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Por Lily Lynch, no Sidecar | Tradução: Rôney Rodrigues
O discurso de Volodymyr Zelenskyy no Fórum da Indústria de Defesa da Otan, em Ancara, no começo de julho, foi um hino à guerra de drones. Os drones, proclamou o presidente ucraniano, anunciaram “mudanças revolucionárias na própria natureza da guerra” – tão significativas quanto a metralhadora na Primeira Guerra Mundial, ou o tanque moderno na Segunda. A tecnologia “disruptiva” dos drones permitiu que a Ucrânia aumentasse drasticamente o número de baixas russas, interceptasse os UAVs Shahed da Rússia e atingisse alvos tão distantes quanto a Sibéria. Ataques recentes conseguiram escurecer os céus de Moscou e atingir refinarias de petróleo a 2.700 km de distância, em Omsk. O país se transformou em uma “superpotência de drones”, nas palavras do Atlantic Council. Antes de 2022, existiam apenas sete fabricantes nacionais de drones – hoje, são mais de 500. E agora, com a flexibilização das restrições à exportação de drones, a Ucrânia em breve os venderá para o mundo.
O principal responsável por colocar os drones no centro do esforço de guerra ucraniano tem sido o telegenico Mykhailo Fedorov, de 35 anos, agora ex-ministro da Defesa. Este prodígio da tecnologia, tão badalado, conquistou seguidores tanto entre os liberais patrióticos do país quanto entre os atlanticistas do Ocidente. Ele ajudou a promover a Ucrânia como uma espécie de “nação-startup” – uma potência industrial de defesa de alta tecnologia forjada na guerra. Com pouco mais de 30 anos, foi nomeado Ministro da Transformação Digital, onde foi responsável pela iniciativa “Estado no smartphone” – que transferiu os serviços governamentais para um aplicativo financiado pela USAID chamado Diiya. Embora amado pelo círculo de ONGs liberais, Fedorov, apoiado pela Palantir, também aprendeu a falar a linguagem do MAGA; em janeiro, anunciou o objetivo de seu ministério de matar 50 mil russos por mês, explicando que isso “tornaria o custo da guerra para a Rússia insustentável, impondo assim a paz através da força”.

Nas semanas que antecederam a cúpula da Otan, relatos da mídia ocidental alegavam que a Ucrânia havia virado o jogo a seu favor. A Rússia estava em apuros. A narrativa lembrava a “contraofensiva da primavera” de 2023, tão badalada pela mídia ocidental – um suposto impulso transformador ucraniano no campo de batalha que nunca se concretizou de fato e custou dezenas de milhares de vidas. Em Ancara, a mais recente reviravolta na sorte foi atribuída às capacidades tecnológicas dos drones ucranianos, à sua próspera indústria de defesa e à sua liderança jovem e inovadora, que aparentemente administrava o país menos como um Estado pós-soviético e mais como uma startup do Vale do Silício.
No entanto, apenas uma semana depois, essa história otimista começou a desmoronar. Zelenskyy demitiu abruptamente Fedorov, uma atitude que deixou muitos furiosos e traídos. Os lealistas de Fedorov responderam criticando Zelenskyy nas redes sociais e se reunindo em Kiev, Lviv e Odessa, segurando cartazes com mensagens como “Tire as mãos de Fedorov” e “Pare de sabotar a vitória”. Os apoiadores ucranianos no Ocidente também não esconderam sua oposição à decisão. “Demitir Fedorov, um dos ministros mais inteligentes, competentes e inovadores de toda a Europa, é uma das coisas mais estúpidas que Zelenskyy já fez”, escreveu o ex-presidente da Estônia, Toomas Hendrik Ilves, no X. Formou-se um consenso entre a comentocracia atlanticista: Zelenskyy havia se aliado a seus generais “soviéticos” esclerosados – em particular, o comandante-chefe nascido na Rússia, Oleksandr Syrskyi – contra um jovem reformador enérgico. Após vários dias de reação virulenta, Zelenskyy respondeu demitindo Syrskyi também.
A decisão de exonerar Fedorov forçou uma crise política latente na Ucrânia a vir a público. Em Ancara, os funcionários da Otan estavam empenhados em retratar a Rússia – e somente a Rússia – como o país em sérias dificuldades políticas e econômicas. Em uma das reuniões, ouvi um alto funcionário da Otan falar sobre possíveis tensões dentro da elite política russa. Hoje em dia, disse ele, eles olham pelas janelas e veem refinarias de petróleo em chamas devido aos ataques de drones ucranianos. Isso, afirmou, deve estar tendo um efeito psicológico, e o ressentimento em relação a Putin provavelmente está aumentando. Uma fratura poderia ocorrer a qualquer momento. Enquanto isso, a economia russa estava “no pior estado das últimas décadas”. Ele recitou uma litania de estatísticas sombrias: o déficit federal era agora 2,3 vezes maior do que no mesmo período do ano passado, a economia agora destinava 70% das despesas a gastos relacionados à segurança, em detrimento da economia regular, o que seria “muito difícil de reverter”. E, apesar da alta nos preços do petróleo devido à guerra contra o Irã, a Rússia ainda teria que cortar os gastos não militares em 10% este ano.
A Rússia também estava, supostamente, com desempenho ruim no campo de batalha, e qualquer progresso que fazia tinha um custo enorme. De acordo com as estimativas do funcionário da Otan, houve entre 1,3 e 1,5 milhão de baixas russas na guerra, e entre 30 mil e 35 mil russos estavam sendo mortos a cada mês. Os militares agora estavam “recorrendo cada vez mais a condenados, cidadãos endividados e estrangeiros” para preencher suas fileiras. Os ganhos territoriais da Rússia também haviam sido “bem menos constantes” nos últimos meses: suas forças agora estavam avançando a apenas 3,79 km² por dia, uma queda em relação aos 16 km² relatados no ano passado. Outra estatística mórbida divulgada na cúpula foi a suposta expectativa de vida média de um soldado russo: graças aos drones ucranianos, foi-me dito, o recruta russo médio vivia apenas entre 20 e 30 minutos na linha de frente.
Ouvindo tudo isso, pensei no que tinha ouvido sobre a vida na Rússia. Certamente estava ciente da crescente dor em tempos de guerra. Sabia que agora havia escassez de gasolina em algumas partes do país, embora isso seja parcialmente sazonal, e que isso significava longas esperas do lado de fora dos postos. Enquanto a guerra antes era vivida pela maioria dos russos como um conflito distante – vista apenas nas redes sociais ou na televisão –, os ataques de drones às refinarias de petróleo russas trouxeram a guerra para casa. Mas a ideia de que isso provocaria inevitavelmente uma grande reação antigoverno não era tão óbvia. Vídeos até surgiram nas redes sociais russas mostrando pessoas bebendo e dançando enquanto esperavam em longas filas para abastecer. Como comentou um analista, “o coronavírus nos dividiu, mas a escassez de gasolina nos uniu”. Os problemas domésticos eram todos muito reais e estavam piorando, mas os russos pareciam estar suportando-os, pelo menos por enquanto. Profecias sobre o colapso iminente da economia russa eram feitas há anos, mas todas não deram em nada.
Pesquisas de opinião feitas na Rússia também sugerem uma situação mais estável do que a retratada na cúpula da Otan. Especialistas em Rússia sempre alertam os leitores para serem céticos em relação a pesquisas feitas no país, mas, mesmo assim, os resultados sugerem que pelo menos algumas das previsões mais graves podem ser exageradas. De acordo com uma pesquisa do centro independente Levada, a popularidade de Putin está, de fato, em declínio, mas, até maio, nada menos que 79% dos russos entrevistados ainda diziam aprovar seu desempenho. Apenas 15% disseram desaprovar. Na mesma pesquisa, 74% dos russos afirmaram apoiar as ações de seu país na Ucrânia. (Ainda assim, cerca de 60% dos russos relataram preferir negociações de paz para encerrar a guerra, e apenas 30% disseram querer continuar lutando). Mesmo ajustando para um certo grau de autocensura em tempos de guerra, esses números não sugerem exatamente um cataclismo iminente.
Mas a pergunta que mais me incomodou durante toda a cúpula foi: e a Ucrânia? A avaliação da posição da Rússia na guerra incluía uma série de critérios: um levantamento da situação interna, fraturas políticas na elite, a economia, a demografia de seus soldados. No entanto, a posição da Ucrânia era retratada de acordo com um único indicador esperançoso: seu sucesso na guerra de drones.

De acordo com uma pesquisa recente da Gallup (amplamente ignorada pela imprensa ocidental), os ucranianos estão ainda menos entusiasmados em lutar nesta guerra do que os russos. Menos de um em cada quatro adultos (24%) diz que a Ucrânia deve continuar lutando até vencer a guerra, enquanto 66% dizem que a Ucrânia deve buscar negociar o fim da guerra o mais rápido possível. E, embora os funcionários da Otan estivessem ansiosos para divulgar números impressionantes de baixas russas em Ancara, naturalmente falou-se muito menos sobre os mortos ucranianos – a menos que pudessem ser apresentados em termos de uma “proporção de abate” favorável em relação à Rússia. De acordo com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, sediado em Washington (que recebe financiamento do governo dos EUA, da Lockheed Martin e da OTAN, entre outros), os militares ucranianos sofreram entre 125 mil e 150 mil mortes. No entanto, alguns acreditam que o número real seja maior.
Enquanto os funcionários da OTAN procuram rachaduras na matriz do Kremlin, há muito com o que se preocupar na Ucrânia. Além da ruptura entre Fedorov e a cúpula militar, um escândalo de corrupção “espetacular” envolveu membros do círculo íntimo de Zelenskyy, parte do qual envolve corrupção na aquisição de drones. Enquanto isso, a “estagnação estável” da economia ucraniana também repousa sobre bases relativamente frágeis – o apoio contínuo dos parceiros ocidentais. Muitas vezes ausente da cobertura bélica ocidental está a brutal realidade econômica da vida cotidiana na Ucrânia: o número de ucranianos vivendo abaixo do nível de subsistência aumentou drasticamente em tempos de guerra; embora os russos tenham sofrido transtornos neste conflito, a maioria não enfrentou a mesma devastação material.
As forças armadas ucranianas podem estar em situação ainda pior do que seus adversários russos. A transição para uma estrutura de comando baseada em corpos de exército no ano passado pode ter alinhado a Ucrânia aos padrões da Otan, mas nenhuma reestruturação pode mudar os fundamentos. A idade média de um soldado ucraniano é agora de 45 anos. A mobilização continua sendo um problema persistente. Uma das razões citadas para a demissão de Fedorov foi seu fracasso em resolver isso (sempre um solucionista tecnológico, Fedorov teria pressionado por uma “digitalização” da mobilização). A prática brutal do “ônibus” – pela qual homens em idade militar são arrancados das ruas – continua a inspirar repulsa. Relatos surgem regularmente de homens convocados à força sendo espancados ou mortos. Sem surpresa, a Ucrânia sofre uma crise de deserção. Embora os números exatos tenham sido classificados no ano passado, em janeiro, Fedorov disse que 200 mil soldados ucranianos haviam desertado.
As forças armadas russas podem estar cheias de condenados e endividados, mas ainda não tiveram que recorrer ao recrutamento forçado, enquanto o lado ucraniano é parcialmente composto por homens de meia-idade que não querem lutar. A Ucrânia também depende cada vez mais de combatentes estrangeiros; enquanto a Rússia recrutou africanos infelizes para servir como carne de canhão, a Ucrânia agora emprega milhares de recrutas da Colômbia, Brasil e vários países europeus, designados como “voluntários” para contornar as leis antimercenários. E permanece o problema fundamental da enorme assimetria: a Rússia ainda tem mais soldados que a Ucrânia. A Ucrânia tentou compensar essa diferença com drones, mas isso só conseguiu diminuir o ritmo dos avanços russos.
A imagem de uma Ucrânia repleta de liberais patrióticos ansiosos para travar uma guerra de alta tecnologia até o colapso total da Rússia é uma ficção. Na realidade, a maioria dos russos e ucranianos quer negociações para acabar com a guerra agora. Apenas uma minoria quer continuar lutando até que os objetivos mais maximalistas de seu lado sejam alcançados. Sem a propaganda de uma revolução tecnológica de drones liderada por jovens na guerra, a Ucrânia parece estar em uma situação notavelmente semelhante à da Rússia: dois países correndo em direção ao esquecimento demográfico, em um conflito dirigido por uma elite política que visa o lucro e travado em parte pelos relutantes, pelos coagidos, pelos estrangeiros e pelos velhos. Na cúpula da Otan, no entanto, a aliança continuou a promover sua imagem fabricada pela RP da Ucrânia, por meio de estatísticas seletivas e obfuscação educada.
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