Da noite do dia 24 de setembro até esta quarta-feira (30), a menção ao nome de Nossa Senhora apareceu, segundos levantamento do Instituto Democracia em Xeque, mais de 2,3 milhões de vezes nas redes sociais brasileiras, fazendo com que o assunto se tornasse o quarto assunto mais comentado do ano em um curto período de tempo.
O aumento das publicações, segundo dados em torno da padroeira do Brasil, ocorre em meio ao ressurgimento de um fato concreto, mas que ocorreu em 2007 e que não chegou a sair do papel. Trata-se do Projeto de Lei 2.623 de 2007, apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli (MT), à época filiado ao MDB, que propunha substituir a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
Um ano após apresentar o projeto, a Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados arquivou definitivamente a proposta. Acontece que, de lá para cá, Galli tornou-se um dos aliados mais próximos do bolsonarismo, com direito à cargo dentro do gabinete da Presidência no mandato de Jair Bolsonaro.
A relação de Galli com Jair e, portanto, com as pautas da extrema direita, foi o ponto de partida para que a notícia recuperada nas redes sociais logo passasse a tomar conta também do noticiário.
Ainda que não haja até agora nenhuma relação direta do candidato Flávio Bolsonaro com a ameaça do aliado em rebaixar a padroeira, alguns pontos começaram a chamar a atenção na cobertura da imprensa.
Primeiro, na própria indecisão em tratar o caso como fato ou fake – já que o uso do caso saiu do debate oficial entre os candidatos – e o que realmente há por trás do projeto da extrema direita no campo da intolerância religiosa.
Em 23 de agosto, por exemplo, Flávio Bolsonaro publicou vídeo em que promete aos seus eleitores que, caso seja eleito, iria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A frase foi interpretada como um aceno aos evangélicos, que não cultuam imagens de santos. Nesta terça (29), o senador e candidato emitiu nota reiterando que respeitará todas as religiões e que a declaração foi simbólica.
Pastor da família
Ainda que Flávio não tenha ligação direta com o caso, aparentemente muitas pessoas próximas a ele não tiveram pudor em fazer críticas públicas à Nossa Senhora. Aliado do candidato do PL e pastor da igreja em que frequenta, JB Carvalho, já defendeu abertamente a retirada do reconhecimento nacional da padroeira e registrou a posição em livro.
Publicado originalmente em 2001, “Bomba – A Verdade Pode Ser Explosiva” questiona a devoção a Nossa Senhora Aparecida e a condição da santa como padroeira do Brasil. Em um dos trechos, Carvalho afirma que a lei que reconhece Aparecida como padroeira seria ilegal e questiona o feriado de 12 de outubro em homenagem à santa.
O vínculo de Flávio com a igreja, onde foi batizado, fez com que as declarações de Carvalho também voltassem a circular nas redes e a pautarem a cobertura de parte da imprensa.
Reação da CNBB
Outras figuras ligadas ao bolsonarismo já apareciam em relatório da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) desde 2018 em episódios de ataques, ofensas, campanhas de desqualificação e hostilidade contra a Igreja Católica.
Segundo o levantamento da entidade, há episódios de intimidação contra integrantes da Igreja que atuavam em questões sociais e políticas e também casos mais graves como o uso do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), durante a gestão Bolsonaro, para monitorar bispos católicos usando a estrutura da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).
Embate no STF
A disputa de narrativas também chegou ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal Superior Eleitoral em mais uma “guerra de liminares” entre ministros. O conflito de decisões ganhou força quando o ministro do TSE André Mendonça determinou a exclusão das postagens com o nome de Flávio Bolsonaro por considerá-las desinformação eleitoral.
Em resposta, o ministro do STF Flávio Dino suspendeu o veto em nome da liberdade de expressão. Pouco depois, o ministro Luiz Fux restabeleceu a proibição das mensagens, até que o ministro Nunes Marques decidiu que cabe ao plenário do TSE, e não a decisões individuais no STF, dar a palavra final sobre o caso. Novas decisões podem sair nas próximas horas.