As mulheres negras compõem a maior parte da população do país – são mais de 60 milhões, 28,5% dos brasileiros, e correspondem também à maior percentagem de brasileiros em idade ativa: 48,3 milhões, ou 28,4% do total. No entanto, dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que elas representavam apenas 4,98% das candidatas eleitas para mandatos legislativos nas câmaras municipais em 2016, 6,36% em 2020 e 7,46% em 2024. No mesmo intervalo, os homens brancos seguiram como o grupo dominante: 48,66% dos eleitos em 2016, 44,02% em 2020 e 42,35% em 2024. Ainda que a hegemonia esteja em leve declínio, o ritmo da mudança é lento e desigual.
Nos últimos anos o número de mulheres negras que disputaram mandatos legislativos aumentou, mas pouquíssimas conseguiram se eleger. No Congresso Nacional as negras ocupam apenas 8% das cadeiras. Nas assembleias legislativas, as negras também seguem sub-representadas. Enquanto o número de mulheres brancas eleitas em 2022 continuou praticamente o mesmo, o de negras (pretas e pardas) subiu de 51 para 74 cadeiras em um universo de 1.059 parlamentares.
De acordo com a co-deputada estadual da Bancada Feminista do PSOL na Alesp, Simone Nascimento, que é coordenadora estadual do Movimento Negro Unificado em São Paulo, a disparidade se torna ainda mais evidente quando analisados os dados de suplência. Em 2024, as mulheres negras chegaram a 20,63% das suplentes (15,78% pardas e 4,85% pretas), o que sugere uma participação crescente nas disputas eleitorais. Porém, entre a suplência e a eleição, persiste um abismo, o que mostra que são muitas na base da disputa, mas poucas chegam ao topo do processo.
Para ela, esse dado reflete o funcionamento de um sistema político estruturado para manter o poder na mão dos homens brancos e ricos. “As barreiras que as mulheres negras enfrentam na política não estão apenas nas urnas, mas em todas as etapas do processo eleitoral: desde a filiação partidária e a distribuição dos fundos eleitorais até o acesso à mídia, o preconceito de classe, racial e de gênero nas campanhas e a lógica das alianças políticas. Nossa presença é marcante, é simbólica, é forte, mas ela ainda é muito aquém da necessidade da democracia brasileira”, diz.
Formação de lideranças – A auto-organização das mulheres negras na construção de imaginários e lideranças políticas desde os territórios para fortalecer a organização comunitária é o principal caminho para vencer as barreiras que impedem seu acesso e representatividade na política, de acordo com Simone Nascimento, mas o fortalecimento das políticas públicas também é essencial.
“Desde de termos direito a moradia, trabalho e renda, sair do mapa da fome, ter rede de apoio na manutenção e cuidado da sociedade, das famílias, sair do lugar da subalternidade, sair da base da pirâmide social, como o IBGE mostra. Para que a gente possa, de fato, avançar na disputa da consciência da classe trabalhadora brasileira, precisamos estar cada vez mais organizadas e mobilizadas. Mas também é necessário fortalecer mecanismos que permitam que a jornada das mulheres negras se traduza na possibilidade de elaboração e participação política”, afirma.
A Marcha das Mulheres Negras, que completou uma década em 25 de julho, foi um processo que possibilitou o crescimento dessa porcentagem, ainda que pequena, das mulheres que ocupam cargos no parlamento. Elas foram eleitas depois da primeira grande Marcha Nacional em Brasília, que movimentou a estrutura de lideranças de mulheres negras no Brasil todo em uma grande frente de luta, que apostava num projeto de utopia, de futuro, pautado no bem viver e nas relações comunitárias.