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Morre Laura Cardoso, aos 98, a atriz que fez da recusa à aposentadoria um método

A atriz Laura Cardoso morreu na noite de segunda-feira, 17, aos 98 anos, em São Paulo, sua cidade natal. Ela deixa duas filhas, três netos e um bisneto. A atriz nunca se aposentou — e fazia questão de dizer isso. “Aposentadoria é quando você morre”, respondia, ao longo das últimas décadas, sempre que lhe perguntavam quando deixaria os palcos e as câmeras. Sua última novela foi A Dona do Pedaço (2019), na qual entrou já na metade da trama. Seu último papel, no ano passado, foi o de uma idosa abandonada pela filha em um ponto de ônibus, no curta-metragem “Dona Rosinha”.

Do rádio à televisão ao vivo

Filha de imigrantes portugueses, Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni nasceu em 13 de setembro de 1927, em São Paulo. Aos seis anos, vestia as roupas da mãe para encenar teatrinhos na rua com uma amiga. Aos 15, contrariando os pais, iniciou na rádio: em 1942, fez um teste na Rádio São Paulo, onde não chegou a trabalhar, e no mesmo ano foi aprovada na Rádio Cosmos para atuar em radionovelas.

“Quase morri de alegria. Comecei assim: fugindo para fazer um teste para trabalhar na rádio”, contou ao documentário Tributo – Laura Cardoso, do Globoplay.

Era um tempo sem cortes nem regravações, em que o personagem se construía apenas pela voz. Foi ali que se formou a disciplina que a acompanharia por oito décadas. Depois de passar por diferentes emissoras, chegou à TV Tupi no início dos anos 1950, quando a emissora mal completava seus primeiros anos. Estreou em Tribunal do Coração, programa de júri dramatizado escrito por Vida Alves e baseado em histórias enviadas pelos espectadores.

Para conquistar espaço, precisou insistir. “Eu passava pela Vida Alves e dizia: ‘Me escala’. Passava pelo Cassiano Gabus Mendes e dizia: ‘Me deixa fazer uma vez; se não gostar, não faço mais’”, lembrou ao programa Persona em Foco, da TV Cultura, em 2015.

O videotape só chegaria ao Brasil no fim dos anos 1950. Laura passou quase uma década fazendo televisão ao vivo, sem direito a erro. Em 1953, integrou o elenco de Hamlet, dirigido por Dionísio Azevedo, na primeira experiência do país com a nova tecnologia. Contracenava com Lima Duarte, Lolita Rodrigues, Rolando Boldrin e Vida Alves.

Vieram os teleteatros da casa — TV de Vanguarda, TV de Comédia, Grande Teatro Tupi — e as primeiras novelas: Os Miseráveis (1958), Um Lugar ao Sol (1959) e Há Sempre o Amanhã (1960).

A estreia tardia no teatro

Só em 1959, aos 32 anos e já com carreira consolidada no rádio e na TV, Laura estreou profissionalmente no teatro adulto, em Plantão 21, de Sidney Kingsley, sob direção de Antunes Filho. Ambientada em uma delegacia de Nova York, a peça reunia cerca de 40 atores e foi recebida pela crítica com louvor.

“Passávamos 10, 12 horas dentro do teatro, onde ensaiávamos, ouvíamos palestras e exercitávamos nossa expressão corporal”, contou à mostra em sua homenagem realizada pelo Itaú Cultural, em 2017.

O rodízio entre emissoras marcou os anos seguintes: Tupi, TV Rio, Excelsior, Band e Record. Em Moulin Rouge – A Vida de Toulouse-Lautrec (1963), como a Condessa L’amour, ganhou o Troféu Imprensa de Melhor Atriz. Em Os Miseráveis (1967), primeira telenovela da história da Band, exibida no dia da inauguração do canal, viveu Fantine. Em O Rouxinol da Galileia, na Tupi, foi Maria, mãe de Cristo, na primeira novela bíblica brasileira. No cinema, estreou na cinebiografia O Rei Pelé, de Carlos Hugo Christensen.

Nos anos 1970, emendou personagens que a crítica consagrou: foi Tereza da Esquina em As Pupilas do Senhor Reitor (1970), a Maria Santa em Sol Amarelo (1971), a advogada adiantada ao seu tempo em Os Fidalgos da Casa Mourisca (1972), a enfermeira Maria Amélia em Ídolo de Pano (1974). Pela interpretação de Fátima da Conceição, na obra Os Apóstolos de Judas (1976), recebeu o Prêmio APCA de Melhor Atriz de Televisão. Gaivotas (1979), de Jorge Andrade, foi seu último trabalho na Tupi, que fecharia as portas no ano seguinte.

Quase 30 novelas na Globo

Laura Cardoso estreou na Globo em 1981, em Brilhante, de Gilberto Braga, e não parou mais. Foram cerca de três décadas e meia de novelas na emissora, entre elas Rainha da Sucata (1990), Mulheres de Areia (1993), A Viagem (1994), Explode Coração (1995), A Padroeira (2001), Esperança (2002), Chocolate com Pimenta (2004), Belíssima (2006), Duas Caras (2008), Caminho das Índias (2009), Araguaia (2010), Império (2014) e O Outro Lado do Paraíso (2017).

Fez também as minisséries Hoje é Dia de Maria e sua segunda jornada (2005), os seriados A Grande Família (2011) e Segunda Dama (2014), além de programas de humor como Sai de Baixo, Os Normais, A Diarista e Sob Nova Direção.

“Não precisa tanto”

Colegas a descreviam como alguém que encarava a televisão sem vaidade e tratava o ofício como qualquer outro trabalho — com dedicação acima de tudo. Pouco afeita à improvisação, ficava brava quando alguém esquecia uma palavra do roteiro. Inclusive ela mesma.

“É uma coisa trabalhosa, que chega a dar canseira física, sabe? Quando você está estudando, fica quase que 24 horas ao redor do texto”, disse ao Itaú Cultural. “Se é para decorar e falar o que está escrito, aí tudo bem. Mas, se você quiser realmente formar um personagem, construir um personagem que tenha cara, corpo, alma, aí dá trabalho.”

Depois de mais de seis décadas de carreira, não afrouxava o método. “É meio doído, viu? Eu fico muito mal quando vou construir um personagem. Fico no escuro, como se estivesse num breu, aí eu vou lendo, pensando, pesquisando e, aos poucos, vou vendo meu personagem, vendo como é a cara, o corpo”, explicou. “As pessoas dizem: ‘Não precisa tanto’. Mas, para mim, precisa, senão vou me sentir insegura.”

A professora

Esse rigor fez dela referência para gerações inteiras. Em uma de suas últimas aparições públicas, ao ser homenageada ao lado da colega em uma calçada da fama montada pela TV Globo no Rio, Susana Vieira, 83, sintetizou o que a atriz representava.

“É a minha mestra, a minha professora”, disse. “Só não pegou aula com ela quem é burro.”