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“Nós evitamos chamar de ‘super’ El Niño”, explica coordenador do Centro Nacional de Monitoramento

Nas últimas semanas, a imprensa repercutiu um alerta emitido pelo Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos, vinculado à Agência Oceânica e Atmosférica norte-americana (NOAA), que aponta a ocorrência do fenômeno El Niño em alta intensidade

Segundo o documento emitido pela agência, a probabilidade de que o evento ocorra é de 82%, com formação já a partir deste trimestre (maio a julho) e com 96% de chance de se estender até o trimestre de dezembro a fevereiro. 

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, na região equatorial, em pelo menos 0,5°C. O impacto direto desse aumento de temperatura é observado na desregulagem da circulação dos ventos e distribuição da umidade, o que pode provocar alterações climáticas em várias partes do mundo, incluindo o Brasil.

Por aqui, os impactos mais diretos costumam ser o aumento no volume de chuvas na região Sul e maior seca nas regiões Norte e Nordeste. Apesar de objeto de preocupação em determinadas ocasiões, o El Niño é um evento comum, e costuma ocorrer em intervalos de dois a sete anos. 

Mudanças Climáticas

“O El Niño não é algo novo, faz parte da história do nosso planeta, não tem nenhuma relação com o tema das mudanças climáticas. O que são investigadas são as possibilidades de modificações no fenômeno a partir disso, alguns estudos dizem que as consequências podem ser um El Niño mais frequente e mais duradouro, mas ainda não há consenso em torno disso”, explica o climatologista José Marengo

Um dos nomes mais respeitados no tema, Marengo é coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o CEMADEN, ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia e Inovação (MCTI).  

O consultor da Organização Mundial de Meteorologia exemplifica que, no passado, a Terra estava mais fria, mas em 2024, última passagem registrada, o planeta já estava mais quente. Portanto, além do aumento natural da temperatura da água que é provocado pelo fenômeno, a temperatura do planeta, por si só, já está maior do que em outros momentos, ou seja, um elemento a mais na equação. 

“Na ciência, nós evitamos usar o termo ‘super El Niño’ porque ele causa um alarmismo que não contribui com nada. Quando o alarmismo é muito grande, as pessoas não acreditam. Se, por exemplo, não acontece da forma como apareceu nas previsões, ficamos descredibilizados, dizem que somos cientistas malucos. O nosso papel é ajudar na prevenção dos desastres, esse tem que ser o foco”, afirma Marengo. 

El Niño em 2023. Crédito: NOAA

Eventos passados 

A preocupação dos cientistas com o tom utilizado na imprensa tem relação com a comparação que é feita em relação às consequências do “super El Niño” do final do século 19. No final de 1877 e início de 1878, houve uma série de efeitos adversos em todo o mundo, com grandes proporções, causados pelo aumento da temperatura no Pacífico Equatorial em 3,5°C. 

Os registros apontam que o evento pode ter causado a morte de cerca de 30 milhões de pessoas naquele período, 3% da população mundial. As mortes estão ligadas, principalmente, à baixa resiliência da agricultura, já que lavouras em todos os continentes foram afetadas. Segundo os mesmo registros históricos, somente no Brasil, mais de 500 mil pessoas morreram de fome. 

Desde a década de 50, foram contabilizadas cinco ocorrências de El Niño classificados como “muito fortes”: 1972/73; 1982/83 (com uma das piores secas registradas no Nordeste brasileiro); 1997/98 (o mais forte registrado no século 20, destruiu cerca de 15% dos sistemas de recifes de corais); 2015/2016 e em 2023/24 (queimadas na Amazônia destruíram mais de 2 bilhões de árvores). 

Classificação do fenômeno

O que determina a classificação do fenômeno é o quanto a temperatura das águas vai subir. A NOAA, por exemplo, reconhece o aumento de 2 °C como um patamar para um El Niño “muito forte” e 1,5 °C como marco para a categoria “forte”

As projeções recentes do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF) para o fenômeno de 2026/2027 chegaram a indicar valores próximos de 3°C, acima do limiar usado para classificar eventos caracterizados como “muito fortes”. 

Consequências no Brasil

“Um desastre é a combinação de vários fatores, a ameaça climática, como o El Niño, é um deles, mas há também a vulnerabilidade da população como um fator”, destaca José Marengo.

“É um assunto relacionado ao tema da governança, da gestão e contingência”, completa.  

O climatologista relembra as consequências das últimas fortes chuvas que atingiram o sul do país, na região do Vale do Taquari. “As graves consequências no Lago Guaíba não foram resultado somente do clima. Porto Alegre não foi inundada exclusivamente por causa das chuvas, mas também pela falta de manutenção do sistema de comportas”, pontua. 

Já na porção norte do Brasil, a preocupação é com a seca. Durante a última passagem do fenômeno, em 2023, a Amazônia registrou uma de suas piores secas, com consequências graves no bioma e nos modos de vida da população. O nível do rio Amazonas no porto de Manaus considerado marco de seca é de 15 metros; e o nível era de 12 metros há dois anos, a medida mais baixa já registrada desde o início da série histórica, em 1902.

Seca na Amazonas. Crédito: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil

 Em uma nota técnica divulgada na semana passada, o CEMADEN trouxe recomendações ao governo brasileiro sobre o assunto. “Algumas notícias recentemente divulgadas apontam secas severas na Amazônia e no Nordeste brasileiro, assim como chuvas com potencial catastrófico na região Sul; porém, tais “previsões” não são sustentadas por dados científicos confiáveis e, em muitas ocasiões, decorrem de meras especulações, o que pode gerar ruído na comunicação com tomadores de decisões”, diz o centro de monitoramento. 

“Além disso, ainda não se sabe ao certo se os ventos e outros fatores climáticos irão intensificar ou atenuar o calor oceânico, diminuindo, assim, a probabilidade de um El Niño forte”, completa a nota do CEMADEN.