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O voo que chocou a África do Sul com esquema de deslocamento de palestinos

Na manhã de quinta-feira (13), um avião fretado pousou perto de Joanesburgo trazendo 153 palestinos que haviam deixado Gaza sem carimbos ou comprovantes de saída. Sem saber onde ficariam e incapazes de responder às perguntas da imigração, o grupo permaneceu quase 12 horas dentro da aeronave. Só após a ONG sul-africana Gift of the Givers [dádiva dos doadores] oferecer assistência emergencial é que foram autorizados a desembarcar.

O governo confirmou que 23 passageiros seguiram viagem para outros países. O presidente Cyril Ramaphosa classificou o episódio como “misterioso” e sugeriu que as pessoas pareciam estar sendo “expulsas” de Gaza. Serviços de inteligência investigam o caso.

O obscuro papel da Al-Majd Europe

A operação foi conduzida pela Al-Majd Europe, entidade que se apresenta como organização humanitária, mas que enfrenta acusações de atuar em coordenação com autoridades israelenses.
Segundo reportagem do jornal israelense Haaretz, o grupo seria liderado por Tomer Janar Lind, cidadão israelense-estoniano que teria colaborado com um setor do Ministério da Defesa conhecido como “Voluntary Emigration Bureau”, criado em 2025 para facilitar a saída de palestinos de Gaza.

O site da Al-Majd descreve supostas operações de resgate, mas detalhes inconsistentes levantam suspeitas: domínio registrado apenas em fevereiro, e-mails inexistentes, ausência de endereço verificável e links quebrados. Há ainda relatos de que pagamentos foram feitos para contas pessoais, não institucionais.

Especialistas consultados afirmam que o mecanismo se alinha a uma lógica colonial histórica. Para a pesquisadora Oroub el-Abed, trata-se de “deslocamento sistemático”, parte de esforços israelenses de esvaziar o território de sua população nativa.

Como os passageiros foram selecionados e retirados de Gaza

Testemunhos coletados pela Aljazira revelam que famílias pagaram entre US$ 1.400 e US$ 2.000 por pessoa — incluindo crianças — sem saber o destino final.

Após inscrição por meio de anúncios nas redes sociais, os aprovados foram instruídos a levar apenas documentos, celular e algum dinheiro. Os ônibus saíram de Rafah e cruzaram o posto Karem Abu Salem (Kerem Shalom), em área controlada pelo Exército israelense, que realizou inspeções antes de permitir a entrada em território israelense.

Os passageiros foram então levados ao aeroporto de Ramon (extremo sul de Israel), de onde embarcaram em um avião romeno. Nenhum documento foi carimbado. A rota incluiu escala em Nairóbi antes da chegada à África do Sul.

A ausência de registro de saída tornou os passageiros, na prática, migrantes sem documentação válida — condição que inviabiliza um eventual retorno ao território ocupado.

Um padrão que se repete: voos anteriores e conexões obscuras

O voo não foi um caso isolado. O jornal israelense Haaretz identificou operação semelhante em 27 de maio, quando 57 palestinos deixaram Gaza pela mesma rota e depois seguiram para Indonesia e Malásia.

A própria Al-Majd afirma ter levado médicos de Gaza para treinamento no exterior, mas dados e fotos relacionados às supostas missões não puderam ser verificados de forma independente.

Segundo Imtiaz Sooliman, fundador da Gift of the Givers, este seria o segundo voo a chegar à África do Sul desde outubro — o anterior, com mais de 170 passageiros, não teria sido divulgado oficialmente.

Denúncias palestinas e alerta para exploração

A embaixada palestina na África do Sul classificou a operação como “enganosa”, afirmando que a Al-Majd explorou o desespero de famílias em situação extrema e organizou uma viagem “irregular e irresponsável”.

O Ministério das Relações Exteriores da Palestina advertiu que tais redes se articulam com interesses israelenses de remover palestinos de Gaza, reforçando um processo de limpeza étnica.

Para muitos dos que chegaram, a viagem foi descrita como um “trajeto de sofrimento”. Alguns planejavam seguir diretamente para outros países; outros pretendem permanecer temporariamente na África do Sul para tratamento médico ou recomeço.

Política de deslocamento e a longa história da expulsão

Especialistas afirmam que o episódio se insere em um padrão histórico de políticas de remoção da população palestina. Desde o fim do século XIX, documentos, líderes e práticas vinculadas ao movimento sionista mencionam a necessidade de reduzir a presença árabe na Palestina.

Da Nakba de 1948 às estratégias de “migração voluntária” após 1967, passando por demolições, restrições econômicas e deslocamentos internos forçados, iniciativas de pressão para saída sempre foram parte da dinâmica de ocupação.

Nos últimos anos, especialmente após 7 de outubro de 2023, autoridades israelenses propuseram abertamente cenários de esvaziamento de Gaza — entre eles o chamado “Plano dos Generais”, defendendo que moradores do norte da Faixa jamais retornassem às suas casas.

A novidade do esquema atual é que palestinos pagam pela própria remoção, em um processo que explora vulnerabilidade extrema e impede retorno ao território, ao suprimir qualquer registro legal de saída.

Entre acolhimento, incerteza e riscos futuros

Do grupo que pousou na África do Sul, 130 foram autorizados a entrar no país, enquanto outros seguiram viagem rapidamente. Parte busca reconstruir a vida em países como Austrália, Indonésia e Malásia; outros ainda não sabem onde ficarão depois que a assistência emergencial terminar.

Para especialistas, a operação revela um mecanismo mais amplo: transformar deslocamentos forçados em rotas “privatizadas”, lucrativas e politicamente convenientes. Ao mesmo tempo, expõe o desespero de civis submetidos a dois anos de guerra, cerco e destruição em Gaza.

Ainda assim, analistas lembram que, apesar das pressões históricas e atuais, a maior parte da população palestina permanece comprometida em permanecer em sua terra — e que episódios como este, longe de encerrar a questão, reacendem o debate sobre expulsão, direito de retorno e responsabilidade internacional diante da crise humanitária.

Com informações da Aljazira

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