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Acusar o bar Partisan da Lapa, no Rio de Janeiro, de antissemitismo – portanto, de racismo – porque colocou uma placa dizendo que cidadãos estadunidenses e israelenses não são bem vindos é o tipo de crítica que, acredito, mina a luta contra o racismo. Vou explicar por quê.
Roberto Schwarz tem um texto, publicado no livro Que horas são?, que considero uma referência de abordagem intelectual tanto da literatura quanto a realidade imediata. Gosto especialmente do texto porque, ao tratar da abordagem literária, começa apresentando uma questão de direitos humanos e da reação negativa que o governo Franco Montoro, em São Paulo, enfrentou quando resolveu introduzir um tratamento mais humanitário nas prisões do Estado, logo após o fim da ditadura militar.
O título do livro, aliás, é um convite para acertarmos os ponteiros do relógio, para não reagirmos à leitura do passado sem contextualizá-lo, e também para entendermos o presente de modo adequado, ajustando as categorias e interpretando os fatos de modo a evitar leituras anacrônicas.

Já o título do artigo é muito interessante também para pensarmos a situação em tela: “Nacional por subtração”. No caso, me fio na operação matemática. Schwarz discute como alguns textos são lidos como tipicamente nacionais por meio da subtração na hora da crítica de características que não caberiam na definição. Desse modo, é preciso apagar parte da obra para que ela explique o Brasil. É a operação de subtração, que transforma qualquer literatura publicada no país em tipicamente nacional.
A mesma operação de subtração parece ocorrer na acusação ao Partisan. Para acusar o bar de antissemitismo, é preciso uma operação de subtração lógica bastante grande, com várias linhas. Pela ordem, é preciso ignorar:
1 – Que a placa inclui cidadãos dos Estados Unidos, que não são um país de maioria judaica, longe disso.
2 – Que a placa fala em israelenses, e não em judeus.
3 – Que Estados Unidos e Israel conduzem uma guerra contra iranianos neste exato momento.
4 – Que Israel conduz uma guerra contra libaneses neste exato momento.
5 – Que Israel ocupa Gaza depois de destruí-la e de levar à morte ou ao exílio centenas de milhares de palestinos.

Mas não para aí.
É preciso também ignorar que a campanha BDS – Boicote, Desinvestimento e Sanções – é a principal arma política anti-Israel conduzida pela sociedade civil do planeta, inspirada na experiência de combate ao apartheid na África do Sul. E que a placa do Partisan da Lapa se insere completamente nessa campanha.
Finalmente, o bar foi multado por ter desrespeitado a Lei de Defesa do Consumidor, que proíbe discriminação de público. Caberia neste caso discutir se a linguagem adotada não está protegida pela liberdade de expressão em alguma medida, pois se insere, neste momento, numa campanha pacificista que visa a contestar uma guerra em andamento, na qual o presidente da maior potência mundial promete levar um país com 93 milhões de habitantes “à idade da pedra” – ou seja, estamos diante de uma ameaça explícita de ataque nuclear de grandes proporções.
Não são poucos analistas, entre os quais me incluo, que entendem que a guerra só vai parar quando os cidadãos de Estados Unidos e Israel contestarem fortemente seus governos. Depois de entrarmos no terceiro ano do genocídio em Gaza, Benjamin Netanyahu continua premiê de Israel. E Trump continua governando os Estados Unidos. Como cutucar os cidadãos desses países? Essa é uma pergunta que deveríamos, os que lutam pela paz e pela soberania dos países atacados, fazer todos os dias.
Do ponto de vista do antissemitismo, entendido em sentido estrito, como preconceito contra os judeus e não contra todos os povos semitas, não me parece fazer qualquer sentido acusar o bar de antissemitismo.
O Brasil não vive uma onda antissemita, mas a opinião pública brasileira nitidamente é contra a guerra, contra Netanyahu e contra Trump. Também, em muitas franjas, principalmente à esquerda, questiona a existência de um Estado teocrático como Israel, que acaba de aprovar a pena de morte apenas para cidadãos não-israelenses. O que a esquerda antiguerra e o bar Partisan defendem não é exatamente o fim de Israel, mas o fim deste Israel que promove a ocupação ilegal dos cada vez menores territórios palestinos.
Historicamente, a principal produtora do sentimento antissemita no Brasil era a Igreja Católica, até o surgimento da Teologia da Libertação.
Fiz catecismo e frequentei a igreja no auge da influência deste grupo religioso, nos anos 1980, e posso dizer que não me lembro de ter ouvido, numa missa ou numa aula, acusações diretas contra “os judeus” de qualquer responsabilidade na morte de Cristo (motivação mais frequentemente lembrada para estimular o antissemitismo) ou qualquer insinuação que passasse perto do famigerado Protocolo dos Sábios de Sião.
Os judeus, para mim e para as pessoas com quem convivia, eram um povo distante geográfica e historicamente (morava no interior profundo de São Paulo, em regiões com baixíssima presença judaica). Entre os hebreus, fariseus e cananeus, a gente aprendia que o poder de fato e a crueldade derivavam do poder de Roma sobre a região.
Ou seja, a gente aprendia a odiar os impérios. Por essas e outras eu gostava daqueles padres.
Isso não significa que não havia e não haja antissemitas na Igreja Católica, mas entendo que eles não são maioria e não têm, desde então, autorização do Vaticano para qualquer disseminação do antissemitismo, mesmo com o enfraquecimento da Teologia da Libertação.
Depois disso, o que surgiu foram igrejas abertamente sionistas, apaixonadas por Israel, capazes de se apropriar de seus símbolos nacionais. Mesmo a Igreja Católica, hoje, na questão judaica, está próxima das igrejas evangélicas. Quando entro numa missa hoje, coisa que faço raramente, fico espantado em ouvir os padres fazendo sermões baseados muitas vezes no Antigo Testamento, em que os heróis são os judeus.
Além disso, o antissemitismo costuma ser alimentado, sabemos, pela extrema direita muito mais que do pela esquerda. Porém, vivemos num mundo muito estranho, em que o país Israel é aliado de extremistas como Jair e Flávio Bolsonaro, Trump, até de Le Pen, herdeira política de um antissemita orgulhoso.
Pode ser conveniente para Israel, para a IHRA e para a Stand for US (adoro esse nome) culpar a esquerda de antissemitismo, porque isso enfraquece a luta pacifista e contra o imperialismo.
Racista, porém, foi a fala de Bolsonaro na Hebraica do Rio, em 2017 (“Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador ele serve mais”). Não lembro de a Hebraica ter sido acusada de racismo na televisão por dar palco a esta fala infelizmente inesquecível, que complementa aquela que Bolsonaro fez no impeachment de Dilma, enaltecendo Carlos Alberto Brilhante Ustra.
Racismo é não chorar pelos palestinos mortos. Racismo é querer impedir que os iranianos se defendam do ataque que estão sofrendo.
Acusar o Partisan de antissemitismo só esconde quem são os verdadeiros fascistas, nazistas e antissemitas, que atuam todos os dias para perseguir grupos étnicos e desmontar a democracia.
Na luta contra as guerras de Trump e Netanyahu, aqueles que estão preocupados em combater o antissemitismo certamente podem contar com os proprietários e frequentadores do Partisan. Em vez de subtrair, somar.
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