A decisão do Hamas de dissolver o Comitê de Emergência do Governo na Faixa de Gaza e transferir a administração civil para o Comitê Nacional para a Administração de Gaza representa uma importante mudança na estratégia do movimento palestino.
Interpretá-la como capitulação ou derrota significa ignorar as condições concretas da atual etapa da luta de libertação nacional.
O Hamas reafirmou seu compromisso com a implementação integral do acordo de cessar-fogo e com suas obrigações até a completa transferência da administração de Gaza.

(Foto: Hosny Salah / Pixabay)
A dissolução do Comitê, acompanhada da renúncia de seu presidente e chefe interino do acompanhamento governamental, Muhammad Abdul Khaliq Al-Farra, conclui os preparativos administrativos e legais necessários para que o Comitê Nacional assuma suas funções.
A decisão deve ser compreendida como uma retirada tática da governança destinada a preservar três objetivos estratégicos: a sobrevivência política do movimento, a reconstrução da unidade nacional palestina e a continuidade da resistência.
O primeiro é preservar o Hamas enquanto força política, social e militar enraizada na sociedade palestina. Durante quase duas décadas, o movimento acumulou funções de governo e resistência, administrando uma população submetida ao bloqueio, às guerras sucessivas e à destruição sistemática das condições materiais de vida.
Depois da mais devastadora guerra da história palestina contemporânea, a ocupação não conseguiu alcançar um de seus principais objetivos declarados, que era eliminar o Hamas.
Deixar a administração cotidiana permite ao movimento reduzir sua exposição institucional, reorganizar estruturas e concentrar forças naquilo que constitui sua razão histórica de existência: a luta de libertação nacional.
O segundo objetivo é contribuir para a reconstrução da unidade palestina. A fragmentação entre Gaza e Cisjordânia e as divisões internas constituem vantagens estratégicas historicamente exploradas pela ocupação.
Ao transferir a administração para uma estrutura nacional palestina, o Hamas demonstra que o controle governamental de Gaza não está acima da necessidade de reconstruir a unidade nacional.
Gaza não pertence ao Hamas. Pertence ao povo palestino.
A nova administração, entretanto, não pode ser transformada em instrumento de tutela estrangeira nem servir para excluir da vida política forças com presença real na sociedade palestina.
O desafio permanece sendo reconstruir uma direção capaz de representar os palestinos dos territórios ocupados, dos campos de refugiados e da diáspora.
O terceiro objetivo é preservar a continuidade da resistência.
Governar e resistir são funções diferentes. Um movimento de libertação pode participar de eleições, administrar territórios, negociar cessar-fogo e aceitar governos transitórios.
Também pode abandonar estruturas administrativas quando sua permanência ameaça objetivos estratégicos superiores.
Confundir flexibilidade tática com abandono estratégico significa desconhecer a história das lutas anticoloniais.
Durante anos, Israel afirmou que a permanência do Hamas no governo justificava o bloqueio e a guerra.
Agora, quando o movimento conclui os procedimentos para transferir a administração civil, a ocupação procura obstruir a implementação do acordo, impedir a entrada do Comitê Nacional e produzir um vácuo administrativo capaz de prolongar o sofrimento da população.
A contradição é reveladora. O objetivo nunca foi simplesmente retirar o Hamas do governo, mas retirar do povo palestino a capacidade de resistir.
Ao exigir dos mediadores e Estados garantes que pressionem Israel a cumprir o acordo e permitam a entrada imediata do Comitê Nacional, o Hamas coloca também esses atores diante de suas responsabilidades.
A instalação da nova administração permitiria fortalecer a resiliência da população, restabelecer serviços públicos e enfrentar a catástrofe humanitária. Sua obstrução demonstra a tentativa da ocupação de prolongar a crise administrativa e social de Gaza.
A decisão do Hamas coloca, portanto, a narrativa da ocupação à prova. Se a guerra era necessária porque o movimento governava Gaza, sua saída deveria abrir caminho para a retirada das forças ocupantes, a abertura das fronteiras, a reconstrução e o fim das agressões.
Se novas condições continuarem sendo impostas, ficará evidente que o problema nunca foi quem governava Gaza, mas a existência de um povo que se recusa a aceitar sua submissão e desaparecimento.
O Hamas pode deixar ministérios, dissolver comitês e transferir a administração civil. Mas deixar o governo não significa deixar a luta.
Governar Gaza foi uma circunstância histórica. A libertação da Palestina continua sendo o objetivo estratégico.
(*) Sayid Marcos Tenório é historiador, analista de geopolítica e presidente do Instituto de Amizade Brasil-Irã. É autor do livro ‘Palestina, do mito da terra prometida à terra da resistência’.
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