O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Marcha Mundial das Mulheres (MMM) apresentaram em São Paulo, neste sábado (16/05), o projeto IARAA, sigla para designar a Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agroecologia.
Desenvolvido com tecnologia chinesa, o modelo está ancorado no endereço digital no endereço acessível neste link, no site da Associação Internacional para Cooperação Popular (Baobab), dedicada a integrar países e movimentos sociais do Sul Global. O objetivo central da iniciativa é democratizar o acesso ao conhecimento agroecológico, com foco dirigido prioritariamente aos trabalhadores da agricultura familiar.
Divergente de modelos ocidentais de IA e do agronegócio industrial, a IARAA funciona em três modelos distintos, batizados de Semeadura, Mutirão e Quintal Produtivo. A Semeadura responde de modo simples e direto a perguntas de quem está no campo e busca informações e soluções sobre práticas cotidianas de cultivo da terra – o plano futuro é funcionar não apenas em texto, mas também em áudio, para amplificar o acesso de trabalhadores rurais à ferramenta.
Um pouco mais minucioso, o modelo Mutirão se destina a prestar assistência técnica e compartilhar metodologias de trabalhos em grupo. Mais complexo, o Quintal Produtivo serve ao estudo, pesquisa e busca de conceitos e aprofundamento teórico – sempre explicitando as fontes de onde foram colhidas as informações compartilhadas pela IARAA.
Aliança com a China
João Pedro Stédile, fundador e integrante da Coordenação Nacional do MST, iniciou a apresentação classificando a data de 15 de maio de 2026 como histórica, para aplausos da plateia reunida da livraria da editora Expressão Popular, na região central de São Paulo.
“Nós estamos lançando aqui um instrumento a serviço da classe trabalhadora feminina e masculina, urbana e camponesa, para revolucionar os nossos métodos de fazer política e acelerar a destruição do capitalismo. O MST está obviamente preocupado com o futuro da agricultura brasileira, que é hegemonizada pelo capital, pelo agronegócio, pela destruição da natureza, o chamado agromineral exportador”, frisou.
Stédile explicou a natureza da aliança de MST e MMM com a China, sem dispensar uma provocação à mídia tradicional brasileira: “no afã de superar os desafios que estão postos do ponto de vista tecnológico para nossa base, nós enviamos nossa brigada à China para assimilar o que o Partido Comunista da China já construiu por lá. Aqui no Brasil a grande imprensa gosta de falar da China, pela modernidade, porque estão na frente, mas eles se esquecem de dizer que quem dirige a China é o Partido Comunista”.
Da cooperação entre trabalhadoras e trabalhadores do campo e o Estado chinês começou a nascer a IARAA, segundo o dirigente: “graças à generosidade da China e ao trabalho militante dos companheiros que estavam lá, conseguimos construir parcerias para poder transferir para cá a tecnologia que eles, com o Estado, a serviço do povo, conseguiram acumular”.

Pedro Alexandre Sanches / Opera Mundi
Ele concluiu: “nossa brigada construiu uma parceria de acesso ao domínio, ao conhecimento da inteligência artificial, não como uma solução para tudo, mas para acelerar um processo que leve a uma maior democratização dos conhecimentos da agricultura, que permita qualquer militante nosso, qualquer técnico, assentado ou agricultor familiar, ter acesso ao que há de mais moderno, ao que seria uma biblioteca digital disponível para a humanidade”.
Nas palavras de Stédile, a nova fase do processo é a da agricultura digital: “o agronegócio está aplicando essa tecnologia para diminuir a mão de obra, para aumentar a taxa de lucro, para explorar mais a natureza. Nós queremos aplicar essa mesma tecnologia, porém tudo ao contrário, para produzir alimentos saudáveis, respeitar a natureza etc”.

Pedro Alexandre Sanches / Opera Mundi
‘Treinando’ a IARAA
Liderada por mulheres da Marcha Mundial, a elaboração da IARAA é pilotada por Tica Moreno, da Coordenação Nacional da MMM. Segundo ela, o modelo segue o padrão de código aberto do DeepSeek chinês e difere em tudo dos equivalentes comerciais em circulação, sob o controle pouco ou nada transparente das big techs ocidentais.
“A IARAA usa essa grande biblioteca digital que João Pedro falou, usa a capacidade do modelo, mas o conteúdo é todo nosso. Se você pergunta alguma coisa para ela, por exemplo o que fazer com uma mancha que apareceu na folha da mandioca, a IARAA não vai recomendar agrotóxico. Vai partir da base de conhecimento produzida pelos movimentos, organizações populares e instituições agroecológicas. Estamos treinando a IARAA para que as respostas que ela vai trazer incorporem nossa metodologia de educação popular”, salientou.
A coordenadora avisa que, assim como os modelos comerciais de uso corrente atualmente, a IARAA será imperfeita a princípio: “dá um monte de problema, vai dar problema. A gente poderia optar por lançar só quando ela estivesse perfeita. Se fosse assim, nunca íamos lançar, e nunca iríamos nos colocar nesse lugar da discussão política atual”.
O manifesto lançado juntamente com a ferramenta sintetiza os propósitos da iniciativa: “a IARAA é um instrumento de soberania tecnológica para fortalecer as organizações populares na construção da soberania alimentar. Se soma às diferentes formas de luta que buscam superar o modelo do agronegócio, encarando os desafios que as contradições do capital colocam para a luta de classes nesse tempo histórico. Vivemos a emergência de uma nova etapa do desenvolvimento humano, em que a esfera digital assume centralidade. Os dados se concretizaram como quinto fator de produção, somados à terra, ao trabalho, ao capital e à tecnologia”.

Pedro Alexandre Sanches / Opera Mundi
Leia a íntegra do manifesto:
A IARAA (Inteligência Artificial da Reforma Agrária e a Agroecologia) é um instrumento de soberania tecnológica para fortalecer as organizações populares na construção da soberania alimentar. Se soma às diferentes formas de luta que buscam superar o modelo do agronegócio, encarando os desafios que as contradições do capital colocam para a luta de classes nesse tempo histórico.
Vivemos a emergência de uma nova etapa do desenvolvimento humano, em que a esfera digital assume centralidade. Os dados se concretizaram como quinto fator de produção, somados à terra, ao trabalho, ao capital e à tecnologia.
Dados são registros digitais gerados a partir de atividades humanas, por meio de sistemas, sensores e transações. Eles são a base do desenvolvimento das novas qualidades das forças produtivas que organizam o Trabalho humano nessa fase da história.
A propriedade desses dados, das infraestruturas que os armazenam e processam, e de tudo o que é desenvolvido a partir deles será decisiva, assim como o cercamento dos campos e a propriedade das máquinas a vapor na revolução industrial. Por este motivo, há hoje uma estratégia muito evidente por parte do Império estadunidense – e de sua elite – de domínio dos elementos centrais dessa mudança de era. O que já conhecemos do avanço do capital sobre nossos territórios, nosso trabalho e nossa vida assume uma nova dimensão. As grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos (chamadas de bigtechs) roubam os dados de todas as nossas interações, utilizando-se do domínio das infraestruturas (como cabos, antenas e servidores) e das plataformas (sistemas operacionais, softwares e redes sociais) que utilizamos todos os dias.
Essa dinâmica já avança também na agricultura. As bigtechs estão de mãos dadas com o agronegócio. Avançam em tecnologias, como sensores de monitoramento de muitos parâmetros a campo, seja do clima, do solo, da biodiversidade ou do manejo técnico de cultivos e criações. Apresentam aplicativos e plataformas digitais tanto para a burguesia agrária como para os camponeses e camponesas. Com isso, extraem dados dos territórios (produção, organização social, ecologia, cultura), armazenam e processam em seus data centers e realizam a reorganização da agricultura a partir dos interesses capitalistas, de dimensões similares às da Revolução Verde.
A IARAA se posiciona no sentido oposto. Conscientes de que as tecnologias são realizações humanas e não nascem prontas, de forma mágica, mas sim produto dos interesses e disputas de modelos, assumimos o desenvolvimento da Inteligência Artificial como um desafio do nosso tempo. Se há possibilidade de que a inteligência artificial seja parte da construção do socialismo e seja desenvolvida para atender às necessidades do povo, é preciso que o povo seja sujeito dessa construção.
A IARAA surge a partir da rede de articulações entre movimentos populares e instituições de pesquisa do Sul Global criada pela Baobab (Associação Internacional para Cooperação Popular). Organizados pela Baobab, pelo MST( Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e pela Marcha Mundial das Mulheres, militantes e especialistas do Brasil, da Argentina, da China, da Itália e de Portugal deram início a um processo de convergência tecnológica entre conhecimento sistematizado, metodologia popular e sistemas de inteligência artificial. O resultado é a criação de uma IA multiplataforma voltada para o conhecimento agroecológico e a questão agrária, com todo o seu processo de desenvolvimento controlado pelas organizações populares.
A construção da IARAA é uma convocação para entender o que é essa tecnologia, quais são suas lógicas possíveis e suas bases materiais. Isso contribui para o nosso desafio histórico de construir um projeto estratégico popular para o nosso país e de integração dos povos em nossa região, utilizando o que há de mais avançado no desenvolvimento das forças produtivas deste período atual.
Decidimos desenvolver uma inteligência artificial para a reforma agrária popular, avançando, com a estratégia de massificar a agroecologia. Ao fazer isso, também começamos a dar passos rumo à democratização da inteligência artificial. Forjada na práxis agroecológica, feminista e popular, IARAA torna-se mais uma ferramenta na nossa luta nas ruas, nas redes e nos roçados, ao lado das marchas, ocupações e da educação popular, dos facões e tratoritos, dos nossos quintais às nossas agroindústrias.
Temos clareza de que essa iniciativa é sinalizadora dos elementos que devem guiar uma estratégia popular de soberania digital que deve ser implementada pelo Estado brasileiro. Assim avançaremos também para uma efetiva superação da dependência tecnológica imposta pelo Império.
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