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Morre Issam Makhoul, dirigente comunista e referência da esquerda em Israel

O dirigente comunista Issam Makhoul, presidente da Frente Democrática para a Paz e a Igualdade (Hadash) e ex-secretário-geral do Partido Comunista de Israel, morreu na quinta-feira (26), aos 73 anos, em Haifa. 

Militante histórico da esquerda palestino-israelense, Makhoul teve papel central na articulação política, intelectual e internacionalista contra a ocupação e o apartheid imposto por Israel ao povo palestino.

Nascido em 18 de julho de 1952, na aldeia de Buqei’a, no norte de Israel, Makhoul ingressou ainda jovem no movimento estudantil da Universidade de Haifa, onde participou da fundação e organização de entidades árabes de representação estudantil. 

Em 1977, filiou-se ao Partido Comunista de Israel e, ao longo das décadas seguintes, assumiu diferentes responsabilidades na direção partidária, incluindo a secretaria-geral da legenda entre 2002 e 2007.

Pelo Hadash, Makhoul foi eleito membro do Knesset, o Parlamento israelense, exercendo mandato entre 1999 e 2006. 

Sua atuação institucional esteve sempre vinculada à defesa dos direitos do povo palestino, à oposição à ocupação e à construção de uma alternativa política baseada na igualdade entre árabes e judeus, em confronto direto com o consenso militarista dominante na política israelense.

Durante sua passagem pela secretaria-geral do Partido Comunista de Israel, Makhoul foi uma das vozes mais firmes contra o plano de “desengajamento” da Faixa de Gaza promovido pelo então primeiro-ministro Ariel Sharon. 

À época, o plano de “desengajamento” de Gaza previa a retirada unilateral de colonos israelenses do território, sem negociação com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP). 

A iniciativa foi apresentada pelo governo israelense como um gesto em direção à paz, mas acabou por enfraquecer a liderança palestina vinculada ao processo político, ao mesmo tempo em que fortaleceu grupos que defendiam a via da resistência armada. 

Após a vitória do Hamas nas eleições palestinas de 2006, Israel passou a impor um cerco rigoroso à Faixa de Gaza, frequentemente ignorado por aqueles que citam o desengajamento como prova da inviabilidade de uma solução negociada.

Em texto escrito há cerca de vinte anos, ao justificar a oposição do Hadash à iniciativa, Makhoul advertia que o plano não representava um avanço rumo à paz, mas a preparação de novos ciclos de violência.

“A ausência de um parceiro palestino no plano de desengajamento; a ausência de pressão por parte da maior parte do verdadeiro campo da paz em Israel, ocupado em distribuir elogios a Sharon; a ausência de uma posição americana interessada em alcançar uma solução no futuro previsível; juntamente com o que Sharon percebe como uma oportunidade histórica de liquidar a solução política, bloquear a constituição do Estado palestino e salvar a ocupação — tudo isso nos leva a antever a próxima guerra, oculta nos traços fisionômicos do plano de desengajamento. É nosso dever alertar de antemão, para que saibamos desde já quem carregará a responsabilidade por sua eclosão”, diz o texto.

Além da atuação partidária e parlamentar, Makhoul destacou-se pelo internacionalismo e pelo enfrentamento a temas considerados tabu em Israel, como a luta contra armas nucleares e a defesa de Mordechai Vanunu, técnico que revelou o programa nuclear israelense nos anos 1980 e foi submetido a décadas de perseguição e sanções.

A partir de 2010, Makhoul presidiu o Centro Emil Touma de Estudos Palestinos e Israelenses, consolidando o instituto como um espaço central de reflexão crítica, produção teórica e memória política sobre a realidade palestino-israelense. 

Sua atuação combinou militância, elaboração marxista e compromisso com a solidariedade internacional, incluindo vínculos políticos e afetivos com movimentos e partidos da América Latina, entre eles o Brasil.

Em nota, o Partido Comunista de Israel e a Hadash afirmaram que Issam Makhoul se destacou por sua “posição progressista e internacionalista inabalável” e por uma trajetória guiada pela luta pela libertação do povo palestino e pela construção de uma sociedade fundada na justiça e na humanidade. 

Segundo o comunicado, sua memória permanecerá como referência para as gerações futuras de militantes comunistas e das forças de paz.

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