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O trinômio indissociável para o futuro do SUS e do Brasil

Há mais de uma década, venho repetindo em todos os espaços de debate, conselhos e conferências de saúde uma tese que considero a grande tarefa histórica da nossa geração: para garantirmos o futuro do Brasil e a sustentabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS), precisamos constituir uma força social e política ampla em torno do pilar defesa da vida, do trabalho e da Nação. Hoje, essa síntese ganha corpo na unidade indissociável de três palavras de ordem: democracia, soberania e direitos.

Nos últimos anos, assistimos a avanços importantes. A defesa do trabalho e a afirmação da soberania nacional conquistaram espaço na agenda pública e ganharam centralidade nos programas de diversas forças progressistas. No entanto, é preciso fazer uma autocrítica dura e urgente: a defesa da vida ainda não ocupa o lugar estratégico que lhe cabe na disputa política nacional.


Mesmo após o trauma coletivo da pandemia da Covid-19, a banalização da morte continua a operar como pano de fundo da sociedade brasileira. Os dados do Ministério da Saúde estarrecem pela sua frieza diária: entre 2023 e 2025, o Brasil registrou sequencialmente 154.199, 159.534 e 155.223 óbitos por causas externas e evitáveis — um acumulado que supera meio milhão de vidas ceifadas por homicídios, acidentes de trânsito, suicídios e violência armada. 


Para dimensão de escala, o volume de vidas perdidas no Brasil nesse período por mortes evitáveis é mais de seis vezes superior ao contingente de vítimas do conflito de Gaza no mesmo intervalo. Vivenciamos, dentro de nossas fronteiras, uma guerra não declarada contra a nossa própria gente.


Apesar da magnitude dessa tragédia, a vida humana e a preservação do meio ambiente continuam sendo instrumentalizadas. Assistimos ao crescimento de forças articuladas em torno do ódio, da intolerância, do preconceito e do desprezo ostensivo pelo “trabalho vivo”. Esse ecossistema autoritário se apodera da fé, das crenças e dos valores populares para naturalizar a barbárie e precarizar a existência em todas as suas manifestações — da degradação da natureza ao extermínio da juventude periférica.


O que distingue a humanidade ao longo da história é justamente a sua capacidade de avançar pela preservação da vida. Em qualquer civilização ou cultura, o respeito à vida não é um adereço retórico: é cláusula pétrea. Em um momento global em que setores minúsculos, porém hiperconcentrados de poder e capital, operam com absoluto desprezo pela vida e pelas condições de trabalho do povo, resgatar a defesa da vida torna-se um ato radical de resistência política.

Às vésperas de um processo eleitoral decisivo que definirá os rumos do Brasil para o próximo período, a saúde não pode ser reduzida a uma lista de metas operacionais ou promessas de campanha para corte de filas. A saúde — enquanto expressão máxima da defesa da vida — precisa ser o eixo ordenador do projeto de país.

Não haverá democracia real enquanto a morte prematura for a regra para a classe trabalhadora. Não haverá soberania enquanto a violência social consumir a juventude da nação. E não haverá direitos sem o direito primário de existir com dignidade.


É hora da militância da saúde, dos movimentos sociais e das forças democráticas colocarem a defesa da vida no topo da agenda eleitoral e do projeto de reconstrução nacional. Defender a vida é defender o trabalho vivo, a natureza e o futuro do Brasil.

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