
Durante a ditadura militar, marcada por perseguições, censura e torturas, as mulheres estiveram na linha de frente da resistência, organizando greves e movimentos pela anistia.
Larissa Mayumi (SP) e Evelyn Dionízio (PE)
MULHERES – Historicamente, a luta das mulheres é apagada e silenciada. Isso faz parte de um sistema que quer vê-las como mercadoria perante à política econômica capitalista. As mulheres servem como mão de obra barata, cuidadoras, para manutenção da família, etc. Porém, as suas lutas devem ser evidenciadas e contadas, pois, onde existe opressão, existirá luta para sua derrubada.
Em 1964, aconteceu o golpe que instaurou a ditadura militar no Brasil durante 21 anos. Estes anos foram marcados por perseguições, torturas, assassinatos e ocultações de cadáveres por parte do Estado brasileiro, tomado por militares fascistas. Para as mulheres, as torturas incluíam estupro, tortura de filhos, mesmo crianças e até bebês.
A ditadura ainda proibiu manifestações, censurou jornais e veículos de informação, interveio em sindicatos e proibiu qualquer tipo de organização política de oposição à ditadura. Porém, mesmo nos anos mais duros, os brasileiros se mobilizaram para defender seus direitos e o fim da ditadura. As mulheres também tiveram participação nas várias ações deste período, seja com organizações próprias seja liderando greves, participando de ações de resistência armadas.
Em junho de 1968, aconteceu a famosa passeata dos 100 mil, no Rio de Janeiro, em repúdio à prisão de líderes estudantis e ao assassinato de Edson Luís (estudante secundarista assassinado por lutar contra o aumento do preço do restaurante estudantil, em março). A partir dessa passeata, várias ações aconteceram no país inteiro, e várias mulheres decidiram se unir para defender seus filhos, fundando a União Brasileira de Mães, com sede no Convento dos Dominicanos do Leme (RJ).
As mulheres passaram a criar comissões de familiares de presos e desaparecidos, unindo mulheres que saíam das prisões políticas. Isso passou a ser o início do que se tornaria o Movimento Feminino pela Anistia, que se estendeu pelo país todo e foi ampliado pela formação do Comitê Brasileiro pela Anistia, com comitês espalhados por vários estados.
Mulheres operárias
Na metade do século 20, a proporção de mulheres trabalhando aumentou: em 1950, eram apenas 13,5%. Em 1970, seis anos após o golpe, passou a ser quase 21% e, em 1985, chegando a 37%. Ainda que a proporção de mulheres fosse muito menor do que a dos homens, o crescimento do proletariado feminino foi maior.
Esse período foi marcado por greves operárias contra o arrocho salarial e por melhores condições de trabalho, uma vez que o Brasil era um dos países com maior número de acidentes no trabalho. Além disso, as greves tinham como principal pauta a luta contra a intervenção da ditadura nos sindicatos.
As maiores greves contaram com a participação e liderança de mulheres. Em Contagem, iniciou-se na Siderúrgica Belgo-Mineira, em abril de 1968, e, depois, estendeu-se para Mannesmann, Mafersa, RCA Victor, Acesita e várias outras, chegando a mobilizar 15 mil operários. Uma mulher foi liderança: Conceição Imaculada de Oliveira, diretora do Sindicato dos Metalúrgicos de Contagem, militante da Corrente, organização dissidente do PCB.
Professoras que trabalhavam com turmas de alfabetização de escolas públicas noturnas, que davam aulas aos operários, incentivaram que seus alunos entrassem em greve. “Foi um trabalho maravilhoso, atingia quase todas as fábricas da cidade”, disse a professora Delsy Gonçalves de Paula. Ela também ajudou a organizar o 1º de Maio do ano seguinte, o que a levou à sua prisão.
Em Osasco (SP), grande parte dos sindicatos sob intervenção passaram a apoiar a ditadura, porém não suas bases. Grupos de esquerda passaram a se movimentar nas fábricas em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia e vários outros estados. As mulheres dos bairros operários ajudaram a divulgar as ações dos trabalhadores em greve. Três operárias que participaram da greve em Osasco foram presas pelo Dops, uma delas, Ana Maria Gomes, com apenas 20 anos na época.
Esses são alguns dos exemplos que mostram que as mulheres, por mais que tentem esconder, sempre estiveram na linha de frente das lutas de libertação do nosso povo. Defenderam a revolução socialista e a luta contra o fascismo com suas próprias vidas. Soledad Barret, Helenira Rezende, Maria Lucia Petit, Inês Etienne Romeu, Cleone Santos e tantas outras dedicaram suas vidas para que o povo brasileiro fosse livre do fascismo e da exploração.
Matéria publicada na edição impressa nº332 do jornal A Verdade