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Nos EUA, 74% dos imigrantes detidos não têm condenação

“Os democratas abriram nossas fronteiras e permitiram que criminosos violentos, incluindo assassinos, estupradores, membros de gangues e terroristas, invadissem nossas comunidades”, disse Karoline Leavitt, em declaração oficial da Casa Branca nesta quarta-feira (4).

A fala foi divulgada no mesmo dia em que o governo Donald Trump comemorou a marca de mais de 4 mil prisões de “imigrantes ilegais criminosos” em Minnesota, estado governado por democratas e alvo central da chamada “Operation Metro Surge”, conduzida pelo ICE, a agência de imigração vinculada ao Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos.

Os números oficiais, porém, contam uma história diferente. Dados do Transactional Records Access Clearinghouse (TRAC), da Universidade de Syracuse, mostram que, no fim de 2025, cerca de 74% dos imigrantes mantidos em centros de detenção do ICE não tinham condenação criminal registrada nos Estados Unidos.

O levantamento do TRAC indica que, em 30 de novembro de 2025, 65.735 pessoas estavam sob custódia do ICE nos Estados Unidos. Desse total, 48.377 não tinham condenação criminal registrada, o equivalente a 73,6% da população detida.

Em atualização publicada em janeiro de 2026, o percentual subiu levemente para 74,2%, ou 70.766 detidos sem condenação criminal. 

O contraste é evidente. Enquanto a Casa Branca sustenta que as operações federais miram “assassinos, estupradores, membros de gangues e terroristas”, os registros oficiais mostram que a maior parte das pessoas mantidas em centros de detenção não possui condenação criminal no país.

A linguagem adotada nas declarações oficiais reforça um padrão que acompanha o discurso de Trump desde o início de sua trajetória política. 

Em 2015, ao lançar sua candidatura à Presidência, afirmou que imigrantes mexicanos “estão trazendo drogas, estão trazendo crime, são estupradores”. Ao longo dos anos seguintes, voltou a associar imigração irregular a “predadores sexuais”, “assassinos” e “membros de gangues” ao defender políticas mais duras na fronteira.

Nas últimas semanas, o endurecimento da fiscalização em Minnesota foi apresentado como resposta a uma suposta escalada de violência associada a estrangeiros em situação irregular. 

Em outra declaração pública, a porta-voz do governo descreveu os agentes federais como “fazendo tudo ao seu alcance para remover esses indivíduos hediondos e tornar nossas comunidades mais seguras”, ao comentar críticas às operações do ICE.

O discurso também tem recorrido a casos específicos de mulheres assassinadas por imigrantes para sustentar a necessidade de reforço nas detenções e deportações. 

Ao mencionar esses episódios, autoridades federais associam as ações migratórias à proteção da família e da comunidade, argumento frequentemente mobilizado por setores conservadores e reacionários da sociedade norte-americana que defendem maior presença policial e endurecimento penal.

Nesse cenário, a política migratória se tornou um dos eixos centrais de mobilização da base republicana. 

A ênfase em prisões, operações concentradas em estados governados por democratas e linguagem de enfrentamento dialoga com um eleitorado que cobra demonstrações públicas de rigor. 

Os números sobre condenações criminais não alteram essa estratégia, mas ajudam a dimensionar o perfil real das pessoas alcançadas pelas operações.

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