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Narrativa anticomunista mantém Coreia do Sul em silêncio sobre massacres no Vietnã, diz representante

Passados mais de 60 anos desde que as tropas sul-coreanas, ao lado dos Estados Unidos, cometeram massacres contra civis na guerra do Vietnã, o governo de Seul ainda não reconheceu oficialmente os fatos, muito menos formalizou um pedido de desculpas pelas violações cometidas na época. Enquanto isso, os sobreviventes e familiares das vítimas – hoje, em sua maioria com mais de 70 anos – seguem em busca da verdade.

Em 30 de julho, nove cidadãos vietnamitas, sendo oito sobreviventes e um familiar enlutado, apresentaram uma nova petição à Comissão da Verdade e Reconciliação (TRC, na sigla em inglês) da Coreia do Sul – a primeira desde o lançamento da 3ª Comissão, em fevereiro deste ano. Os pedidos de investigação referem-se a dois massacres específicos: Ha My e o de Phuoc Binh.

O primeiro ocorreu em 25 de fevereiro de 1968, quando 135 moradores, incluindo bebês, foram mortos a granadas pelo Exército sul-coreano na província de Da Nang; o segundo ocorreu em 9 de novembro de 1966, quando 73 civis foram assassinados na província de Quang Ngai. 

A Opera Mundi, Kwon Hyun Woo, secretário-geral da Fundação pela Paz Coreia-Vietnã, que fornece apoio jurídico e administrativo às vítimas e seus familiares, enfatizou que o Estado sul-coreano, até o momento, não reconheceu oficialmente os fatos históricos, apesar de ex-presidentes como Kim Dae Jung, Roh Moo Hyun e Moon Jae In terem expressado pesar em visitas de Estado ao Vietnã.

“Alguns ex-presidentes expressaram pesar em relação à história da Guerra do Vietnã, mas essas manifestações permaneceram em um nível genérico, sem especificar exatamente do que se tratava o arrependimento. O Estado nunca reconheceu oficialmente os fatos ou assumiu a responsabilidade”, afirmou.

Segundo Kwon, inicialmente as vítimas somente exigiam uma investigação oficial, reconhecimento dos fatos, um pedido formal de desculpas e reparos concretos. No entanto, Seul permaneceu em silêncio por seis décadas, fazendo com que a demanda “mais desesperada” se reduzisse ao reconhecimento da verdade enquanto os sobreviventes estão vivos.

Pedidos arquivados

Durante o mandato da 2ª Comissão da Verdade e Reconciliação, que foi encerrada no fim de 2025, três requerentes do massacre de Ha My tiveram seus pedidos arquivados sob a justificativa de que os solicitantes eram “estrangeiros” e que os incidentes haviam ocorrido “no exterior”.

O Tribunal Superior de Seul, por sua vez, reconheceu a necessidade de uma investigação do massacre em nível estadual, mas afirmou que o trabalho caberia à Assembleia Nacional, e não ao Judiciário.

“Até que ponto o processo de reconciliação com a história passada na sociedade coreana deve se estender?”, questionou Kwon. “O fato é que os perpetradores dos massacres de civis durante a Guerra do Vietnã foram os militares sul-coreanos. Se as violações dos direitos humanos são causadas pelas ações de uma mesma agência estatal, então as investigações não devem discriminar se uma vítima tem cidadania coreana ou se é estrangeira”.

Nesta recente petição apresentada à 3ª Comissão, a Fundação pela Paz Coreia-Vietnã realizou uma reunião com a presidência da TRC para notificar sobre os “os problemas deixados por decisões anteriores” e defender que “os massacres de civis durante a Guerra do Vietnã não são, de forma alguma, assuntos ininvestigáveis ou excessivamente complexos”.

Advogados da Força-Tarefa do Vietnã de Minbyun e ativistas da Fundação pela Paz do Vietnã-Coreia entregam pedidos à Comissão da Verdade e Reconciliação, em Seul
Minbyun/Reprodução

Por que a Coreia do Sul não reconhece?

Para Kwon, há uma série de fatores que levam o Estado sul-coreano a não reconhecer o fato histórico, e estes abrangem a diplomacia, os encargos políticos internos e as preocupações envolvendo a responsabilidade legal. Mas o principal obstáculo, de acordo com ele, é a “falta de resolução política”.

“Há muito tempo, a sociedade coreana interpreta a Guerra do Vietnã dentro de um contexto histórico de necessidade de crescimento econômico, uma história de anticomunismo e os sacrifícios dos veteranos de guerra. Dentro dessa memória, reconhecer a questão dos massacres de civis em nível estatal entra em conflito com a narrativa nacional existente”, explica.

Após a Guerra da Coreia, interrompida em 1953 com a assinatura de um tratado de armistício, a Coreia do Sul se concentrou em desenvolver ainda mais a aliança com os Estados Unidos em busca de apoio econômico e militar.

Com o envio de seus soldados ao Vietnã, o país recebeu dezenas de bilhões de dólares em subsídios, empréstimos, transferências de tecnologia e tratamento econômico preferencial, conforme o historiador Kwak Tae Yang no artigo A Doutrina Nixon e as Reformas Yusin: Política Externa Americana, a Guerra do Vietnã e a Ascensão do Autoritarismo na Coreia.

De acordo com o secretário-geral da fundação, o Estado sul-coreano não negou os fatos, mas optou pelo silêncio. “Observando os exemplos de outros países, pedidos de desculpas raramente são feitos porque o ambiente diplomático no momento é perfeito. Em última análise, um pedido de desculpas não é uma questão de diplomacia, mas de política e ética”, acrescentou.

Um projeto de lei chegou a ser apresentado em outubro de 2025 para investigar as violações cometidas pelas forças armadas sul-coreanas entre 1964 e 1973. No entanto, ele permanece paralisado na Assembleia Nacional. Por sua vez, a 3ª Comissão revela enfrentar restrições orçamentárias, tendo recebido mais de 4,7 mil pedidos já nos primeiros 100 dias de seu lançamento, em fevereiro deste ano.

“Espero que o governo coreano aceite essa questão não como ‘culpar o passado’, mas como ‘cumprir a responsabilidade histórica como uma nação democrática’”, destacou Kwon.

As investigações

Com a solicitação feita em 30 de julho, agora, a TRC tem até 90 dias para decidir se inicia a investigação. Caso seja aprovada, se tratará do primeiro procedimento em nível governamental para apurar as violações cometidas pelo Exército sul-coreano durante a Guerra do Vietnã.

“Se uma investigação oficial em nível estatal e uma busca pela verdade forem realizadas em relação a esses incidentes, isso poderá servir como um precedente importante que abra caminho para investigações sobre inúmeros outros casos de massacre”, apontou Kwon.

A Fundação pela Paz Coreia-Vietnã constatou que as forças sul-coreanas cometeram massacres em aproximadamente 130 vilarejos entre 1964 e 1972, resultando na morte de aproximadamente dez mil pessoas. Para o secretário-geral, o momento é crucial uma vez que “o tempo está se esgotando”.

“A tarefa mais crucial é o Estado descobrir a verdade e dar uma resposta responsável enquanto as vítimas e os sobreviventes ainda estão vivos”, enfatizou Kwon. “60 anos é tempo demais para se esquivar da responsabilidade”.

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