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Livro: Teoria Estética na Obra Freudiana: Sublimação
Autora: Alessandra Affortunati Martins
Editora: Blucher
352 páginas
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“Não seria essa psicanálise [freudiana], interpretadora de sonhos, essa psicanálise que desperta, que se aparta expressa e polemicamente do hipnotismo […], ela própria parte do art nouveau, com a qual coincide no tempo?”. Esta divisa, formulada em 1935 por Theodor Adorno em carta a Walter Benjamin, fornece, provocativamente, um dos fios condutores de Teoria Estética na Obra Freudiana: Sublimação, novo livro da psicanalista e filósofa Alessandra Affortunati Martins. Primeiro volume de uma trilogia dedicada à investigação crítica dos operadores estéticos subjacentes à obra freudiana – identificados por Affortunati nos conceitos de “sublimação”, “infamiliar” e “estrangeiro” –, a obra parece radicalizar a intuição adorniana, formulada na esteira de seus estudos sobre a obra de Wagner, ao construir uma espécie de “constelação” benjaminiana em torno do conceito de “sublimação”.
Assim, ao situar a emergência e o desenvolvimento desse conceito entre a virada do século XIX e o início da Primeira Guerra Mundial – momento em que Freud rearticulou as suas noções sobre a cultura e em que a “sublimação” teria caducado ante da experiência traumática do choque e do aniquilamento –, a autora pôde estabelecer, com grande densidade conceitual e histórica, a filiação da noção de sublimação à cultura vienense do século XIX, marcada pelos influxos do romantismo tardio e, conforme a assertiva adorniana, pela consolidação da art nouveau, por meio do grupo Secessão, como “arte oficial” do Estado. Com agudeza crítica, Affortunati relaciona esses processos artísticos e intelectuais, em sua filiação com o pensamento freudiano, a seus correlatos sociais mais gerais, expressos, na Viena fin-de-siècle, nas “soluções de compromisso” de tipo bonapartista conduzidas pelo reinado decadente de Francisco José I, na reforma urbana vienense iniciada em 1857 e no processo de obsolescência da figura do patriarca, tal como instituída desde o início do século XIX. Trata-se de um esforço denso e brilhante de reconstituir historicamente, pode-se dizer, uma espécie de “sociedade de sublimadores”.
Sublimação repressiva?
Affortunati aborda o conceito de sublimação de uma série de ângulos – desde sua articulação à imago paterna, então em decadência, até a sua relação com os estados melancólicos e com as tentativas de restabelecimento do narcisismo primário. Dessa espécie de montagem, pode-se depreender, com precisão, o modo como a autora mapeia as fontes concretas da elaboração conceitual freudiana, remetendo-a tanto a vertentes românticas, com seus elogios da interioridade, da beleza e do esoterismo, quanto a uma série de práticas artísticas fundadas na ideia de contemplação.

Assim, Affortunati pôde estabelecer historicamente a noção de sublimação – como uma espécie de “forma mais bem-sucedida de simbolização” (p. 254), ou um “laço feliz entre as instâncias psíquicas e o mundo externo” (p. 108) – em suas características conservadoras, ligadas à adequação social. Na escrita da autora, portanto, a noção de sublimação freudiana estaria associada a parâmetros conciliadores, que postulariam a produção artística como uma zona harmônica vinculada à produção da “bela forma” – num elo umbilical com a cultura estética difundida nos altos estratos austríacos e, num plano mais geral, com a “ideologia capitalista burguesa do pré-guerra” (p. 30).
Numa visada absolutamente original, Affortunati afirma ser a sublimação o processo em que “[…] o desejo é costurado aos valores da cultura por meio de técnicas de produções e formas já reconhecidas como socialmente válidas e legítimas” (p. 212-213). Desse modo, sublimação e “bela forma” comporiam uma espécie de díptico histórico, que se poderia constatar tanto no procedimento de Goethe, em As Afinidades Eletivas, de “esconder” seu processo produtivo, quanto no amortecimento dos efeitos de choque proporcionados pelas ornamentações art nouveau nas obras de Gustav Klimt ou, ainda, na “infantilização” de Édipo, em Édipo e a Esfinge, de Hugo von Hofmannsthal. O leitor encontrará uma análise detalhada de cada um destes exemplos no livro de Affortunati.
Em todas essas obras, observa-se uma espécie de suspensão dos conflitos e das contradições em prol de uma compensação imaginária, centrada na harmonização dos opostos ou na valorização mística do caráter uno das obras, tomadas como entidades acabadas. Além disso, conforme sugere a autora, a produção artística que embasará a elaboração freudiana da sublimação participou de uma espécie de naturalização da divisão social do trabalho, expressa, neste caso, na cisão social entre artistas – tidos como gênios – e público, considerado uma massa passiva de consumidores. Noutros termos, é possível considerar a concepção freudiana da sublimação como alinhada às estratégias desenvolvidas no correr do século XIX em torno daquilo que Susan Buck-Morss nomeou como “anestética” – isto é, dispositivos como a art nouveau ou a “obra de arte total” wagneriana, centrados em promover, mediante a saturação dos sentidos, uma espécie de entorpecimento dos sujeitos. É desse solo que emergirá, criticamente, o conceito de “infamiliar”, centrado no combate a tal embotamento e cuja análise constituirá o centro do segundo volume da trilogia da autora.1
Em defesa da história
Entre os diversos méritos de Teoria Estética na Obra Freudiana – como a análise estética embasada e rigorosa de um grande número de obras, assim como a revisão bibliográfica apurada acerca do conceito de sublimação –, pode-se destacar justamente o caráter de investigação histórica do livro. Ao circunscrever a elaboração dos conceitos freudianos ao seu tempo, a autora se inscreve nas fileiras de uma nova leva bibliográfica sobre a psicanálise – expressa, ainda que noutros termos, pelos trabalhos de George Makari, Hannah Proctor ou Matt Ffytche –, que a pensa como historicamente constituída e que opera, neste sentido, movimentos teóricos destinados a subtrair-lhe o fetiche a que algumas vertentes intelectuais a condenaram. Assim, pode-se sugerir, mesmo, que Affortunati pensa numa psicanálise “dessublimada”, no sentido de que a teoria freudiana, aqui, tem o seu processo produtivo exposto – ao invés de “ornamentado” e amortecido.
Neste sentido, a autora nos força a pensar a prática psicanalítica como produto histórico, assim com seus conceitos. Tal operação, ela sugere, encontra-se, inclusive, na contramão daquela empreendida por Freud desde os primórdios da psicanálise: a de um relativo alheamento de seu contexto histórico. Um dos frutos deste alheamento, analisa Affortunati, foi o desenvolvimento, por Freud, de um método biográfico e psicologizante para a análise de obras artísticas. Em contrapartida, o que aqui se propõe é que a perspectiva histórica deve informar o modo como pensamos qualquer prática – artística ou psíquica.
Assim, um conceito freudiano como o de “mal-estar”, por exemplo, só pode ser compreendido em sua densidade quando se tem em mente o hedonismo burguês então propagandeado. Analogamente, também a noção de sublimação só adquire relevo mediante a investigação das práticas artísticas, estéticas e políticas que a formataram – e das quais, inversamente, ela funciona como um condensador conceitual. Affortunati impede, portanto, que ela seja tomada como uma noção a-histórica, facilmente manejável e acoplável a qualquer contexto ou processo produtivo. Conforme lembra a autora, num dos trechos mais fulgurantes de seu livro: “Dinâmicas e processos psíquicos não flutuam no ar. Sublimar está longe de ser uma articulação psíquica que ocorre a despeito do solo concreto por onde pisa o sujeito. Seus resultados dependem tanto dos meios de produção historicamente disponíveis quanto das relações de poder e estruturas sociopolíticas que circunda o sujeito confeccionador de obras sublimadas” (p. 37).
É da matéria histórica, portanto, que se trata. E Affortunati a tem em mãos para manejar esta espécie de lampejo do passado – a sublimação.

Notas
1 É notável, neste caso, que, se a sublimação aparece como um conceito associado à ideologia formalista das elites austríacas, já o “infamiliar” emerge como uma noção derivada dos debates de vanguarda, que, tal como se pode constatar a partir dos ready-made duchampianos ou da prática dos construtivistas russos, procederam uma crítica da arte burguesa como um “narcótico”, que funcionava como uma espécie de amortecedor dos conflitos sociais.
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