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O homem não era calvo. Isso quase bastava.
Havia ali um certo movimento, não exatamente dos gestos, mas dos cabelos. Uma coreografia peculiar, levemente desencontrada, como se reagisse a ventos imperceptíveis ao toque.
Dirigia um Cadillac moderno, teto solar aberto, como quem já não precisa se proteger de nada.

O curioso é que ninguém pergunta como, e quem, permitiu que ele chegasse ali.
Não se pergunta pelas curvas que não fez, pelos freios que acionou antes da hora, pelas decisões que nunca precisou tomar, e pelas que tomou mal. O carro, nesse caso, cumpre uma função mais precisa. Não apenas transporta. Legitima e amedronta.
Há gestos que desaparecem quando vistos através de vidro fumê.
A inconsistência vira estratégia. A hesitação ganha o nome de prudência. E a covardia, bem, a covardia aprende a se trajar melhor. Um terno alinhado, uma frase de efeito, um inimigo bem escolhido.
E, de repente, o que antes seria reconhecido como fraqueza passa a circular como força.
Não porque tenha mudado de natureza.
Mas porque encontrou o ambiente adequado.

E porque há risco em assumi-la como tal.
Reconhecer o gesto pelo que ele é não é apenas um ato de lucidez. É uma forma de exposição. Quem nomeia rompe o acordo velado que sustenta a cena. E a cena reage.
Não com argumentos.
Mas com isolamento.
Uma sociedade que premia o espetáculo não pode se surpreender quando o espetáculo assume o volante.
O Cadillac não é o prêmio. É o dispositivo.
É ele que permite que certos movimentos passem despercebidos. Que transforma ruído em autoridade. Que protege o gesto vazio com acabamento de luxo.
E talvez seja por isso que é tão difícil reconhecer um chicken out quando ele dirige um Cadillac.
Não é que ele não exista.
É que reconhecê-lo cobra um preço.
Talvez seja isso.
O problema nunca foi o homem.
Nem o Cadillac.
Mas a estrutura que coloca certos vis ao volante do Cadillac.
E, no fim, há sempre um cálculo simples.
Mesmo para um chicken out, ninguém quer colidir com um Cadillac.
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