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Ocupação do Memorial dos Direitos Humanos em Belo Horizonte completa um ano

MEMÓRIA. Ato em frente ao antigo Dops, em Belo Horizonte. Foto: Filipe Muniz (JAV/MG)

No aniversário de um ano da ocupação do antigo Dops e DOI-Codi em Minas Gerais, movimentos sociais criaram a Associação do Memorial de Direitos Humanos Ocupado.

Débora Raiza Rocha Silva | Associação do Memorial de Direitos Humanos Ocupado


BRASIL – No dia 1º de abril de 2026, a sede dos antigos Dops e DOI-Codi em Minas Gerais foi, mais uma vez, referência na execução de atividades por memória, verdade e justiça no Brasil. Passado um ano da ocupação do prédio, a Comissão Independente do Memorial Ocupado e a Comissão Interna, juntamente com diversos movimentos sociais, deram um passo importante ao criar a Associação do Memorial de Direitos Humanos Ocupado. 

A assembleia de criação da AMDHO fez parte da programação de repúdio ao golpe militar de 1964 e em comemoração ao primeiro ano do Memorial dos Direitos Humanos Ocupado. Inicialmente, foi realizada uma manifestação na porta do prédio, com falas de militantes de diferentes partidos e movimentos sociais, ex-presos e familiares de mortos e desaparecidos políticos. O segundo momento, foi marcado por todos os presentes entrando no prédio ao som do hino A Internacional para, juntos, formalizarem a tarefa de construir o Memorial dos Direitos Humanos. 

Na ocasião, representantes de 38 coletivos, movimentos sociais, associações, sindicatos e outras 73 pessoas que apoiam a causa decidiram, em conjunto, que o objetivo da AMDHO consiste na preservação do prédio, na busca pela efetiva implementação do Memorial e na garantia da participação social na decisão da proposta museológica, bem como na gestão do museu a longo prazo.

A formalização da Associação do Memorial de Direitos Humanos Ocupado marca um ponto de inflexão no processo, que até então havia sido conduzido com uma atuação menos focada na institucionalidade, baseada em uma condução mais autônoma e independente. A dinâmica permanece a mesma, no entanto, a criação da associação se apresenta como um instrumento de fortalecimento político e institucional da ocupação. A institucionalização por meio de um CNPJ não representa uma ruptura, mas uma ampliação do modo de atuação, inaugurando outra frente de atuação. Ao mesmo tempo, reflete a consolidação de uma gestão construída de forma colaborativa, pavimentada na experiência concreta dos movimentos sociais e na legitimidade da ocupação como prática de cuidado com o patrimônio e luta por memória, verdade, justiça e reparação.

Ao longo deste primeiro ano, o espaço recebeu milhares de visitantes e se consolidou como um território de formação política, produção de conhecimento e articulação social. Visitas mediadas, rodas de conversa, atividades culturais e ações educativas têm produzido uma experiência de memória situada, que conecta passado e presente, ditadura e democracia, violência de Estado e lutas contemporâneas por direitos.

Para o futuro, o que se desenha é a continuidade e o aprofundamento da luta. A perspectiva de conclusão do tombamento do prédio como patrimônio nacional, reivindicado pela ocupação e conduzida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), é uma realidade próxima e representa mais uma camada de proteção. 

A expectativa a partir de agora, sobretudo com a criação da associação, é podermos formar novos mediadores para execução das visitas com um programa de estágio, inaugurar novas exposições de curta duração, angariar recursos para obras, pesquisas e projetos, além de se articular em rede com outros sítios de consciência e movimentos ligados à memória, verdade e justiça, reconhecendo que essa luta não é isolada, mas parte de uma disputa sobre o passado e seus usos no presente.

O futuro, portanto, não é apenas promissor, é revolucionário, assim como o sonho e a luta de homens e mulheres que resistiram ao autoritarismo de Estado. Vida longa ao Memorial dos Direitos Humanos!

Matéria publicada na edição impressa nº 333 do jornal A Verdade