
A estreia do horário eleitoral gratuito em Pernambuco, nesta sexta-feira (28), colocou frente a frente duas estratégias opostas — e dois usos radicalmente diferentes do mesmo verbo: “voltar”. Enquanto Raquel Lyra (PSD) batizou seu programa de “Pernambuco voltou e está pronto pro futuro”, João Campos (PSB) respondeu com “pra fazer Pernambuco voltar a ser protagonista do Nordeste”. A governadora apresenta o retorno como fato consumado; o ex-prefeito do Recife nega que ele tenha acontecido e o promete como projeto. Nesse embate de narrativas, a primeira rodada teve um vencedor claro: João saiu da estreia com momentos de sobra para o eleitor guardar, enquanto Raquel desperdiçou seu tempo falando, sobretudo, consigo mesma.
O contexto da estreia é o de uma das disputas mais acirradas do país. Raquel chegou à TV na dianteira das pesquisas — a Quaest de 25 de agosto lhe deu 44% contra 36% de João, uma virada e tanto sobre o cenário de abril, quando o socialista liderava por 50% a 38%. João, por sua vez, tem o maior tempo de TV: 4min21s por bloco, contra 4min03s da governadora. Era, portanto, a chance de o desafiante mudar a energia da corrida. E ele a aproveitou.
Os acertos de João: Lula, linhagem e entrega concreta
O melhor momento da estreia de João foi, sem dúvida, a presença de Lula. O presidente aparece ao lado do candidato e faz um pedido explícito: “Peço o seu voto para o João Campos para ser o governador de Pernambuco”. Num estado onde Lula é hegemônico, o selo presidencial vale ouro — e o programa o transforma em eixo narrativo com o mote “É Lula e João”, apresentando a dupla como responsável por recolocar Pernambuco no mapa do Nordeste. “João junto com Lula, como bons pernambucanos que são, não vêm para fazer apenas mais um governo, vêm para fazer história”, diz a locução.
O segundo acerto foi emocional: a linhagem. Ao citar Miguel Arraes, Ariano Suassuna e Eduardo Campos, João reivindicou para si o “inconformismo” pernambucano e tratou o legado do pai como “gigante, mas que não nos prende ao passado”. É uma jogada dupla: honra a memória mais querida do eleitorado e, de quebra, esvazia o discurso de Raquel, que precisa atacar um passado que o povo ainda venera.
O terceiro acerto foi o mais concreto: a ponte entre o Recife e o estado. O programa exibiu o cardápio da gestão recifense — creches, obras nos morros, Hospital da Criança, reeleição em 2024 — e o escalou para o plano estadual com uma promessa detalhada: quatro novos hospitais, entre eles o Hospital Geral Metropolitano, de 900 leitos, apresentado como o maior hospital público do Nordeste. Tudo amarrado pelo fecho de efeito mais forte da noite: “Se o Recife cresceu, Pernambuco vai crescer dez vezes mais.”
A presença de Lula não ficou restrita ao programa de João. O presidente também apareceu no horário eleitoral pernambucano em peças destinadas à disputa proporcional, pedindo votos para candidatos a deputado aliados. Já nas inserções do PL, o candidato do partido à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), não foi mencionado.
Os tropeços de Raquel: monólogo, queixa e contradição
Raquel, por sua vez, cometeu na estreia uma sequência de erros que o seu momento de vantagem nas pesquisas não merecia. O primeiro foi de formato: dedicou cerca de 3min20s — quase todo o programa — a um monólogo em primeira pessoa sobre sua caminhada. Sem depoimentos de aliados, sem vozes externas, sem um aliado nacional de peso ao lado (ela evita declarar apoio a Lula, e seus parceiros à direita são passivo num estado lulista), a peça soou como um relatório de autoavaliação.
A governadora faz ginástica para driblar a polarização nacional e somar votos de todos os espectros ideológicos, sem ser taxada de bolsonarista. Em entrevistas, a governadora não declara voto para presidente, mas se diz grata a Lula pela realização de obras.
O segundo erro foi de conteúdo: a queixa. “A gente não pegou a casa arrumada. Deu mais trabalho”, disse, em crítica indireta aos 16 anos de governos do PSB que a antecederam. O problema é duplo. Depois de três anos e meio de mandato, culpar o antecessor soa a desculpa, não a diagnóstico. E a “casa” que ela critica foi erguida por Eduardo Campos — a mesma memória que João transforma em trunfo. Atacar o passado em Pernambuco é atacar um patrimônio afetivo do eleitor.
O terceiro erro, o mais grave, foi de coerência. O título do programa proclama que “Pernambuco voltou” — economia crescendo, estradas recuperadas, hospitais reformados. Mas a queixa da “casa desarrumada” diz exatamente o contrário: que o estado era um desastre herdado. Não dá para vender, no mesmo bloco, o ufanismo do “voltou” e o lamento do “não estava arrumado”. O eleitor percebe a costura.
O que a estreia revela sobre a reta final
O primeiro programa eleitoral de TV em Pernambuco expôs dois tempos e duas energias. O programa de João tem estrutura de futuro: passado que orgulha (a linhagem), presente que funciona (o Recife) e futuro com entregas concretas (os hospitais com Lula). O de Raquel é um balanço de gestão voltado para o retrovisor e para o espelho — útil para consolidar quem já a aprova, fraco para conquistar quem ainda duvida.
Não se trata, claro, de uma eleição decidida em um dia. Raquel segue à frente nas pesquisas e colhe frutos da economia e da máquina pública. Mas o horário eleitoral existe justamente para o momento em que o desafiante precisa crescer — e João cresceu na estreia. Se a tendência se mantiver, a disputa que parecia encaminhada pode, afinal, fazer Pernambuco voltar a ser protagonista de outra coisa: uma das eleições mais disputadas do Brasil.
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