
“O mérito supremo consiste em quebrar a resistência do inimigo sem lutar”
– Sun Tzu, A Arte da Guerra
1. O despertar silencioso do Sul Global
O estrategista militar chinês, Sun Tzu, no seu celebre e popular livro “A Arte da Guerra” nos ensina que uma das formas mais eficazes de combater e vencer o inimigo é a guerra indireta. Para ele, essa tática economiza recursos, já que há gastos muito elevados num confronto direto, impõe vulnerabilidades pelo ato não esperado (surpresa), obriga o oponente a realocar recursos que poderiam ser aplicados em outras áreas, dentre outras vantagens.
Em certa medida, a meu ver, o Brics vem aplicando essa tática adaptada aos tempos atuais, quando se trata de enfrentar um arcabouço político, jurídico e financeiro herdados pós-1945, conhecido pelos Acordos de Bretton Woods – ONU, FMI, Banco Mundial etc.
Desde a sua primeira cúpula em 2009, na cidade russa de Yekaterinburg, Brasil, Rússia, Índia e China – BRIC original – chamavam a atenção para a necessidade de uma “forte, estável, previsível e mais diversificada” arquitetura monetária internacional e uma contundente crítica à centralidade exclusiva do dólar americano, identificado posteriormente como um dos gargalos para a transição de uma ordem multipolar.
A partir de então até os dias de hoje, está em andamento o processo de criação de uma nova — ou, talvez mais adequadamente, alternativa — arquitetura financeira mundial atual.
O que está em jogo é reduzir a dependência da moeda americana no comércio/finanças internacionais, um movimento que muitos chamam de “desdolarização”, motivado pela mitigação dos riscos de sanções, redução de custos transacionais e a promoção de um sistema financeiro global equilibrado.
A formatação dessa nova arquitetura é o foco deste artigo.
2. O desenho inicial
Em 2012, a agenda de fortalecimento do uso de moedas nacionais e de mecanismos próprios de financiamento ganhou corpo, tanto na IV Cúpula do Brics, em Nova Déli, onde foram assinados acordos para crédito e comércio em moedas locais, quanto no encontro informal dos líderes do bloco à margem do G20, em Los Cabos, que discutiu swaps – contratos derivativos em que duas partes acordam trocar fluxos de caixa futuros entre si – em moedas nacionais e o compartilhamento de reservas.
Em 29 de março de 2012, em Nova Déli, os bancos de desenvolvimento dos cinco países assinaram o Acordo Quadro de Linha de Crédito em Moedas Locais e o Acordo Multilateral de Confirmação de Cartas de Crédito, ambos voltados à redução da dependência do dólar em transações intra-Brics.
A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), conhecido como o Banco do Brics, e do Arranjo Contingente de Reservas (ACR) durante a Cúpula de Fortaleza, em 2014, representou um momento importante que definiu as bases para um sistema financeiro independente e menos influenciado pelo Ocidente.
No período entre 2015 e 2021, o foco deslocou-se para o aprimoramento técnico dos instrumentos financeiros do “bloco”. Na Cúpula de Ufá, em 2015, os líderes reconheceram o potencial de expandir o uso de moedas nacionais nas transações entre os países parceiros e encarregaram as autoridades competentes de seguirem discutindo a viabilidade do uso mais amplo no comércio mútuo.
Ainda em 2015, o NBD foi formalmente estabelecido, com sede em Xangai e capital inicial de US$ 50 bilhões, autorizado a chegar a US$ 100 bilhões.
Já em Xiamen (2017), o bloco decidiu promover o desenvolvimento de mercados de títulos em moeda local e apoiar o estabelecimento de um Fundo de Títulos em Moeda Local dos Brics, ao mesmo tempo em que saudou o avanço na conclusão de memorandos sobre linhas de crédito interbancárias em moeda local entre seus bancos de desenvolvimento.
A janela entre 2022 e 2025, marca a busca por alternativas ao SWIFT, com os impactos do início da Operação Militar Especial, na Ucrânia, e as subsequentes sanções e congelamento das reservas internacionais da Rússia, algo em torno de US$ 300 bilhões de dólares, o que gerou incertezas nos países do Sul Global.
Em 2024, na Cúpula de Kazan, destacou-se a iniciativa Brics Pay, um sistema para facilitar pagamentos transfronteiriços sem dependência do sistema financeiro dominado pelos EUA.
Finalmente, na Cúpula do Rio de Janeiro (2025), a agenda de fortalecimento da autonomia financeira ganhou centralidade. Os documentos oficiais deram ênfase ao uso de moedas locais nas transações intra‑Brics, à revisão e ao fortalecimento do CRA e ao desenvolvimento de sistemas alternativos de pagamentos e liquidação, medidas que foram amplamente interpretadas como passos concretos no processo de “desdolarização”.
3. Ligando os pontos
Na cúpula de Kazan (2024), há uma imagem que se tornou viral, mostrando o presidente russo, Vladimir Putin, ao lado de outras autoridades do Brics, segurando uma nota do que se convencionou chamar de “a moeda do Brics”. Ideia que foi logo posta de lado pelo próprio Putin repassando a “nota” para sua assessoria. Uma aparição efêmera que deu pauta especulativa para muitos “analistas geopolíticos”.
Na verdade, o que está em andamento é uma meticulosa e complexa montagem de um sistema financeiro, econômico e comercial alternativo baseado em iniciativas experimentais nacionais, que aos poucos vão sendo conectadas.
Essas iniciativas têm como um dos pilares o Brics Pay, uma plataforma digital cujo objetivo precípuo é o de reduzir a dependência do Swift e do dólar.
O Brics Pay é uma plataforma digital descentralizada de pagamentos, criada no âmbito do Conselho Empresarial do Brics para facilitar transações rápidas, seguras e de baixo custo entre pessoas, empresas e bancos dos países do Brics expandido, usando, prioritariamente, moedas nacionais.
Funciona de forma integrada entre os sistemas já existentes, principalmente:
- Pix (Brasil) – sistema instantâneo de pagamentos, criado pelo Banco Central operando 24 horas por dia, todos os dias, com liquidação em questão de segundos. Funciona por meio de uma chave (CPF/CNPJ, celular ou e-mail)) ou utilizando QR Code entre diferentes instituições;
- UPI (Unified Payments Interface) – é o sistema de pagamentos instantâneos da Índia que integra várias contas bancárias em aplicativos móveis e permite transferências P2P (pessoa a pessoa) e P2M (pessoa física a jurídica). Foi desenvolvido pela NPCI (National Payments Corporation of India), responsável por operar os principais sistemas de pagamentos de varejo indianos;
- SBP (Faster Payments System) – sistema russo operado pelo Banco da Rússia em parceria com a National Payment Card System (NSPK), oferecendo transferências interbancárias instantâneas no esquema 24/7, muitas vezes usando apenas o número do telefone. Também faz pagamentos no varejo via QR Code, com baixas tarifas e sem passagem por redes internacionais (Visa, Mastercard etc.);
- PayShap – é a marca dos produtos comercializados entre as pessoas físicas sul-africanas que fazem parte do Programa de Pagamentos Rápidos (RPP). As operações são realizadas na infraestrutura “modernizada” de pagamentos rápidos, comparada ao Pix e à UPI.
A essa estrutura somam-se outras duas, desenvolvidas oficialmente pela China e pela Rússia:
- O CIPS/IBPS chinês funciona como espinha dorsal da internacionalização do yuan e como peça-chave da estratégia de construir “trilhos” próprios para pagamentos transfronteiriços dentro da futura arquitetura financeira do Brics. Ao oferecer liquidação e compensação em Renminbi (RMB) por meio de uma infraestrutura própria, alcançando milhares de instituições financeiras em mais de 120 países, na prática, o CIPS diminui a dependência exclusiva do Swift. O CIPS pode ser interconectado aos sistemas acima como o Pix ou a UPI via o Brics Pay;
- Já o SPFS/SPB russo cumpre função semelhante no eixo eurasiático, atuando como sistema de mensagens financeiras alternativo ao Swift, operado pelo Banco da Rússia, opera 24 horas, 7 dias por semana e é compatível com padrões ISO 20022 – padrão internacional para mensagens eletrônicas. Tem origem como resposta às sanções de 2014 e foi expandido após 2022, o SPFS conecta centenas de bancos russos e estrangeiros e abre uma “rota de fuga” para transações em rublos e em moedas de parceiros, mitigando o risco de exclusão total das redes ocidentais.
Na medida em que o CIPS e o SPFS passam a dialogar com outras infraestruturas nacionais do Brics por meio de padrões técnicos comuns e projetos de interoperabilidade, deixam de ser soluções puramente nacionais convertendo-se em outros pilares de uma arquitetura financeira multipolar.
Some-se, ainda:
I. A Infraestrutura de Pagamentos Transfronteiriços (BCPI) tem como objetivo desenvolver uma arquitetura própria de transações entre os países do Brics “rápidas, baratas, transparentes e inclusivas”, reduzindo a dependência do Swift e do dólar. A proposta, conhecida como Brics Cross-Border Payment Initiative (BCBPI), busca acelerar as transações e baixar custos que em regiões como a África subsaariana chegam em torno de 8,5% no envio de remessas.
II. A Infraestrutura de Investimentos Transfronteiriços (Brics Clear) objetiva criar um arcabouço de liquidação e depósito de valores mobiliários que reduza a dependência de sistemas altamente centralizados e concentrados no Norte global, que hoje desviam liquidez dos países emergentes e em desenvolvimento.
A proposta é ter um sistema eletrônico de interação “interdepositária”, operando em paralelo às grandes instituições depositárias internacionais existentes. O Brics Clear pretende mitigar o risco de não liquidação de transações transfronteiriças, assegurar a continuidade operacional, facilitar o acesso a novos instrumentos financeiros e reduzir riscos operacionais e políticos.
Moeda Digital de Banco Central – (CBDC)
Por fim, a Índia pretende usar a presidência do “bloco” em 2026 para colocar no centro da agenda a interconexão das moedas digitais de banco central (CBDCs).
O Banco Central da Índia (RBI) recomendou formalmente ao governo que inclua na pauta da cúpula a proposta de criar um “Brics CBDC bridge”, uma espécie de arranjo que ligue a ‘e-rupia” indiana, as correspondentes digitais do yuan chinês, o rublo russo, o real brasileiro e o rand sul-africano, com foco em pagamentos de comércio exterior e turismo.
A iniciativa teria como prioridade tornar as liquidações mais rápidas, baratas e eficientes, reduzir a dependência do sistema de bancos correspondentes em dólar e reforçar o uso internacional das moedas digitais.
4. Desafios, Riscos e Obstáculos Geopolíticos
Quando estamos tratando do Brics, em qualquer dimensão, há sempre que pôr à mesa alguns desafios – diversidade política, cultural, importância econômica, por exemplo. Para montar uma arquitetura financeira alternativa não seria diferente.
A heterogeneidade de interesses, principalmente entre China e Índia, dificulta a definição de regras comuns para BCBPI (pagamentos transfronteiriços), Brics Clear e um eventual “bridge” de CBDCs (moedas digitais), em especial quanto à governança, ao grau de centralização e ao papel relativo de cada moeda nacional.
Ao mesmo tempo, a busca por maior autonomia traz riscos que vão da i. fragmentação de padrões e ii. à vulnerabilidade a sanções e ciberataques. Se o CIPS, SPFS e as novas plataformas não garantirem alto nível de segurança, aderência a normas de compliance e compatibilidade com ISO 20022, podem ser vistas com desconfiança limitando sua adoção por grandes “players” e fundos globais.
Há sempre o risco de assimetria interna centrada na infraestrutura excessivamente dependente do RMB ou de um único núcleo que pode mudar a forma de dependência do dólar por outra forma de hierarquia monetária.
Sem esquecer as reações dos EUA que ora taxam, sobretaxam, ameaçam e invadem países que integram ou são simpáticos ao Brics.
5. A construção vai aos “trancos e barrancos”.
Como vimos, há um conjunto de iniciativas que vem sendo tratadas entre os países membros do Brics cujo objetivo é oferecer a eles e ao Sul Global uma alternativa à atual ordem econômica e financeira mundial taxada como arcaica, disfuncional e que não mais representa a transição multipolar ora em curso.
O Brics Pay, ancorado nas experiências do Pix, UPI, PayShap, CIPS, SPFS e outras não citadas por membros plenos e parceiros do “bloco”, evidencia que há um forte e avançado compromisso na montagem dessa arquitetura.
A presidência indiana do Brics em 2026 será mais uma janela de oportunidade para começar em definitivo a integração do sistema, a começar pelo que já foi anunciado pelo país de pautar a vinculação das moedas digitais oficiais.
Além disso, existem outras iniciativas, como a criação de uma Bolsa de Grãos, previamente abordada por mim, que evidenciam o grau de comprometimento com a implementação dessa estrutura.
Brevemente pretendo opinar sobre o papel crucial do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) na montagem do sistema.
Enquanto isso, permanece uma questão inevitável: será que isso é o que se entende por “desdolarização”?
Obs.: todas as declarações finais das 17 cúpulas do Brics consultadas estão disponíveis no site: Brics2026.gov.in
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