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O dia em que Fidel sabatinou economistas em Havana

“Posso contribuir para as homenagens que estão sendo feitas de uma maneira pequena?” Foi com essa pergunta, meio retórica, meio modesta, que o economista Paulo Nogueira Batista Jr. apresentou o seu tributo: não um ensaio, não uma tese, mas o relato do único encontro que teve com Fidel Castro — em 1999, num congresso internacional de economia em Havana.

Nesta quinta-feira, 13 de agosto, Fidel Alejandro Castro Ruz completaria cem anos. Nascido em 1926, em Birán, no oriente cubano, o homem que comandou Cuba por quase meio século e se converteu no símbolo maior da revolução latino-americana recebe, ao redor do mundo, as homenagens que um centenário reserva aos que marcaram época.

Entre os tributos, o depoimento de Batista Jr. — economista que foi diretor executivo no FMI e vice-presidente do BNDES — chama atenção por uma qualidade rara: é, ao mesmo tempo, memória pessoal e documento histórico involuntário sobre a antevéspera da grande virada política da região, a onda rosa que cobriu a América Latina.

O telefonema inacreditável

A história começa com um convite que parecia isca. Em 1999, os organizadores do congresso telefonaram ao economista brasileiro insistindo em sua presença — e garantindo que Fidel Castro estaria lá, “todos os dias do seminário”. Batista Jr. desconfiou: “Eu não acreditei, achei que era só uma maneira de atrair a minha participação.”

Como nunca havia estado na ilha, aceitou. E, ao chegar, constatou que a promessa era verdadeira: o comandante não apenas apareceu, como permaneceu do começo ao fim das sessões, que duraram dois ou três dias. E não ficou como espectador.

A plateia que interrogava

Fidel na plateia, conta o economista, era um examinador em tempo integral. “Não só participou ouvindo, participou ativamente”, relata. Interrompia palestras, interpelava os expositores, conferia dados “com uma cabeça incrível para contas” e rebatia argumentos conceituais “muito sólidos”.

Vários palestrantes saíram de suas falas submetidos ao que Batista Jr. chama de “questionamento arrasador”.

A impressão do observador foi inequívoca: “Tive uma impressão extraordinariamente positiva do Fidel como mente, como cabeça, como inteligência.” A cena, meio século depois, ainda surpreende: o revolucionário que desafiou o mundo dedicado a auditar planilhas alheias.

Dois derrotados e uma profecia

Foi nesse congresso que a história grande atravessou a sala. Entre os participantes estavam Daniel Ortega e Luiz Inácio Lula da Silva — ambos, então, saídos de derrotas eleitorais. Ortega perdera a presidência nicaraguense em 1996; Lula acabara de ser vencido, pela terceira vez, na tentativa de chegar ao Planalto, em 1998. “Estava muito abatido”, recorda o economista.

Segundo relato que lhe chegou por um participante do encontro reservado entre os dois, Lula teria dito a Fidel que pretendia deixar a política. A resposta do comandante entraria para a história: “Não faça isso. Você tem a obrigação de continuar, em nome da América Latina.” Lula obedeceria — venceria em 2002 e, mais de duas décadas depois, segue no Planalto; Ortega voltaria ao poder na Nicarágua em 2007.

Visto de hoje, o encontro de Havana parece um rascunho do mapa político que a região conheceria nos anos seguintes.

A sabatina evitada

Quando chegou a vez de falar, Batista Jr. experimentou o medo clássico do examinando. “Fiquei muito nervoso, com medo de ser submetido ao mesmo questionamento arrasador a que haviam sido submetidos vários economistas palestrantes”, conta.

A estratégia foi defensiva: “Preparei com afinco a minha participação, evitei, dentro do possível, temas que pudessem causar polêmica, fui muito cauteloso.” Deu certo. Fidel ouviu tudo em silêncio, sem uma única intervenção. “Felizmente, respirei aliviado”, resume.

Há algo de quase cômico na imagem — o líder que desmontava certezas alheias poupando, por clemência ou cálculo, o convidado brasileiro. Mas há também nela a chave do personagem: Fidel escolhia suas batalhas.

Um século depois

O depoimento termina em chave de balanço. Batista Jr. diz ter compreendido, naqueles poucos dias, por que Fidel “é considerado o principal líder revolucionário latino-americano e um dos principais líderes revolucionários da história mundial”. “Era uma pessoa de uma capacidade intelectual, retórica, cultura extraordinária e que poucos políticos conseguem alcançar”, afirma. E arremata: “Os 100 anos do nascimento de Fidel estão merecendo amplamente as homenagens que estão sendo feitas em toda a parte.”

Cem anos depois de Birán, a figura de Castro segue dividindo o mundo como a dividiu em vida — e talvez seja justamente essa divisão, mais do que qualquer consenso, a medida exata de seu peso histórico.

O testemunho de um economista que foi a Havana esperando um congresso e voltou com a memória de um interrogador genial acrescenta a esse balanço algo que nenhum arquivo consegue preservar: o retrato ao vivo de uma inteligência em funcionamento.

Entre as muitas homenagens do centenário, a de Batista Jr. é, à sua maneira, a mais cubana: um caso contado em primeira pessoa, com princípio, meio — e um suspiro de alívio no fim.

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