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Por Eleilson Leite, na coluna Literatura dos Arrabaldes
Durante a 1ª Festa Literária de Heliópolis, realizada no domingo 26 de abril, houve uma série de lançamentos, entre os quais o livro Café com Leite, do poeta Emerson Alcalde. Publicado pela Editora e Gráfica Heliópolis, a obra faz um balanço da produção poética do autor tendo por base seus três livros dedicados ao gênero. O percurso começa em 2011 com a primeira edição do (A) Massa, seguido por O vendedor de travesseiros, de 2015. A trilogia termina em 2020 com Gênesis. De cada um desses livros, Emerson escolheu 10 poemas. Sim, 10, nem mais, nem menos. O poeta talvez tenha um apego a esse número. Pode ser pela nota máxima dada no Slam, ou pela imortalizada camisa 10 do Santos, time do qual é torcedor apaixonado.
Foi muito pertinente essa decisão de reunir 30 de seus 70 poemas presentes nos referidos livros. Seriam os melhores? Seriam os mais famosos? Parece-me que são as duas coisas. Juntas, essas três dezenas de poemas formam uma obra para ficar nas mais altas prateleiras da poesia brasileira do século XXI. O volume ajuda também a perceber a grandeza poética do autor, cujo prestígio está mais associado à performance, posto que é um slammer. Aliás, um dos maiores poetas de Slam do mundo, já que foi vice-campeão mundial em Paris no ano de 2014.

Nem sempre um poema falado em disputa de Slam tem o mesmo vigor quando lido no papel. No caso do Emerson, esse risco é muito baixo. Atrevo-me a afirmar que alguns deles ficam até melhores na página branca de um livro. Talvez esse tenha sido o critério do autor ao escolher os poemas de Café com Leite. Se foi, ele se mostrou um editor muito perspicaz. A leitura da obra é fluente e denota uma evolução do poeta na elaboração estética de sua literatura.
Depois de Gênesis, já se passaram cinco anos, período no qual Emerson publicou a autobiografia Nos corre da poesia, de 2022 e o livro O que é Slam de poesia, em 2024. Esses dois títulos servem de rejunte para sua obra, que o posiciona como um dos poetas mais importantes de sua geração. Dessa forma, Café com Leite é ao mesmo tempo um “the best” para os que o conhecem e um livro muito bom para quem pretende se iniciar na obra do autor.
A Massa
Na primeira parte do livro, predominam poemas combativos. A Massa é um poema manifesto proletário: “ eu protejo o recheio que vai no meio/ Fico na borda. Sou jogada para escanteio”. O olhar a partir da periferia segue em Afrô: “tem que ser forte como planta favela”. Esse poema traz também um componente racial que está presente em toda a obra de Emerson. A labuta sofrida da catadora de latinha é abordada num poema cheio de trocadilhos (O que ela tinha), uma especialidade do poeta, assim como a ironia expressa em Senhor da Limpeza. O pixo e o RAP estão presentes na obra seminal do poeta, pois, ali ele ainda vivia com intensidade os rolês de quebrada onde tais expressões são cruciais.
O Poeta e o ladrão é um poema dos mais curtos, porém, mais incisivos, no qual traça as trajetórias distintas de dois jovens periféricos. No final dessa primeira parte, há a versão dois de A Massa que tem uma pegada ainda mais classista. Esse poema não foi publicado originalmente no primeiro livro do poeta. Nele, Emerson atualiza seu protesto no contexto das manifestações de 2013 e contra a Copa do Mundo no ano seguinte.
O vendedor de travesseiros
A segunda parte do livro, baseada na obra O vendedor de travesseiros, é mais lírica sem perder o engajamento. Naquele livro, o poeta, já mais seguro, expande suas experimentações flertando com diferentes estilos. É o livro da ascensão, afinal ele havia acabado de ser vice-campeão mundial. Vemos aqui um poeta mais solto: ” (…) o sonho é irmão da loucura/ as nossas melhores experiências são as que menos planejamos” (Resiliência).
Em Rio menino, o autor aborda o tema que é uma causa para a sua vida: os rios que sumiram em SP. Filosófico ele reflete: “existir é morrer e não existir é desaparecer”. O poema Corvos grafitados traz elementos de literatura fantástica: “ um corvo sai do desenho e vem para perto de mim”. O lirismo do poeta o leva para uma elaboração intimista no poema sensual O banho: “cingida na toalha/ da ventana vem o facho da luz da lua”, no qual também faz uso da língua espanhola, algo recorrente em sua obra.
O poema que dá título ao capítulo tem um componente onírico que também é um traço característico do poeta. Poema de elevada elaboração, todo construído com palavras iniciadas com “tr” compondo uma delirante aliteração: “trancou/ a tranca/tratei de en/ trar da vi/trola a/ trilha sonora de S/trauss lembrei de Zarathus/tra”. As experimentações seguem com Diss, quase concreto e Pontos: “ poesia termina mas não finaliza com um ponto”. Aprax vai na mesma linha com um viés existencial: “estou rio/ por isto sou outro”. A periferia antiga e a memória do pai, outra constante do poeta, está presente em Terreno na antiga lagoa. O capítulo termina com Fim do IIluminismo um poema narrativo anticolonial em primeira pessoa.

Gênesis
Gênesis revela o lado educador de Emerson Alcalde, certamente pela influência do Slam Interescolar, uma iniciativa liderada por ele que foi premiada com o Jabuti e que hoje mobiliza centenas de escolas no Estado de São Paulo. Os três primeiros poemas corroboram essa percepção. Começa com Prô, dedicado à professora que lhe abriu o universo da literatura. Segue com Abecedário da autonomia, que é um poema freiriano: “para um projeto político-pedagógico progressista/primeiro pego as palavras próximas”. Depois de Messias completa a trinca, um poema que faz a crítica ao bolsonarismo partindo da educação, mais especificamente do ambiente escolar.
O capítulo tem um dos poemas mais famosos de Emerson: Estado Slam que faz o trocadilho entre Slam e Islam. O apocalipse climático tem lugar no poema Amigo da Onça. Na parte final, o autor faz uma ode contra o machismo em Homens; escreve uma bela declaração de amor inspirada em Tim Maia para a sua companheira, a atriz Cristina Assunção, em Inclusive, Cristina; faz uma crítica social tendo a Vila do Chaves como metáfora em Programa do Chaves e termina com mais um manifesto ao estilo veias abertas para defender a América Latina em Apenas mais um Latino, citando Belchior e Mano Brown.
Biscoito fino
Emerson Alcalde encontrou no Slam a forma poética que valorizou sua formação cênica. Essa intersecção o coloca ao lado de grandes talentos da poesia falada que também são do teatro, como Roberta Estrela D’Alva, que é atriz-MC e Luiza Romão. Não por acaso, as duas assinam os prefácios dos livros Vendedor de Travesseiros e Gênesis, respectivamente. Frente a tal constatação, é inquietante observar o apego do autor ao livro. Roberta, por exemplo, resiste em publicar seus poemas feitos para serem falados.
Emerson não só publicou três livros de poesias, como reuniu uma seleção deles nesta antologia Café com Leite, da qual, inclusive, tenho a honra de ser autor do prefácio. Que bom que fez isso, pois amplia o alcance de sua literatura e nos permite observar sua evolução como poeta que, parafraseando Oswald de Andrade, é um biscoito fino que a massa ainda há de comer. Massa da qual ele veio e com ela se amassa. À massa!
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