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MST reafirma compromisso segurança alimentar e produção sustentável no Brasil

O movimento utiliza estratégias como feiras livres, doações e marmitas solidárias. Foto: Guilherme Gandolfi/MST
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Por Julio Silva*
Do Jornal da USP

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) desempenha um papel fundamental na luta contra a fome no Brasil e no mundo. Conforme Estela Sanseverino, pesquisadora da Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, durante a pandemia de covid-19, essa atuação ficou ainda mais evidente, quando o movimento foi responsável pela doação de 7 mil toneladas de alimentos, 10 mil cestas básicas e mais de 2 milhões de marmitas solidárias.

Estela Sanseverino. Foto: Linkedin

De acordo com Devanir Oliveira de Araújo, da Direção Estadual do MST do Mato Grosso e integrante do coletivo nacional Plantar Árvores e Produzir Alimentos Saudáveis, o MST é dotado de diversas estratégias para garantir a segurança alimentar da população. Segundo a dirigente, o MST tem três grandes objetivos: a luta pela terra, a reforma agrária e a transformação social. Para garantir a segurança alimentar do País, ela explica que é essencial a implementação de uma reforma agrária efetiva. Além disso, políticas públicas com subsídios para insumos, tecnologia e recursos são necessárias para garantir a produção e a distribuição de alimentos saudáveis à população.

Combate à insegurança alimentar

Devanir destaca que o MST vem se desafiando a produzir alimentos saudáveis não apenas para as famílias assentadas e acampadas, mas também para comunidades periféricas. Para isso, o movimento utiliza diversas estratégias, como feiras livres, doações e as marmitas solidárias. Ela ressalta que a solidariedade é um elemento central no projeto da reforma agrária popular.

Outro ponto destacado pela dirigente é a agroecologia, um dos pilares da produção do MST. Conforme ela, o movimento lidera há mais de dez anos a maior produção de arroz orgânico da América Latina. “A agroecologia é ciência, prática e está em constante evolução. Trata-se de uma proposta concreta para enfrentar desafios como mudanças climáticas, desigualdade social e fome, promovendo novas relações humanizadas no campo”, analisa.

Devanir explica que a produção agroecológica do MST vai além do cultivo de alimentos. As diversas formas de cooperação dentro dos assentamentos são fundamentais para fortalecer a produção e garantir a sustentabilidade do modelo produtivo adotado. Essas práticas envolvem milhares de famílias em diferentes frentes de trabalho e produção.

Mulher branca, meia idade, usando óculos e brincos
Devanir Oliveira de Araújo, dirigente do MST de Mato Grosso. Foto: Araticum

Sobre a viabilidade da produção de alimentos sem o uso de agrotóxicos em larga escala, a dirigente afirma que é possível, mas exige condições adequadas. “É preciso ter acesso à terra, políticas de reforma agrária, avanço tecnológico e formação técnica”, destaca. Citando a militante Tuíra Tule, do MST de Minas Gerais, ela reforça que “não dá para alimentar o mundo na enxada”. Para que essa transição ocorra, é necessário que o Estado incentive políticas públicas que fortaleçam a agroecologia.

Desafios

Entre os principais desafios para a produção sustentável em larga escala, Devanir aponta a necessidade de investimentos na produção de bioinsumos, mecanização adaptada às pequenas propriedades, energia renovável e sustentável, além do controle das sementes e desenvolvimento de agroindústrias para agregar valor aos produtos. Ela também ressalta a importância da criação de mercados locais, regionais e nacionais que valorizem a produção agroecológica.

A atuação do MST na produção de alimentos saudáveis tem conquistado reconhecimento em diversas regiões do Brasil. Além da produção de arroz orgânico, o movimento investe em culturas diversificadas, promovendo a biodiversidade e reduzindo a dependência de insumos químicos. Essa prática fortalece os assentamentos e contribui para a soberania alimentar das comunidades envolvidas.

A dirigente reforça que a agroecologia não se limita a técnicas agrícolas, mas envolve uma mudança estrutural na forma como a sociedade se relaciona com a terra e os alimentos. Para o MST, garantir que alimentos saudáveis cheguem à mesa da população passa pela democratização do acesso à terra e pela implementação de políticas públicas eficazes.

Produção agrícola

A luta pela segurança alimentar e por sistemas produtivos sustentáveis não é uma tarefa simples, mas Devanir de Oliveira Araújo acredita que, com o fortalecimento da organização coletiva e o apoio de políticas públicas, é possível transformar o cenário da produção agrícola no Brasil. Com um histórico consolidado de ações voltadas à segurança alimentar, ela destaca que o MST reafirma seu compromisso na construção de um modelo de produção que respeita a terra, valoriza os trabalhadores e promove justiça social no campo.

“O MST segue defendendo a agroecologia como alternativa viável e necessária para garantir alimentos saudáveis e acessíveis a toda a população. A agroecologia não é apenas um método de produção, mas um projeto de sociedade que coloca a vida e a dignidade humana no centro do desenvolvimento rural”, expõe.

*Sob supervisão de Cinderela Caldeira e Paulo Capuzzo

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