Em um país eleitoralmente polarizado desde o pleito de 2018, uma parcela de eleitores costuma definir o resultado na reta final da campanha: os indecisos. Dentre eles, segundo analistas, está um grupo importante, chamado de “independentes”, que são aqueles que não se identificam profundamente nem com um campo nem com outro, e que estão abertos a ouvir as propostas de ambos os lados.
De acordo com o levantamento da Quaest divulgado nesta segunda-feira (28), o percentual de indecisos, apesar de ainda considerável, segue em queda, uma tendência considerada normal, já que faltam apenas seis dias para a ida às urnas. Na pesquisa espontânea (quando os nomes dos candidatos não são citados), os eleitores que afirmaram que ainda não escolheram são 31% frente 35% na semana passada.
Com relação ao grau de decisão do voto, entre os entrevistados que indicaram um candidato, 76% dizem que a escolha é definitiva, enquanto 23% afirmaram que ainda podem mudar. O eleitor, que costuma migrar o voto entre diferentes campos (direita e esquerda), a depender do cenário político do momento, é denominado como “eleitor pendular”.
Um ponto considerado bastante preocupante é o alto índice de abstenções. Em 2022, mais de 31 milhões de brasileiros deixaram de votar para presidente, o que representa quase 21% do eleitorado; a maior abstenção desde 1998.
No campo do eleitorado pendular, há três subgrupos: o pendular conservador (que rejeita o petismo, mas está indeciso sobre o voto em Flávio), o pendular progressista (que rejeita o bolsonarismo, mas que não tem certeza no voto em Lula) e o pendular categorizado como independente, que não tem uma rejeição formada a nenhum campo (o menor grupo da parcela de indecisos).
“Essa é uma variável muito mais explicativa do que as variáveis demográficas como idade, escolaridade, sexo, religião. A indecisão hoje está muito mais ancorada em uma dinâmica de guerra de rejeições do que em um perfil demográfico claro”, comenta Beto Vasques, diretor do Instituto Democracia em Xeque.
O professor de Comunicação Política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) dialoga com os dados, a partir de resultados dos levantamentos do Datafolha e da Quaest, que apontam que o grupo demográfico que mais se destaca dentre os indecisos é o de mulheres, que vivem nas periferias urbanas da região Sudeste.
As mulheres são maioria do eleitorado, com 9 milhões a mais de eleitoras do que eleitores, além disso, o número de abstenções nas urnas entre elas é menor. Segundo o Datafolha, 47% das mulheres chefes de família têm intenção de voto em Lula e 27% em Flávio.
“Prefiro olhar o indeciso pela orientação dele perante a polarização política, essa tem sido a variável com a maior correlação em relação ao voto. É importante entender o indeciso pelo posicionamento político dele, olhar para os independentes que oscilam de Lula para Flávio, de Lula para a abstenção ou de Flávio para a abstenção”, opina Beto Vasques.
“Fazer esse zoom permite a gente entender um pouco mais a charada dos indecisos, que, embora sejam um segmento pequeno, serão decisivos, em uma eleição tão acirrada, para o resultado da urna”, completa.
Bets e Nossa Senhora Aparecida
Na última sexta-feira (25), dois temas tomaram conta do noticiário com interferência direta na movimentação dos indecisos ao longo do final de semana. O anúncio do presidente Lula sobre a proibição das apostas online por meio das bets a partir de uma Medida Provisória teve ampla repercussão nas redes sociais ao mesmo tempo em que um comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes, na GloboNews, causou grande impacto negativo entre os eleitores da direita.
A jornalista relembrou uma proposta de 2007 apresentada por um deputado federal ligado ao bolsonarismo de retirar Nossa Senhora Aparecida do posto de Padroeira do Brasil e trouxe a preocupação de setores da Igreja Católica de que a medida volte com Flávio Bolsonaro na presidência. Isso colocou o candidato de extrema direita na defensiva no debate público; outras medidas como o reajuste no Bolsa Família e as canetas emagrecedoras no SUS também colocaram o holofote voltado a Lula.
De acordo com relatórios do Instituto Democracia em Xeque, foram registradas mais de 1,3 milhão de publicações e 12,4 milhões de interações sobre o assunto no período analisado (entre os dias 25 e 28). A maior parte da conversa se concentra no debate cultural e religioso, judicialização, liberdade de expressão e defesa da Padroeira, enquanto 17% mencionam a acusação que originou a controvérsia.
Nas redes e nas ruas, o foco da discussão ficou em torno do conflito existente entre católicos e evangélicos, com pouca adesão ao comentário original da jornalista ou ao tema das fake news.
Sobre o tema das bets, o relatório informou que foram mais de 2,5 milhões de posts com mais de 40 milhões de interações. O documento mostrou que apesar da forte reação da oposição, os conteúdos que mais circularam foram favoráveis à medida. De acordo com a Atlas/Intel, 75% dos brasileiros concordam com a proibição.
O resultado da Quaest desta segunda-feira (28) mostrou vantagem de Lula (39%) em relação a Flávio (34%), com essa diferença, os candidatos não estão mais considerados em empate técnico, como na última rodada.
Politização e resultado apertado
“A imprensa colocou como prioridade os casos de corrupção e os escândalos do STF, isso acabou sequestrando a pauta, não foram discutidas propostas, projetos para o país. Isso ficou visível também nas redes sociais, percebemos que o tema da corrupção está com baixa capacidade de deslocar a opinião dos indecisos, como efeito, vemos que esse tema deixa a política ainda mais desinteressante”, afirma Jordana Pereira, que coordenou o Núcleo de Opinião Pública, Pesquisa e Estudos da Fundação Perseu Abramo.
Para a pesquisadora, o eleitorado que continua em disputa é o mesmo de 2022. “Se na última eleição a diferença foi de dois milhões de votos, a tendência é que isso se repita neste ano, o índice de rejeição de Lula e Flávio estão praticamente no mesmo patamar, então a perspectiva é a disputa voto a voto”, diz.
“A questão é que o Flávio se conecta com a sensação de insatisfação, mas tem baixa capacidade de propor futuro”, completa Jordana Pereira.
Nesse sentido, o professor Beto Vasques afirma que “estamos vivendo o terceiro turno de 2022” e que esse é um pleito que “mexe com os sonhos e com os medos das pessoas”.