No dia 25 de outubro, mais de 916 mil brasileiros residentes no exterior terão que cumprir o mesmo dever que os seus conterrâneos que vivem dentro das fronteiras nacionais do Brasil: exercer seu voto para Presidente no segundo turno. Entretanto, por diversas razões, um número recorde de eleitores brasileiros morando fora do território nacional se abstiveram de votar no primeiro turno no dia 4 de outubro. Qual a importância do voto no exterior na contenda eleitoral atual, e, pensando estrategicamente, faria sentido para a esquerda tentar estimular mais esse voto nas vésperas do segundo turno das eleições presidenciais deste ano?
Para as eleições de 2026, os cidadãos aptos a votar no exterior totalizaram mais de 916 mil pessoas, equivalente a quase 0,5% do eleitorado total brasileiro. Esse número cresceu expressivamente em relação ao número de eleitores no exterior em 2022, quando apenas 695 mil brasileiros fora do país eram cadastrados pelo TSE. Entretanto, os impactos políticos do aumento no tamanho no colégio eleitoral no exterior foram anulados na prática, com um índice médio de abstenção que chegou a 62,7%. As taxas de abstenção bateram recordes não apenas nos EUA, onde a contundente maioria dos eleitores não compareceu em grande parte por medo das rondas ostensivas da polícia migratória ICE em localidades onde as urnas eram posicionadas, mas também em outras localidades, incluindo Lisboa, que registrava apenas 36% de comparecimento, e Nagoia, no Japão, com só 37% de comparecimento.
Em termos dos resultados eleitorais no exterior, no primeiro turno houve uma leve preferência pela candidatura de Lula, que recebeu 47,6% dos votos válidos, com Flávio Bolsonaro chegando em segundo lugar com 43,5%, segundo os dados oficiais do TSE. Existe margem para o voto lulista crescer ainda mais fora do país no 2º turno? Ao examinar os dados, parece pouco provável. Muitas das maiores seções eleitorais no exterior com votos expressivos a favor do candidato do PT também se encontravam entre as seções com menores níveis de abstenção. Como exemplo, a seção eleitoral do distrito consular de Dublin, na Irlanda, registrou uma votação de 72,6% para o candidato petista, enquanto a seção só registrava 49,7% de abstenção (mais de 13% a menos do que a média total de abstenção). De forma semelhante, Lula obteve 81,1% dos votos válidos na seção consular de Berlim, que registrou uma taxa de abstenção de apenas 45,5%.
Por outro lado, na seção consular de Miami, a candidatura de Flávio Bolsonaro captou 78,8% dos votos totais e a abstenção foi em torno de 66%. As seções consulares de Boston e Orlando registraram tendências similares, tanto com respeito às preferências eleitorais, quanto aos níveis de abstenção. Desta maneira, podemos constatar que existe claramente a possibilidade de crescimento de votos em benefício do candidato de extrema direita no 2º turno, caso um clima de maiores garantias democráticas se fortaleça entre a comunidade brasileira nos EUA. Então, apesar da reação instintiva dos militantes de esquerda de sempre “proteger o voto” desde uma perspectiva de respeito absoluto pelos direitos civis e políticos consagrados no marco constitucional interno e nos tratados internacionais dos direitos humanos, uma campanha para estimular o voto no exterior, ainda mais em localidades como os EUA e o Japão, provavelmente seria um tiro no pé para todos os empenhados nas atividades de “vira voto” nesses semanas e dias cruciais antes do segundo turno.
Dado isso, devemos parar de prestar atenção ao voto no exterior e focar apenas em aumentar as margens eleitorais para a candidatura do Lula dentro do país? Eu argumentaria que não, por duas razões principais. Primeiro, porque o comportamento eleitoral no exterior funciona como “formador de opinião”. Quem melhor do que os brasileiros que moram na Argentina sob as mazelas impostas por Milei (onde mais de 66% dos eleitores votaram em Lula) para contar sobre as impossibilidades de fazer as contas fecharem no final do mês com a imposição de políticas econômicas hiper-neoliberais? Quem melhor do que os brasileiros que moram sob a égide neofascista de Meloni em Roma (onde 58% dos brasileiros votaram pelo PT) para contar sobre como a xenofobia e o racismo estrutural promovido desde as mais altas esferas do governo só serve para dividir e enfraquecer a classe trabalhadora?
Segundo, dadas as margens apertadíssimas de vitória registradas em diversas eleições presidenciais na América Latina este ano, literalmente cada voto tem um valor intrínseco alto. As eleições colombianas, em junho, se decidiram por uma diferença de menos de 260 mil votos (de um total de 25.669.478 votos validos, ou seja, apenas 1%). A porcentagem contundente de 63,8% de votos para o candidato de extrema direita, Abelardo de la Espriella, entre os eleitores no exterior, ajudou muito para consolidar a sua vitória estreita contra o candidato de esquerda, Ivan Cepeda Castro. Do mesmo modo, o resultado do segundo turno das eleições presidenciais no Peru, que também se realizaram em junho deste ano, foi decidido por uma margem de menos de 50 mil votos a favor da candidata neofacista Keiko Fujimori, que construiu essa margem captando 76,5% do voto dos peruanos que residem atualmente nos EUA. Por mais que o tamanho do Brasil impossibilite comparações quantitativas com países com colégios eleitorais menores, como a Colômbia e o Peru, isto não significa que não veremos um resultado eleitoral igualmente estreito no dia 25 de outubro. Em tempos de fake news, bolhas algorítmicas e polarização política, poucas eleições no mundo estão sendo decididas por margens significativas. Por isso devemos nos importar sim (de forma estratégica) com o voto dos brasileiros no exterior, para poder garantir que o Brasil se mantenha como um baluarte democrático, não apenas em benefício do povo brasileiro, mas de toda a humanidade.
(*) Jana Silverman é PhD em Desenvolvimento Econômico pela UNICAMP, Professora Visitante de Relações Internacionais na UFABC, e co-coordenadora do Comitê Internacional do Democratic Socialists of America (DSA).
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