A República Islâmica do Irã organiza seu Ministério da Defesa e Logística das Forças Armadas como a cabeça de uma estrutura complementar pública e privada onde o planejamento e a racionalidade preponderam. A carreira das engenharias compõe a espinha vertebral do saber acumulado, materializando em ação coletiva aquilo que se sabe: “falar em soberania nacional sem indústria de defesa é simplesmente uma perigosa fantasia”.
O século 21 assistiu à corrente vitória do Irã contra EUA e Israel, realizando algo que não se imaginava possível. Uma “guerra assimétrica convencional”, fazendo preponderar fatores como território e projeção de poder regional. O que não é visível, mas presumível, é a enorme capacidade de produção bélica iraniana, baseada em fluxo constante de matéria-prima, logística de profundidade como recurso secundário (com os territórios conexos dos países vizinhos) e a integração produtiva não centralizada.
Nada disso seria possível sem uma enorme capacitação técnica motivada por carreira longeva, certeza de assistência para as famílias dos mártires e o engajamento ideológico para evitar a fuga de cérebros e as aspirações burguesas de ascensão social para além da vida modesta defendida pelo Islã.
Em outubro de 2026 o Parlamento iraniano aprova um novo ministro da Defesa
Segundo o Tehran Times, parlamentares iranianos aprovaram no domingo (18/10) a nomeação do engenheiro aeroespacial Mehrdad Akhlaghi Ketabchi, após análise de suas qualificações e planos políticos. Ele foi indicado pelo presidente Masoud Pezeshkian em 5 de outubro de 2026.
De acordo com a votação anunciada no parlamento, 237 parlamentares votaram a favor de sua nomeação, enquanto 15 se opuseram, de um total de 277 membros presentes.
Ele sucede o major-general Aziz Nasirzadeh, ministro da Defesa anterior, que foi martirizado durante ataques criminosos perpetrados pelos Estados Unidos e pelo regime sionista.
Nascido em 1958 na cidade de Rasht, no norte do Irã, Akhlaghi ocupou cargos de alto escalão nas indústrias de defesa do país, incluindo a presidência do Grupo Industrial Shahid Bakeri e a direção-geral da Organização das Indústrias Aeroespaciais.
Ele assume o Ministério da Defesa e Logística das Forças Armadas após o mandato do Brigadeiro-General Majid Ibn al-Reza, que atuou como ministro da Defesa interino após o assassinato de seu antecessor, o Major-General Aziz Nasirzadeh, nos ataques conjuntos EUA-Israel contra Teerã em 28 de fevereiro de 2026.
Sua nomeação ocorre em um momento em que o Irã continua priorizando a modernização de sua infraestrutura de defesa e a preparação para responder a potenciais ameaças militares. O novo ministro coloca a dissuasão, a adaptação tecnológica e a prontidão em múltiplas áreas no centro de sua abordagem declarada.
Em outubro de 2026 o Brasil não tem um conceito geral estratégico para sua política de Defesa
Se não repetirmos chavões de tipo “orientalistas”, mesmo quando elogiosos (“ah, os persas são milenares”), podemos tomar o exemplo da República Islâmica do Irã como potência média em vias de ser um vetor geoestratégico de envergadura global. Este país, que a partir de uma revolução nacional com ampla participação popular, toma para si as rédeas de seu próprio destino, e faz com que o planejamento e a motivação ideológicas andem lado a lado com o desenvolvimento da indústria bélica e sua capacitação autóctone.
Na América Latina, o Brasil ainda tem um parque de indústria bélica, perigosamente sendo vendido para o capital dos Emirados Árabes Unidos (“federação” absolutista aliada com Israel), e com um corpo de engenharia que costuma fazer da formação estatal um trampolim para a carreira privada. O caso do governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, é um exemplo visível do que afirmamos acima. Oficial do Exército Brasileiro, engenheiro formado no Instituto Militar de Engenharia, virou paisano e passou de tecnocrata da área de Transportes para o colo da extrema-direita e do mercado financeiro. Exceção? Infelizmente não.
No Irã, as carreiras de engenharia são muito valorizadas, algumas inclusive no exterior, como na enorme presença de engenheiros iranianos especialistas em petróleo no mercado de trabalho da Noruega e o caso exemplar da multinacional norueguesa Equinor (antiga StatOil) e seu fundo soberano que outrora inspirou o fundo do Pré-sal. Mas, além da tradicional “fuga de cérebros”, o que se celebra mesmo é a capacidade do país fabricar o que precisa, driblando as sanções financeiras e o bloqueio comercial impostos pelos Estados Unidos.
A “fórmula” iraniana não é “complicada”. O país utiliza a venda de commodities de óleo, petróleo e derivados para ampliar o seu próprio parque industrial, ampliando as capacidades tecnológicas e os direitos de propriedade industrial (DPIs). Logo, aplicando o esforço total conjunto, vai de engenharia reversa a ciclo criativo completo, produzindo simplesmente tudo o que o país necessita, passando com frequência de 80% de itens de nacionalização. Esse mesmo princípio, aplicado para defesa, explica o caminho escolhido pelo Irã.
Poderia ser o mesmo para a defesa brasileira e a soberania nacional da 8ª economia do mundo? Poderia sim, se tributássemos o agronegócio subsidiado, por exemplo. Mas o mínimo necessário para chegar neste caminho é um amplo movimento nacional e popular como foi a campanha “O Petróleo é Nosso!”, iniciada em 1948 e culminando com a criação da Petrobras em 3 de outubro de 1953. Menos de um ano depois, a conta chegava, custando a vida de Getúlio Vargas, tanto para evitar a vergonha de sair preso do Catete para a “República do Galeão”, mas também para evitar a necessária luta popular – naquele momento em todos os níveis – na defesa do salário mínimo e da Justiça do Trabalho.
Passados 73 anos, a TerraBrás não entrou em pauta nem nos discursos e estamos vendo mais uma perigosa aliança da caserna entreguista com o imperialismo reforçado pela motivação “gusana” de Marco Rubio. Nunca será por falta de aviso ou omissão nos momentos cruciais.
(*) Bruno Lima Rocha é jornalista, cientista político e professor de relações internacionais. Atualmente é parte da equipe da Hispan TV Brasil, do Observatório de Geopolítica do GGN, editor do Radiojornal dos Trabalhadores e do portal Estratégia e Análise – blimarocha@gmail.com
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