A torcedora, eufórica, levou um susto quando se deparou com nada menos do que Michel Olise pelas ruas de Boston, Massachusets, nos Estados Unidos, base da seleção francesa durante a primeira fase da Copa do Mundo. Sem saber o que dizer para o camisa 7 dos Les Bleus, contenta-se em pedir um selfie. O problema é que o pedido foi feito em francês, idioma que o jogador ainda não domina. A foto só saiu porque ambos se acertaram por meio de gestos e, no fim, deu tudo certo.
A imagem logo viralizou nas redes e, novamente, a postura do jogador dividiu opiniões. De um lado, os que defedem o direito de Olise de ser quem ele é: avesso à badalações, discreto, que pouco ou quase nada sorri, o oposto da maioria dos astros do futebol. De outro, os que não entenderam nada. Onde nasceu Michel Olise? Por que não fala francês? Quem são os seus pais? Por que não faz publicidade? Por que não sorri nem mesmo quando marca gol?
Para responder a essas perguntas é preciso embarcar para Hammersmith, distrito localizado na região de Londres, Inglaterra, onde Michael Akpovie Olise nasceu em 12 de dezembro de 2001. Seu pai, Vincent Olise, nasceu na Nigéria. Sua mãe, conhecida apenas por Senhora Olise, é de origem franco argelina, Michel e seu irmão, Richard, portanto, possuem quatro nacionalidades.
Ambos entraram no futebol por escolha do pai. Ambicioso e determinado, Vincent logo passou a administrar a carreira dos filhos e a levá-los para as categorias de base dos clubes londrinos. O mais novo ainda tenta despontar como zagueiro no Chelsea. O primogênito, com passagens pela Premiê League, foi estourar mesmo na Alemanha, pelo Bayern de Munique e em poucas temporadas já é apontado como um dos melhores do mundo.

Quase: o lance que, para muitos, seria o gol mais bonito da Copa do Mundo de 2026 (Foto: Fifa)
A ascensão meteórica de Michel veio acompanhada de muitas especulações sobre sua postura avessa a badalações e sua escolha por defender a Seleção da França na Copa do Mundo. A decisão foi tomada quando tinha 17 anos, e estava nas categorias de base. Além do laço materno, pesou o fato de ele ter como ídolo o campeão do mundo Zinedine Zidane e, segundo ele próprio, as boas lembranças das férias que passou no país quando ainda era criança.
No início, os franceses desconfiaram. Tanto a imprensa quanto os torcedores. Para muitos críticos tradicionais, o jovem atacante era visto apenas como um “estrangeiro” oportunista que havia nascido no território rival britânico. As constantes entrevistas em inglês pautavam os programas esportivos e as rodas de conversa – entre questões de imigração e representatividade.
Michel Olise não reagiu. Manteve a postura de sempre. Muita bola e pouco sorriso. Aos poucos, foi se soltando e aceitou entrar nas brincadeiras do grupo para se sentir “mais francês”. Mas nem precisava. O que tem feito dentro de campo fez o torcedor criar um idioma próprio para o astro: a linguagem da bola. Quando quase fez um gol de voleio contra a Suécia, num lance que certamente entraria para a prateleira de momentos épicos do mundial, ele já não precisava provar mais nada para ninguém, sobretudo para os franceses.
A Copa do Mundo talvez seja um divisor de águas na carreira do jogador e novas perguntas começam a surgir. Embora goste de se vestir com roupas de gripe, carregue um estilo que destoa dos demais jogadores (que zombam de suas vestimentas), não é assim tão fácil tê-lo como garoto propaganda. Tanto que ele ainda é o único atleta a não contar com patrocício de chuteiras de toda a competição. Falta de dinheiro? Segundo ele, não. “É liberdade”.
Nos minutos finais do jogo contra a Suécia, enquanto Michel Olise caminhava para o banco de reservas para ser substituído, já com a vitória assegurada, o técnico Didier Dechamps foi até a beira do gramado para esperá-lo. Enquanto Olise recebia os aplausos da torcida, o treinador se curvava em reverência. Não havia dúvidas, ali, de que Michel Olise e França falavam a mesma língua.

Capa do tradicional jornal L’Equipe: “um armador de jogo imponente”