar”, explica.
Enfermeira aposentada, há 22 anos residindo no Guarujá, ela acredita ser preciso haver uma macro drenagem em função da expansão do bairro, haver a instalação de uma casa de bombas na saída da rua Jacipuia, uma comporta que feche quando o rio enche, além de um dique ao longo do parque Zeno Simon, na orla.

Cristina recorda que havia uma mureta entre o parque e o Guaíba antigamente, que foi retirada na revitalização da área. Sem a antiga mureta, a água do Guaíba invade facilmente a rua Jacipuia, se encontrando com as águas das chuvas e ali ficando paradas sem escoamento. Ela, inclusive, pondera que a Prefeitura está construindo um muro de proteção no bairro Ipanema e defende que algo semelhante seja feito no Guarujá, onde o problema de alagamentos é bem mais frequente.
“É um sentimento muito ruim, de impotência, de descaso do poder público. Parece que, para eles, a gente não existe”, afirma, destacando que o problema do bairro é antigo, pelo menos, desde 2012.
Os sucessivos alagamentos, cujo ápice foi a enchente de 2024, deram início ao movimento de mudança de muitos moradores, que venderam suas casas por preços inferiores ao que elas valiam anteriormente. Cristina conta que um morador novo comprou uma casa perto da sua, depois da enchente do ano passado, por menos da metade do valor original.
Em tom de lamento, ela recorda que outrora gostava de vir pela orla desde Ipanema até sua casa no Guarujá, ressaltando a beleza da região. “Eu dizia: ‘Nós moramos no paraíso’. Só que parece que o paraíso virou um inferno. A minha casa não vale o que valia antes, isso é muito sério e, a cada alagamento, ela vale menos. Nesse momento da minha vida, não era para estar reformando casa, investindo em imóvel, era para estar em paz, curtindo minha aposentadoria, viajando. Em algum momento, a Prefeitura tem que olhar para nós.”

A debandada no Guarujá também chama a atenção de Mar Acosta, de 38 anos, morador mais recente no bairro, há três anos. Ele conta que a região está se esvaziando, virando “um bairro fantasma”. Diz que a enchente do ano passado, que afetou muito mais quadras, causou uma grande evasão, com muitas pessoas indo embora, saindo no momento da crise mais aguda e não voltando mais. Nos últimos dias, um movimento semelhante começou a acontecer.
“Notei que essa semana surgiram muitas placas novas de ‘vende-se’, pessoas que moram aqui há muito tempo e que gostam de morar aqui, que tem cuidado pela casa, pela região. É triste ver essas pessoas abandonando a região. É um lugar muito bom de se morar, muito bonito, tem natureza, até seguro, mas as pessoas estão indo embora”, lamenta. “A gente não tem segurança de que não vai todo ano alagar de novo. É um desapontamento. Um ano depois (da enchente de 2024), a gente está com enchente de novo. Então, entendo quem está saindo. As pessoas ficam pensando: ‘Ah, todo ano vai ser assim’.”
Mar ressalta também o problema da desvalorização das casas do bairro. Se pensar em vender a casa em que mora, à meia-quadra do Guaíba, certamente venderá por um preço bem baixo. Ao mesmo tempo, em sentido contrário, a enchente valorizou as casas em lugares que não alagam. “É uma conta que não fecha pra gente conseguir vender nossa casa e ir pra outra mais segura.”
Outro ponto destacado por Mar é a falta de medição do nível do Guaíba no Guarujá. Critica que os níveis divulgados pela Prefeitura são apenas no centro da cidade, na Usina do Gasômetro e no Cais Mauá, mesmo com o Guarujá sendo um dos primeiros locais em que a água do Guaíba transborda. “A gente não consegue se preparar. Por que esse número não é divulgado?”, questiona.
Sem informação suficiente, a solução adotada é se preparar para deixar a residência a qualquer momento. Ação que inclui deixar tudo organizado para erguer os móveis e ter uma mala pronta. Junto com a companheira, Mar tem seis gatas. No momento, se for preciso deixar o imóvel, irá para a casa de amigos. “Se a gente tivesse certeza, já teria saído, estaria vivendo nossa vida em algum outro lugar, já teria tomado uma atitude. A gente está aqui sem saber se fica ou se sai.”

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