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O Gigante que nos ensinou revolução e amor 

Recebi, no início da semana, convite do amigo e camarada André Cintra, da equipe de redação do Portal Vermelho, para escrever um artigo em uma série especial do portal sobre o centenário de nascimento de Fidel Alejandro Castro Ruz, nascido em 13 de agosto de 1926, em Birán, então província cubana de Oriente. Diante da tarefa de sintetizar a grandiosidade de uma vida dedicada à luta, uma imagem específica e inesquecível me veio à mente. 

Já era noite em Havana, em 29 de março de 1990, quando um avião soviético Ilyushin Il-62 aterrissou no Aeroporto Internacional José Martí trazendo as primeiras 139 crianças vítimas do acidente nuclear ocorrido quatro anos antes na Usina Vladimir Ilich Lenin, em Chernobyl-Pripyat, na Ucrânia. 

Ao pé da escada do Il-62, Fidel Castro recebeu as crianças com flores e anunciou ao mundo que o governo revolucionário cubano, mesmo sob o cerco criminoso do império estadunidense, acolheria nada menos que 10 mil delas para tratamento altamente especializado. 

A cena descrita não pode ser vista como um ato rotineiro, pois está profundamente ligada ao amor, à solidariedade e à amizade pelos povos de todo o mundo que acompanharia o Comandante-em-Chefe ao longo de sua vida. Um legado para muitas gerações. 

Em momentos distintos da sua trajetória, podemos extrair lições que compõem a imagem real de Fidel Castro e da sua importância em demonstrar ao mundo, na prática, os valores socialistas. Foi firme ao encarar os desafios de construir a nova Cuba, esgarçada por anos de governos capachos do Império. E foi corajoso ao confrontar seus inimigos mesmo em terrenos hostis, escapando ileso desses cercos. 

Foi assim na 34ª Assembleia Geral da ONU em 1979, onde Fidel Castro mais uma vez recorre a fragilidade das “crianças do mundo que não têm um pedaço de pão” e “…dos doentes que não têm remédios” para denunciar profundas e irreconciliáveis contradições do sistema capitalista e questionou, em tom firme,  “Por que algumas pessoas andam descalças enquanto outras viajam em carros de luxo? … Por que algumas são extremamente pobres enquanto outras são absolutamente ricas?”  

A tradução mais pura do seu internacionalismo pode ser vista em Cassinga, no sul de Angola assim como no conflito no Sudão. No “Massacre de Cassinga”, em 4 de maio de 1978, perpetrado pelas forças do apartheid sul-africano contra um campo de refugiados namibianos, Cuba acolheu centenas de crianças, muitas delas órfãs, muitas delas com sérios problemas de saúde ou mutiladas na guerra que precisavam de atendimento médico. Cuba lhes deu lar, moradia, educação, estendo o gesto ao trazer também os professores dos seus países para não se afastarem das suas próprias línguas e culturas.  

No mesmo espírito se insere a Escuela Especial “Solidaridad con Panamá” que oferece ensino, reabilitação e cuidados especializados a crianças com limitações físico-motoras e, em certos casos, intelectuais. Hoje tratada pelas autoridades cubanas como centro de referência nacional, atendendo cerca de 200 estudantes. Em dezembro de 1989, na sua inauguração, o Comandante ao definir o projeto como uma “obra de infinito amor” demonstra na prática o papel do estado socialista no cuidar das pessoas. 

Aliás, esse entendimento de que o Estado socialista existe para cuidar das pessoas não ficou confinado às fronteiras da ilha caribenha. Apesar do cerco, ele atravessou o oceano e “deu em terras brasileiras”. Na Constituição de 1988 que consagrou a saúde como “direito de todos e dever do Estado”, criando o Sistema Único de Saúde (SUS), foi em Cuba que o Brasil encontrou o exemplo mais acabado dessa premissa: a saúde como direito humano inalienável, jamais como mercadoria.  

E foi sob a égide do internacionalismo de Fidel que, em 2013, milhares de médicos cubanos chegam ao Brasil para servir ao programa Mais Médicos, levando atendimento digno às periferias das grandes cidades, ao sertão profundo e às comunidades indígenas e quilombolas historicamente abandonadas pelo Estado brasileiro.  

A bússola internacionalista do Comandante não apontava apenas para o Brasil: ela girava em torno de todo o Sul Global. Quando esteve no comando da frente do Movimento dos Países Não Alinhados, Fidel transformou a Cúpula de Havana de 1979 no palco em que os povos oprimidos ergueram a voz contra a ordem imperial e exigiram uma nova ordem econômica internacional. Da libertação de Angola passando pela da Namíbia, ele nos ensinou que a solidariedade entre os povos é a única vacina contra o colonialismo e a dependência. 

Ao romper relações com Israel em 1973, reconhecendo a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Cuba torna-se uma das primeiras nações do hemisfério a convocar o mundo para a causa Palestina. Para Fidel, a luta palestina não era uma questão distante, era a mesma luta de todos os povos esmagados pelo imperialismo/colonialismo e pela ocupação. Os palestinos, defendia ele, tinham o mesmo direito à autodeterminação e à resistência que Cuba sempre reivindicou para si. Em muitas de suas “Reflexiones” continham gritos de denúncia contra o que ele chamou, sem rodeios, de genocídio e apartheid. 

Solidariedade que se materializou nas brigadas do Contingente Internacionalista Henry Reeve enfrentando o Ebola na África Ocidental e as catástrofes que assolam os mais pobres. Não por acaso, ao recordar o Comandante no recente colóquio internacional realizado em Havana, a presidenta Dilma Rousseff sintetizou o sentimento de toda a nossa América: com Cuba e com Fidel, o mundo aprendeu que “a dignidade de um povo não se negocia”. 

Encerro recorrendo a outra cena que sempre me emociona e me arranca um sorriso toda vez que recordo. 

Havana, agosto de 1991. Jogos Pan-Americanos. O ginásio lotado, a vibração de um povo que, mesmo sob o cerco criminoso do bloqueio, sabia celebrar a excelência humana, a vida. A seleção brasileira feminina de basquete, liderada pelas gigantes Hortência e “Magic Paula”, conquista o ouro em uma campanha histórica. O Comandante-em-Chefe, fã confesso de basquete, homem de quase dois metros de altura que parecia ainda mais alto ao lado daquelas atletas sobe ao pódio, cumprimenta cada jogadora com um aperto de mão firme, um sorriso largo, um olhar de genuíno encantamento.  

Quando chega a vez de Hortência, ele para, mede a altura dela com o olhar, e solta uma daquelas brincadeiras que só os grandes líderes sabem fazer, quebrando o protocolo e arrancando risos de todos ao redor.  

Com Magic Paula, a mulher que transformava arremessos em poesia, ele faz um gesto como se estivesse lançando uma bola imaginária, reconhecendo a magia que ela carregava nas mãos. 

Naquele instante, havia apenas um homem apaixonado pelo esporte, celebrando a excelência de mulheres que, assim como ele, haviam desafiado todas as expectativas para chegar ao topo.  

Era o Gigante que nos ensinou que a revolução não é apenas resistência e luta, mas também a capacidade de rir, de admirar, de se encantar com a beleza do outro. 

Cem anos depois do seu nascimento, quando o mundo se vê diante de tantas incertezas, recordar Fidel é lembrar que o socialismo não se constrói apenas com planos econômicos ou discursos inflamados. Constrói-se com crianças curadas de Chernobyl, com médicos nos rincões do Brasil, com povos livres na África e na Palestina, e sim, também com medalhas entregues com um sorriso e uma piada a atletas que nos encheram de orgulho. 

O Gigante nos ensinou revolução e amor. E nós, que seguimos na luta, temos o dever de não deixar que esse legado se apague. 

¡Hasta la victoria siempre, Comandante!  

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