A publicação da primeira edição nacional do Mapa Autismo Brasil (MAB) 2025 é um marco para quem estuda, vive e constrói políticas públicas neste país. Ao validar mais de 23 mil respostas de autistas e seus familiares, o documento rompe a invisibilidade estatística e nos entrega uma radiografia brutal: no Brasil, a neurodivergência tem classe social, tem cor e, fundamentalmente, tem gênero no trabalho de cuidado.
Para nós, que militamos pela inclusão, os dados não surpreendem, mas a materialidade dos números é devastadora. O MAB escancara a falência do modelo neoliberal na garantia de direitos constitucionais básicos, revelando um processo silencioso de privatização forçada do cuidado e do diagnóstico.
Segundo o relatório, 78,4% das confirmações diagnósticas ocorreram na esfera privada (rede particular ou planos de saúde). O Sistema Único de Saúde (SUS), estrangulado por tetos de gastos e subfinanciamento crônico, respondeu por apenas 20,4% dos diagnósticos. No campo terapêutico, o cenário se repete: quase 64% dos atendimentos são privados.
Esta assimetria brutal cobra um preço alto em um país onde, segundo a própria pesquisa, mais de um terço das famílias (35,5%) vive com até R$ 2.862,00 mensais ou não possui renda alguma. O resultado prático dessa equação macabra é a negação do direito ao desenvolvimento: 25,9% dos autistas pesquisados realizam apenas uma hora de terapia semanal, e absurdos 18,1% têm carga horária terapêutica zero. A “intensidade baixa” no tratamento não é uma escolha clínica das famílias brasileiras: é uma imposição da ausência do Estado.
É preciso dizer com clareza: o mercado não vai salvar nossos filhos! A lógica do lucro não combina com o acesso a intervenções multidisciplinares complexas, inclusive para tratar comorbidades que afetam a maioria da população autista (como o TDAH, presente em 51,5% da amostra, ou a ansiedade, em 41,1%). Quem não pode pagar, cai no abismo da espera no SUS. E a espera, no desenvolvimento infantil, é um roubo de futuro.
O MAB 2025 também joga luz sobre o racismo estrutural no acesso à saúde. Enquanto a população brasileira é majoritariamente negra, os dados da pesquisa (com amostragem por conveniência e acesso digital) mostram que 60,8% dos diagnosticados são brancos, contra apenas 5,3% de pretos e 31,9% de pardos. Onde estão os autistas negros? Seguem invisibilizados, frequentemente patologizados pela sociedade e criminalizados pelo Estado.
O que acontece quando os autistas crescem?
Dos 6.606 adultos autistas que responderam à pesquisa, 30% estão desempregados ou sem renda. A esmagadora maioria é empurrada para a informalidade ou sobrevive de bicos, enquanto o acesso ao Ensino Superior e à qualificação profissional permanece um funil excludente para quem possui neurodivergências.
Obcecado pela padronização e pela hiperprodutividade competitiva, o mercado expulsa sumariamente mentes que operam fora da norma. Não há políticas robustas de transição escolar para o trabalho, nem fomento real ao emprego apoiado. O autista adulto é , muitas vezes, deixado à própria sorte, dependendo do suporte de famílias já exaustas e financeiramente drenadas.
Na ponta final dessa engrenagem de exclusão, encontramos o rosto mais exausto do Brasil.O cuidado da pessoa autista é esmagadoramente exercido por mulheres (92,4%). Mais de 30% dessas responsáveis estão desempregadas ou sem renda, e 34,3% não contam com nenhuma rede de apoio no cotidiano. Este é o retrato do trabalho invisível e não remunerado dessas mães. A ausência de escolas em tempo integral com suporte real e a falta de terapias públicas obrigam a mulher a abandonar o mercado de trabalho para tornar-se, compulsoriamente, terapeuta, mediadora e cuidadora exclusiva.
Diante deste cenário, a defesa da inclusão não pode ser reduzida a campanhas de conscientização.
A inclusão exige materialidade. Exige orçamento público.
Os dados do MAB provam que a pauta anticapacitista é indissociável da defesa intransigente do SUS e da Escola Pública. É indissociável da luta por políticas de proteção econômica para a mãe atípica. É indissociável da luta pelo trabalho decente.
Por isso, precisamos urgentemente construir uma Bancada da Inclusão nos parlamentos. Uma força política capaz de traduzir a angústia de milhões de famílias em leis, orçamento e enfrentamento ao desmonte do Estado. A verdadeira inclusão só acontecerá quando o direito à dignidade superar a ditadura do lucro. A nossa luta é para que ninguém, absolutamente ninguém, fique para trás.
*Amábile Marchi é professora da rede pública estadual, especialista em Educação Inclusiva e Autismo, mãe atípica, Presidente da União Paranaense de Pessoas Autistas (UPPA) e Vice-Presidente do PCdoB-PR.
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