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O espectro socialista avança nos EUA

No dia 4 de Julho deste ano, no apogeu das comemorações dos 250 anos da independência dos EUA, o Presidente Trump dedicou uma boa parte do seu discurso desconexo a vedar o ressurgimento do comunismo no país. Segundo um Trump enfurecido, essa onda comunista vem “[…] por parte dos recém-chegados ao nosso país que abraçam ideias totalmente opostas ao nosso modo de vida e ao nosso grande sucesso. […] Você pode ser comunista ou pode ser patriota. Você não pode ser as duas coisas.”

Esse discurso virulento foi proferido em referência direta às vitórias eleitorais inéditas recentes  envolvendo vários integrantes da organização política socialista estadunidense Socialistas Democráticos dos EUA (Democratic Socialists of America – DSA, em inglês).  Mesmo que o DSA não seja uma organização explicitamente comunista, senão um agrupamento anticapitalista que incorpora múltiplas tendências dentro do leque ideológico da esquerda, seus integrantes conseguiram provocar a ira do presidente estadunidense, primeiro com a vitória surpreendente de Zohran Mamdani nas eleições para a prefeitura de Nova Iorque em novembro de 2025, e, nos últimos dois meses, com o triunfo avassalador dos candidatos do DSA nas eleições primárias do Partido Democrata para deputado federal e estadual  em Colorado, Nova Iorque e Pensilvânia.  

Os Socialistas Democráticos dos EUA (DSA), durante marcha em Berkeley, na Califórnia, em 2017.
(Foto: Thomas Hawk / Flickr)

Essas três vitórias recentes significam que, pela primeira vez na histíria do país, salvo haja algum fato político totalmente inédito nas eleições gerais de novembro, o Congresso dos EUA contará com uma bancada não apenas de deputados e deputadas progressistas, mas uma bancada explicitamente socialista, anti-imperialista, e antissionista.  Até agora, os nomes confirmados para integrar essa bancada incluem Melat Kiros, uma advogada do estado de Colorado e imigrante proveniente da Etiópia que foi demitida do seu emprego por seu ativismo pró-Palestina em 2023;  Chris Rabb, um deputado estadual da Pensilvânia quem ganhou destaque com a promoção de projetos de lei contra a pena de morte e outras pautas criticas do sistema carcerário no estado; a ativista sindical e líder de longa data do DSA na cidade de Nova Iorque Claire Valdez; a estudante de doutorado de origem dominicana Darializa Avila Chevalier, que ajudou a montar os campamentos pró-Palestina na universidade de Columbia em 2024; e a deputada federal de Nova Iorque, já amplamente conhecida, Alexandria Ocasio Cortez.

Ainda há boas chances de que essa bancada se expanda mais, pois as eleições primárias no estado de Michigan vão acontecer no dia 4 de Agosto e o DSA lançou mais dois candidatos promissores para essa contenda eleitoral – Rashida Tlaib, a única deputada atual de descendência Palestina com assento no Congresso dos EUA; e o jovem deputado estadual Donavan Mckinney, ligado às pautas sindicais e do movimento negro. Além desses candidatos em Michigan, o DSA também está apoiando mais dois candidatos para deputado federal nas eleições primárias do estado de Missouri e um candidato para deputado federal no estado mais politicamente hostil da Flórida. 

E como desdobramento importantíssimo dos sucessos do DSA no âmbito eleitoral, podemos apontar para o crescimento expressivo da organização nos últimos anos, que pulou de apenas 8.500 filiados em todo território nacional dez anos atrás a mais de 120 mil hoje em dia. Assim, por mais que o espectro comunista nos EUA seja uma invenção da imaginação do Trump, o espectro socialista é algo bastante real, e cresce a cada dia, mesmo no coração do poderio imperial global.

(*) Jana Silverman é PhD em Desenvolvimento Econômico pela UNICAMP, Professora Visitante de Relações Internacionais na UFABC, e co-coordenadora do Comitê Internacional do Democratic Socialists of America (DSA).

As opiniões da autora não necessariamente representam as posições do DSA. 

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