
Donald Trump não poupou superlativos para descrever a economia americana em seu discurso na Assembleia Geral da ONU. De acordo com o presidente, os EUA vivem uma “era dourada” [golden age], com inflação derrotada, preços em queda, investimentos recordes e salários em alta. No entanto, essa narrativa ufanista, central para justificar sua liderança global, parece existir em um plano paralelo à realidade dos indicadores econômicos oficiais, que mostram um cenário mais complexo e menos espetacular.
Enquanto promovia essa visão idílica, Trump reposicionou os EUA não como um parceiro, mas como um árbitro solitário e ameaçador no palco global. Atacou Rússia, China e Índia, cobrou gastos militares da Europa e ameaçou com tarifas punitivas, traçando os contornos de uma governabilidade baseada no unilateralismo populista, na cruzada contra a imigração e numa nova Guerra Fria comercial.
“Eu estava certo sobre tudo”, disse o presidente, repetindo uma série de alegações enganosas e falsas.
A economia da hipérbole: o abismo entre a retórica e os dados
A descrição de Trump da economia norte-americana foi um exercício de exagero. Alegações como a de que “os salários estão subindo no ritmo mais rápido em mais de 60 anos” e que a inflação foi “derrotada” simplificam drasticamente uma realidade econômica multifacetada. Especialistas apontam que, enquanto estes indicadores apontam para a falta de mão-de-obra e sobra de produtos locais nas prateleiras (boicotados por importadores), outros – como a dívida pública recorde e a inflação teimosa em setores específicos – são omitidos nesta narrativa.
“Sob a minha liderança, os custos de energia caíram, os preços da gasolina caíram, os preços dos alimentos caíram, as taxas de hipoteca caíram e a inflação foi derrotada.”
A alegação mais bombástica, no entanto, foi a de “17 trilhões de dólares” em investimentos garantidos em apenas oito meses. Este número, apresentado sem fontes independentes ou detalhamento, é de magnitude superior aos fluxos de investimento registados historicamente e é visto com ceticismo por analistas. Ao contrastá-lo com um suposto “menos de 1 trilhão” durante o governo Biden, Trump utiliza uma figura comum em seu repertório: a criação de dados espetaculares para construir uma realidade alternativa de sucesso inigualável, onde a verdade factual é subjugada ao impacto retórico.
Segundo a checagem do New York Times, Mister Trump está comparando maçãs com laranjas e está inflando os números de seu próprio governo. A arrecadação de Biden em projetos de manufatura, impulsionados pela aprovação de quatro leis, contém detalhes sobre a localização de instalações específicas, por exemplo, uma fábrica de semicondutores de US$ 11 bilhões em Utah e uma fábrica de painéis solares de US$ 1 bilhão em Oklahoma.
Em contraste, o valor de US$ 17 trilhões de Trump é o dobro do que sua própria Casa Branca contabilizou: US$ 8,8 trilhões. Mas mesmo esse valor não está totalmente “pago”, como teria dito Trump. Inclui promessas amplas e informais de países estrangeiros para investir nos Estados Unidos, que especialistas alertam que podem ser irrealistas. Uma promessa da Arábia Saudita de 2017, ainda em seu primeiro mandato, de comprar US$ 450 bilhões em produtos americanos, por exemplo, não se concretizou totalmente.
“América fortaleza”: a cruzada anti-imigração como pilar econômico
A narrativa econômica de Trump é inextricavelmente ligada à sua cruzada anti-imigração. A alegação de que a fronteira sul está totalmente controlada e que o número de entradas ilegais é “zero” é apresentada não apenas como uma vitória de segurança, mas como um pré-requisito para a prosperidade econômica. É a crença de que a saúde econômica depende do isolamento e do controle absoluto das fronteiras.
Ao descrever os migrantes anteriores como vindos de “prisões, de instituições mentais, [e] traficantes de drogas”, ele constrói um inimigo necessário para justificar políticas de tolerância zero.
Essa visão traduz a “América Fortaleza” num princípio econômico: a prosperidade interna, em sua lógica, depende do isolamento e da purga de elementos externos considerados ameaçadores. É uma economia baseada na exclusão, onde o crescimento é fruto do protecionismo e da restrição.
O unilateralismo como estratégia: ameaças, tarifas e a nova Guerra Fria
O discurso foi um manifesto de unilateralismo. Trump não propôs cooperação, mas sim subordinação. Suas ameaças foram claras:
- À Europa: cobrou que aumentem os gastos militares para 5% do PIB, uma meta considerada exorbitante por aliados, e acusou-os de hipocrisia por continuarem a comprar energia russa. “A China e a Índia são os principais financiadores da guerra em curso ao continuarem comprando petróleo russo. Mas, de forma injustificável, até mesmo países da OTAN não cortaram muito da energia russa…”
- À Rússia, China e Índia: atacou-os diretamente como “principais financiadores da guerra” na Ucrânia e ameaçou impor uma “rodada muito forte de tarifas poderosas”. “Caso a Rússia não esteja pronta para fazer um acordo… os Estados Unidos estão totalmente preparados para impor uma rodada muito forte de tarifas poderosas que, acredito, acabariam com o derramamento de sangue muito rapidamente.”
- Ao mundo: reiterou que usará as tarifas como “mecanismo de defesa”, sinalizando uma política comercial agressiva e baseada no conflito, não na negociação. “O Brasil agora enfrenta grandes tarifas em resposta a seus esforços sem precedentes para interferir nos direitos e liberdades de nossos cidadãos… Só pode ir bem quando estiver trabalhando conosco. Sem nós, fracassará.” Esta frase sintetiza a doutrina: subordinação ou punição. A economia é instrumentalizada para punir críticos e forçar alinhamento.
Esta postura redefine os EUA não como um líder consensual, mas como um poder hegemônico que dita termos. O multilateralismo de instituições como a ONU é desprezado em favor de um sistema onde Washington age como juiz, júri e executor. É a consolidação de uma Nova Guerra Fria, não necessariamente ideológica, mas geoeconômica, onde o poder é exercido através de sanções, tarifas e isolamento.
A fábula da autossuficiência
O discurso de Trump na ONU foi a encenação de uma fábula: a de que os EUA podem atingir uma “era dourada” através do isolamento, da ameaça e da rejeição da cooperação global. A narrativa econômica inflada serve como alicerce para este projeto, criando uma ilusão de sucesso que justifica ações unilaterais.
A realidade, no entanto, é que a economia global é profundamente interligada, especialmente quando os países se articulam em blocos resistentes ao dólar e mecanismos financeiros articulados por Washington. Políticas de tarifas generalizadas podem desencadear recessões globais, e o afastamento de parceiros pode enfraquecer a influência americana a longo prazo.
A visão trumpista de um “árbitro solitário” é, na prática, a de um país que troca a complexa liderança global por uma solidão poderosa e potencialmente destabilizadora. A “era dourada” prometida pode ser, na verdade, a era do isolamento nas sombras.
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