Notícias

Mundo em choque na ONU: negacionismo climático de Trump e agenda verde de Lula

Na tribuna da Assembleia Geral da ONU, o mundo testemunhou a encenação de dois projetos radicalmente opostos para o futuro do planeta. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou o Brasil como potência ambiental, com metas concretas contra a crise climática. Do outro, Donald Trump reforçou seu negacionismo, tratando a emergência climática como uma “farsa” e exaltando combustíveis fósseis em um discurso que isolou os EUA do consenso científico e diplomático global.

Ele classificou a mudança climática como “o maior golpe já perpetrado” e uma “fraude”, ridicularizando décadas de pesquisas que comprovam o aquecimento global e seus efeitos devastadores.

Por mais de dez minutos, Trump zombou de previsões científicas, chamou ambientalistas de “pessoas estúpidas” e descreveu energias renováveis, como solar e eólica, como uma “fraude” que deveria ser eliminada. Em contrapartida, instou nações a ampliarem a compra de petróleo e gás dos Estados Unidos e exaltou o uso de energia nuclear.

Negacionismo com impacto global

A fala chega na véspera da Cúpula do Clima da ONU de 2025, a COP30 em Belém, encontro em que governos apresentarão novos planos de ação climática para conter o aquecimento abaixo de 1,5ºC, meta fixada no Acordo de Paris. Ao atacar frontalmente esse consenso, Trump reafirma a guinada isolacionista dos EUA em matéria ambiental, aprofundando a ruptura com aliados europeus e com organismos internacionais.

Trump explorou contradições de previsões antigas para desacreditar a ciência contemporânea. Recorreu, por exemplo, a uma declaração de 1989 de um funcionário da ONU sobre risco de submersão de países até 2000 — uma estimativa isolada e superada — para reforçar sua tese de “fraude”. Ignorou, no entanto, os dados atuais: segundo a ONU, o nível do mar sobe em ritmo acelerado e já ameaça megacidades costeiras como Nova York e Bangkok.

A desconstrução das políticas ambientais

Desde sua volta à Casa Branca, Trump vem promovendo um desmonte regulatório e institucional:

  • Retirada dos EUA do Acordo de Paris, repetindo movimento de seu primeiro mandato;
  • Corte de financiamentos para cúpulas climáticas da ONU e pesquisas ambientais;
  • Extinção de órgãos no Departamento de Estado responsáveis por negociações climáticas;
  • Revogação de créditos fiscais e normas ambientais que estimulavam energias limpas;
  • Promoção aberta de petróleo, gás e carvão como pilares da matriz energética.

Um relatório recente do Departamento de Energia, alinhado ao discurso presidencial, chegou a minimizar os custos das mudanças climáticas. Mais de 85 cientistas o classificaram como “manipulação deliberada para favorecer a indústria fóssil”.

Entre retórica e realidade

Trump se autoproclamou “visionário” capaz de prever tendências, mas ignorou o consenso científico que aponta para riscos crescentes de crises alimentares, deslocamentos em massa e catástrofes climáticas. Só na última década, desastres relacionados ao clima deslocaram 220 milhões de pessoas, segundo o ACNUR.

Ao zombar do tema diante de mais de 150 líderes mundiais, o presidente reforça o papel dos EUA como obstáculo ao esforço coletivo contra a maior emergência do século. Sua fala não apenas afronta a ciência, mas sinaliza que, sob seu governo, a prioridade norte-americana continuará sendo expandir exportações de energia fóssil — ainda que isso empurre o planeta para cenários de colapso ambiental.

O negacionismo como programa de governo: a visão de Trump

O discurso de Trump foi um ataque frontal a décadas de esforços multilaterais. Sua posição pode ser resumida em frases-chave:

  • “Estamos nos livrando das chamadas energias renováveis, que são, a propósito, uma piada.” Com esta declaração, Trump desqualifica toda a transição energética em curso no mundo, essencial para conter o aquecimento global.
  • “A pegada de carbono é uma farsa inventada por pessoas com más intenções.” Ele nega a base científica das mudanças climáticas, atribuindo-a a uma suposta conspiração, e se gaba de ter retirado os EUA do Acordo de Paris. Esse indicador é a base internacional para medir emissões e orientar políticas climáticas em escala global.
  • “Mudança climática. Não importa o que aconteça, você está envolvido nisso.” Essa fala revela sua estratégia de descreditar a ciência ao afirmar que o termo “mudança climática” é uma armadilha retórica para nunca estar errado.

Sua solução, na verdade, é um retrocesso: a promoção do “carvão limpo e bonito” – um termo de marketing para uma fonte de energia notoriamente poluente – e da energia nuclear. Trump apresenta a luta contra a crise climática não como uma necessidade, mas como um fardo econômico que levaria países à falência, ignorando os custos catastróficos da inação.

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a abertura do Debate Geral da 80.ª Sessão Ordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas. Sede da Assembleia Geral das Nações Unidas, Nova York (EUA)Foto: Ricardo Stuckert / PR

A resposta brasileira: Lula e a defesa da governança climática

Em claro contraste, o discurso do presidente Lula foi construído sobre o reconhecimento da urgência da crise. Ele começou alertando que “o ano de 2024 foi o mais quente já registado”, situando sua fala na realidade científica incontestável.

Diferente do ceticismo de Trump, Lula apresentou compromissos concretos:

  • “O Brasil se comprometeu a reduzir entre 59% e 67% suas emissões, abrangendo todos os gases de efeito estufa.”
  • Anunciou a criação do “Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que o Brasil pretende lançar para remunerar os países que mantêm suas florestas em pé”, propondo um mecanismo financeiro internacional baseado na preservação.

Fundamentalmente, Lula vinculou a agenda ambiental à justiça social, argumentando que a transição não pode “repetir o modelo predatório” e que erradicar o desmatamento exige “garantir condições dignas de vida” para as populações locais. Esta visão integrada contrasta com a caricatura feita por Trump de que a proteção ambiental é inimiga do progresso econômico.

O abismo entre duas visões de futuro

A comparação entre os discursos vai além de políticas específicas; revela uma disputa sobre a própria natureza dos desafios globais.

Aspecto Visão de Trump Visão de Lula
Base Científica Negada ou ridicularizada (“golpe”, “farsa”). Aceita como ponto de partida inegável.
Cooperação Internacional Desprezada em favor do unilateralismo. Essencial, com a COP30 como momento de prestação de contas.
Transição Energética Encara como ameaça econômica. Vê como oportunidade para desenvolvimento sustentável.
Papel da Natureza Recurso a ser explorado sem restrições. Patrimônio a ser protegido com justiça social.

A linha de fronteira climática

O palco da ONU tornou visível a linha de fronteira que divide a política global hoje. De um lado, está a visão negacionista e isolacionista de Trump, que oferece um futuro de incerteza climática acelerada e conflito geopolítico. Do outro, a visão representada por Lula, que, apesar de seus próprios desafios internos, aposta na cooperação, na ciência e numa transição justa.

Enquanto Trump tenta desmantelar o consenso ambiental global, a fala de Lula reforça que a crise climática permanece como a questão definidora do nosso tempo, exigindo ações coletivas e urgentes, não piadas e negações. A contradição entre os dois discursos não é meramente retórica; é a medida do abismo que separa duas concepções irreconciliáveis sobre o destino do planeta.

O post Mundo em choque na ONU: negacionismo climático de Trump e agenda verde de Lula apareceu primeiro em Vermelho.