A morte de Yves Sakila, congolês radicado na Irlanda, após ser imobilizado por seguranças do lado de fora da loja de departamentos Arnotts, no centro de Dublin, desencadeou protestos e reacendeu o debate sobre racismo e uso excessivo da força no país. O caso ganhou dimensão nacional depois que vídeos do momento começaram a circular nas redes sociais, mostrando Sakila no chão, contido por vários homens, até ficar inconsciente.
Segundo a polícia irlandesa, Sakila foi detido por seguranças em conexão com uma suspeita de furto em loja. Ele “ficou sem resposta” ainda no local e, mais tarde, foi declarado morto. A cena, registrada em vídeo, passou a ser comparada ao episódio de George Floyd, nos Estados Unidos, em 2020.
As imagens, descritas por parlamentares como “disturbing” e “distressing”, levaram centenas de pessoas às ruas. Diante do Parlamento, manifestantes entoaram “no cover up, no delay” (“sem acobertamento, sem atraso”) e exigiram justiça.
“Um momento George Floyd”
A comparação com o assassinato de George Floyd apareceu tanto nos protestos quanto nos relatos de pessoas que conheciam Sakila. À Reuters, David Kaliba, que estudou com Yves em um subúrbio do norte de Dublin, afirmou:
“We call this a George Floyd moment” (“Chamamos isso de um momento George Floyd”).
O vídeo mostra Sakila preso ao chão por pelo menos cinco homens por quase cinco minutos, enquanto pessoas observam. Em um trecho, dois homens mantêm o rosto dele pressionado contra o chão e, em determinado momento, um deles ajoelha-se na região da cabeça ou do pescoço por alguns segundos.
Para Yemi Adenuga, porta-voz da Black Coalition Ireland, a gravação remete diretamente ao caso estadunidense:
“Quando você olha para aquele vídeo, literalmente parece uma reencenação do que aconteceu com George Floyd”, disse à Reuters.
INAR manifesta preocupação e pede investigação
Em comunicado, o INAR (Irish Network Against Racism) — rede irlandesa que articula organizações e iniciativas de enfrentamento ao racismo — afirmou estar “muito preocupado” com a morte de Sakila e foi direto ao ponto:
“Ninguém merece morrer por ser suspeito de furto em loja”, diz a nota.
A entidade destaca que, no vídeo, um homem aparece no chão, “subjugado por vários homens” que “parecem ser seguranças e gerência”. Segundo o texto, em determinado momento um deles “transfere o peso para o joelho” na região de “pescoço e cabeça”, enquanto o homem grita em sofrimento e os demais repetem ordens para que ele “stay down” (“fique no chão”). Sakila aparece sem movimentos, e o INAR observa que, nesse momento do vídeo descrito, a polícia ainda não teria chegado.
O diretor do INAR, Shane O’Curry, declarou que “a morte de um homem negro nessas circunstâncias é extremamente preocupante e pedimos às autoridades que investiguem minuciosamente todos os fatos.”
Rede de organizações e participação brasileira
Em entrevista, o ativista Rafael Richard, que vive na Irlanda há sete anos e foi policial em Santo André por 14 anos, contou que seu ativismo no movimento negro é recente e começou depois de já estar estabelecido no país. Ao falar sobre o ato de solidariedade a Sakila, ele descreveu uma mobilização construída por diferentes grupos. “Foram várias organizações”, afirmou, citando a Black Coalition e a Black and Irish.
Richard disse que o evento também reuniu comunidades brasileiras, angolanas e africanas. Ele explicou que sua contribuição no ato foi tentar reduzir a escalada emocional do público — a partir da experiência profissional, quando trabalhou com contenção de público.
“A situação fomenta muita emoção, raiva, angústia”, relatou.
Durante o ato, ele fez um breve discurso e disse ter deixado uma “mensagem de amor”, incentivando as pessoas a transformarem “aquela energia” em algo construtivo, porque “o amor transforma a sociedade” e, segundo ele, fortalece a capacidade coletiva de enfrentar ações racistas e xenofóbicas.
Investigação e pressão pública
Questionado pela imprensa, o primeiro-ministro Micheál Martin declarou que pediu uma investigação completa e disse que a forma como Sakila morreu causou grande preocupação social. A polícia afirmou que o exame pós-morte foi concluído, mas que os resultados não seriam divulgados por razões operacionais.