
O alarme lançado por Peter Thiel, cofundador do PayPal e voz proeminente do Vale do Silício, ao declarar que a “proletarização” dos jovens pode conduzi-los ao comunismo — na edição recente da revista Fortune — ressoa menos como uma previsão ideológica e mais como um sintoma do medo da elite perante o colapso de um sonho que não se cumpre para as novas gerações. “Essa fala do bilionário é um certo diagnóstico da crise que vivemos. E aí ele fala com um certo medo”, comenta Rafael Leal, presidente da União da Juventude Socialista (UJS). A preocupação não é apenas econômica, mas sobretudo política, pois, ao usar o verbo “proletarizar”, Thiel reconhece involuntariamente a força latente daqueles que teme: os trabalhadores precarizados, que historicamente detêm o potencial de organização e luta.
A inquietação do bilionário esconde, na verdade, o que pode ser visto como um ato falho, sobretudo quando ele admite que em Nova Iorque “o capitalismo não está funcionando”. Ao verbalizar o receio, ele revela que a juventude, empurrada para a condição de empobrecimento, ganha um novo potencial de coletividade, um caldo de insatisfação que não pode ser contido apenas com discursos. O magnata é um dos maiores articuladores da direita americana e foi apelidado pelo New York Times de “criador de reis da direita”. Após apoiar Trump em 2016, passou a investir pesado em candidatos republicanos ao Congresso, deixando até o conselho do Facebook para se dedicar à missão. Suas estratégias já lhe renderam críticas, incluindo acusações de “enganar” parte da direita tradicional.
O esgotamento do modelo neoliberal
O medo dos bilionários, conforme o diagnóstico do economista e professor da UFRJ, Euzébio Jorge Silveira de Sousa, é um reflexo direto da crise de legitimidade do neoliberalismo, modelo que se difundiu globalmente após os anos 70. Segundo Sousa, esse sistema, ao prometer prosperidade em troca de desigualdade, teve sua falência marcada pela crise de 2008. “Ficando evidente a incapacidade que o liberalismo tem de realizar as entregas que promete”, afirma.
Para o professor Euzébio, o que gera maior desânimo e potencial de mudança na juventude é a perspectiva de futuro. Eles olham para a frente e se deparam com um horizonte em que “não conseguem enxergar um horizonte em que vão trabalhar com algo que seja realizador” ou ter acesso a uma saúde plena e a algum tipo de previdência, situação que se aplica tanto aos Estados Unidos quanto ao Brasil, ainda que com relações de trabalho distintas. O desafio, para ele, é superar essa economia racionalizadora que usa a inteligência artificial para desumanizar as relações sociais, pois “não falta gente para trabalhar” e sim um projeto político que pense a sociedade de forma sistêmica, capaz de mobilizar os jovens para resolver grandes problemas como a exclusão social e a urgência climática. A ausência de um projeto inclusivo, que ofereça a inserção profissional que faça sentido para eles, é o que impulsiona as transformações.
A juventude identifica o cinismo na fala do bilionário
Rafael Leal, presidente da União da Juventude Socialista (UJS), interpreta a fala como um movimento defensivo das elites. Para ele, a declaração é uma “frase cínica” que serve à autoproteção dos bilionários: “Quando vem a revolta, tentam distribuir algumas migalhas. Mas o cerne está na lógica do próprio sistema, que nas crises corta até essas migalhas”, afirma, completando que o medo revelado por Thiel é sintoma de uma juventude que não aceita mais ser excluída.
Leal lembra que Nova Iorque, símbolo do capital financeiro, elegeu pela primeira vez um prefeito socialista. “Em parte embalados pelo movimento anti-Trump, em parte pela situação da juventude que não encontra alternativas no modelo atual”, completa.
No Brasil, a juventude é mais protagonista da resistência ao bolsonarismo e mais engajada em saídas progressistas que em outros países do continente, mas ainda não dá para definir se a insatisfação será pela esquerda ou pela direita. “Veja a juventude argentina que apoiou Milei. A mesma indefinição ocorre nos Estados Unidos”, afirma. Mas Leal reconhece que a precarização do trabalho e o aumento da desigualdade social “vai gerar revolta da juventude”.
Para a UJS, o caminho para enfrentar o desemprego estrutural passa por atacar o cerne do neoliberalismo, que é a maximização do lucro. A solução, segundo Leal, é a aposta em um Projeto Nacional de Desenvolvimento com forte investimento em Ciência e Tecnologia, nos setores da Quarta Revolução Industrial e na economia verde, o que é capaz de gerar empregos de melhor qualidade. Nessa lógica, modelos sistêmicos como o chinês, que priorizou o desenvolvimento nacional para tirar sua população da pobreza após a revolução de 1949, se tornam uma referência crescente, embora a juventude brasileira ainda seja majoritariamente ocidentalizada.
A demanda por dignidade e futuro
Para os jovens socialistas, o que Peter Thiel tenta estigmatizar como “socialismo” ainda não é o espectro de uma revolução clássica rondando os Estados Unidos, mas a demanda urgente por direitos básicos universais e pelo futuro “que o capitalismo não entrega”, afirma Leal. O risco, por ora, é a reação orgânica de uma geração frustrada que está descobrindo um potencial coletivo contra um sistema que a exclui.
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