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O PT, a defesa da democracia e de uma outra ordem mundial

O cenário mundial passa por profundas transformações devido à crise estendida do capitalismo mundial, que teve início em 2008 e que se aprofundou a partir da pandemia de Covid-19, ampliando a concentração de renda e as desigualdades em todo o planeta e reduzindo cada vez mais a economia produtiva.

Essa fragilização dos Estados e governos em dar respostas efetivas às populações, frente às crises vivenciadas no último período, tem contribuído para a disseminação de um sentimento antissistema e antipolítica, que tem servido para justificar movimentos de ataque às democracias.

A crise das democracias, portanto, está associada diretamente à crise recente do capitalismo, que, ao afetar as condições de vida e a dignidade das populações, e ao não conseguir apresentar alternativas mais efetivas frente a uma maior recessão econômica, ao desemprego ou à precarização do trabalho, à redução dos Estados de bem-estar social e das políticas públicas, tem gerado profundas frustrações e revolta nos setores populares e médios dos diferentes países.

O capital internacional, seus governos e Estados aliados têm apostado em uma nova configuração que alia avanços tecnológicos, rentismo, financeirização da economia, aprofundamento da concentração de renda, da riqueza e das desigualdades, além da exploração extrema dos últimos recursos naturais para alimentar a corrida tecnológica, associados a uma guerra cultural voltada a tornar hegemônicos o conservadorismo, a intolerância e a lei do mais forte, e a derrotar os valores humanistas, de justiça, igualdade e solidariedade.

Nesse cenário, os ataques contra a democracia se caracterizam como um método de disputa política de parte de setores provenientes de diversos grupos de extrema-direita que, ao longo da última década, passaram a constituir uma rede internacional fundada em valores conservadores e no extremismo, contando com apoio popular e com lideranças que mesclam perfis autoritários e populistas.

Esses grupos retroalimentam sentimentos de ressentimento a partir de um conjunto de exclusões produzidas pelas crises econômicas, mas também por sentimentos gerados por narrativas que visam responsabilizar parte da crise pelos avanços democráticos e no campo dos direitos, especialmente em relação às mulheres, às populações negras, étnicas e migrantes e às populações LGBTQIA+.

Esse movimento conservador e reacionário, que alimenta a guerra cultural especialmente por meio de manifestações antigênero, antiwoke e antimigração, passa a ser o amálgama que unifica perfis, setores e interesses diversos, e muitas vezes contraditórios, em ações que têm a democracia como seu principal alvo.

Nesse cenário, as tecnologias de comunicação e as plataformas das big techs têm cumprido um papel estratégico ao operar a disseminação dessas narrativas e desses valores, além de permitirem a propagação de desinformação e de manipulação de fatos por meio das mídias e redes sociais em todo o mundo, constituindo-se em um dos pilares estruturantes do que podemos caracterizar como corrosão democrática.

O que temos assistido em todo o mundo é a construção de novas gerações moldadas pelos algoritmos, impactando as relações e a organização social, desde o indivíduo, passando pelas famílias, até a esfera pública em sua dimensão contemporânea, impulsionadas por interesses econômicos que se alimentam cada vez mais do preconceito, da intolerância, da violência e da desinformação, ou fake news, para sustentar suas indústrias de likes, além de interesses geopolíticos.

Pesquisas demonstram que as novas gerações são as mais suscetíveis aos discursos da extrema-direita, em especial os meninos e homens jovens.

Todos esses elementos ajudam a compor um cenário de mudanças importantes no tecido social no último período, que impactam diretamente a cultura e o modo de vida das populações mundiais, com o enfraquecimento de valores humanistas, do senso de coletividade e comunidade e com o fortalecimento do individualismo.

Os avanços de grupos, movimentos ou partidos antidemocráticos e de extrema-direita no mundo, com características fascistas, vêm sendo acompanhados do uso dos recursos tecnológicos e das ferramentas das plataformas e redes sociais. Mas é na posse de Donald Trump, no início de seu segundo governo, que essa aliança entre os setores econômicos representados pelas big techs e plataformas, esse movimento conservador extremista e interesses geopolíticos ficou expressa.

O segundo governo de Trump representa a retomada de um imperialismo agressivo, expresso pela política de sanções e taxas aos países que não se alinhem aos seus objetivos, pela nova política externa, em especial em relação à América Latina, representada pelas intervenções militares, como tivemos na Venezuela com o sequestro do presidente Maduro e da primeira-dama Cília Flores; pelas investidas contra as soberanias dos países; pelas ameaças à Colômbia e a Cuba; e por uma postura extremamente belicista com a guerra contra o Irã, que se expande para o Oriente Médio, no Líbano, e se aprofunda com a destruição e o genocídio na Palestina.

Trump representa a afronta ao direito internacional, a desconstituição da governança global, o rompimento com o multilateralismo e a ameaça real de uma guerra nuclear, de forma nunca concebida, nem nos tempos da Guerra Fria.

Trata-se de um movimento para manter os Estados Unidos como principal potência mundial por meio da força, da guerra e da subordinação de povos e nações.

Esse cenário nos exige posicionamentos firmes e nítidos, como os que têm sido protagonizados pelo presidente Lula frente ao genocídio em Gaza, aos ataques à soberania do Brasil, às taxas e sanções, e à situação da Venezuela, de Cuba e do Irã.

Faz-se urgente a defesa de um mundo multipolar e de uma governança global comprometida com a dignidade dos povos do mundo, com distribuição de renda, com justiça social, com a defesa do planeta e de seus recursos estratégicos para o futuro da humanidade, com um desenvolvimento sustentável, com uma economia justa e, fundamentalmente, com a defesa da paz.

Para isso, a democracia é estratégica. Mas, mais do que defendê-la, devemos repensá-la, refletindo sobre sua qualidade e substância, para que se constitua, além de um sistema de governo, em uma forma de convivência coletiva, baseada em valores de justiça, inclusão e solidariedade, produzindo respostas mais efetivas às necessidades mais urgentes dos povos.

Ela deve se sustentar em valores fundantes dos direitos humanos em sua concepção mais contemporânea, compreendendo a diversidade e as diferenças, garantindo pluralidade e exercendo regras justas e equânimes que possibilitem protagonismo a uma diversidade de atores e para que aqueles historicamente excluídos dos espaços de poder possam acessá-los.

A democracia é o único meio possível para a produção de diálogos e consensos progressivos capazes de produzir posicionamentos voltados à pacificação de diferentes conflitos.

Mas cabe refletir sobre dois temas: em primeiro lugar, a necessidade de blindagem das instituições democráticas contra o extremismo; em segundo, a necessidade de a democracia contribuir de maneira mais efetiva para a superação das desigualdades sociais diante do avanço do neoliberalismo.

Na última década, o Brasil viveu diversas experiências que puseram seu sistema democrático em xeque. Houve uma tentativa de corrosão da democracia por meio de suas próprias instituições, como o Parlamento e o Judiciário.

Começando com o golpe contra a presidenta Dilma, em 2016, seguindo com o governo de Michel Temer e seus ataques às leis trabalhistas, a prisão ilegal de Lula, que garantiu a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, deixou o país nas mãos de um governo cuja única promessa cumprida foi destruir o que existia, além da construção permanente de uma narrativa antidemocrática e de afronta às instituições da República durante seus quatro anos de governo, para, finalmente, utilizar-se das redes sociais e de fake news para atacar a credibilidade do sistema eleitoral e culminar na tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023.

Nos momentos mais duros da história, o PT sempre apostou na via democrática.

Mas nem as urnas nem o enfrentamento nas ruas significaram o fim do extremismo e do avanço dos discursos de ódio, intolerância e autoritarismo. Muito pelo contrário. Utilizando-se das redes sociais, políticos de extrema-direita, abertamente extremistas, fizeram seu discurso chegar às grandes massas, consolidando uma parcela importante da opinião pública.

É o mesmo discurso de ódio, intolerância e autoritarismo que vimos crescer em muitos países da Europa, como Itália, Espanha e Alemanha, nos últimos anos, representado pela AfD, na Alemanha; pelo Vox, na Espanha; e pelo Irmãos da Itália, na Itália, pois a extrema-direita atua a partir de uma organização transnacional, utilizando elementos comuns em seu arco narrativo, com financiamento, articulação política e iniciativas comuns no âmbito internacional.

O Brasil deu uma importante contribuição para a defesa da democracia quando o presidente Lula, recém-empossado, ao lado dos chefes dos três Poderes da República e de outros atores importantes, foi firme na defesa da institucionalidade democrática brasileira, enfrentando os ataques ao Estado Democrático de Direito.

Outra importante contribuição do Brasil à democracia foi julgar, condenar e levar à prisão o ex-presidente Jair Bolsonaro, generais, militares e policiais mandantes ou participantes do plano de tentativa de golpe de Estado do dia 8 de janeiro, demonstrando o compromisso democrático e a legitimidade das instituições da República no país, em especial o Supremo Tribunal Federal.

Dentre os desafios colocados para a democracia estão a regulamentação das redes sociais, o uso da inteligência artificial e a soberania de dados. Nesse sentido, o Brasil iniciou o processo de regulamentação das redes sociais no Brasil por meio da aprovação do ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), que entrou em vigor no dia 17 de março deste ano e estabelece regras mínimas de proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.

O crescimento do extremismo também trouxe consigo o crescimento da misoginia e da violência de gênero em todas as suas dimensões, e, no Brasil, esse processo tem culminado no crescimento avassalador dos feminicídios.

Dentre as iniciativas de enfrentamento a esse cenário está o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, proposto pelo presidente Lula, e a recente aprovação pelo Senado, em março de 2026, do Projeto de Lei (PL 896/2023), que equipara a misoginia ao crime de racismo, tornando o ódio ou a aversão às mulheres um crime grave.

Devemos reconhecer que a igualdade de gênero não é uma concessão, mas um direito e uma condição para sociedades mais equilibradas e prósperas, uma condição fundamental para o fortalecimento democrático.

O Partido dos Trabalhadores tem sido um dos pilares da democracia brasileira e tem atuado para contribuir com a defesa das democracias no mundo.

Contribuímos decisivamente para a reabertura democrática, para a defesa da nossa soberania, para a expansão dos direitos sociais e das políticas públicas no país, e para a consolidação da nossa democracia por meio da atuação na sociedade, junto aos movimentos sociais e populares, nos parlamentos e em governos locais, estaduais e nos governos de Lula e Dilma.

No cenário internacional, o presidente Lula representa uma voz potente e agregadora de contraponto a esses movimentos extremistas e de defesa de um outro pacto mundial de relação entre as nações e de defesa dos povos do mundo.

O Partido dos Trabalhadores tem consciência do papel que deve cumprir no cenário internacional neste momento histórico e do papel que o Brasil, sob a liderança do presidente Lula, deve permanecer cumprindo.

O PT tem se colocado no sentido de somar esforços junto ao campo democrático, progressista e de esquerda no mundo para frear o avanço da extrema-direita, contribuindo para a construção de um mundo multipolar, com justiça social, distribuição de riqueza, desenvolvimento sustentável e valores de solidariedade, na defesa das democracias, do socialismo e da paz.

Nesse sentido, as eleições presidenciais de 2026 no Brasil são estratégicas e definidoras do futuro que queremos construir para o Brasil, para o povo brasileiro, para nossa soberania, nossa democracia, para a democracia mundial e para a construção de uma ordem mundial mais justa e solidária.

Misiara Oliveira – Secretária-adjunta de Relações Internacionais do PT