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Ocupações resistem e seguem organizando luta das mulheres

LIBERDADE. Ocupações são territórios livres da violência. Foto: JAV/SP

O Movimento Olga Benario realizou 17 ocupações em todas as regiões do Brasil, denunciando o aumento dos feminicídios e criando espaços de acolhimento e organização popular. Passado um mês, dez ocupações seguem firmes, salvando vidas e fortalecendo a luta das mulheres contra a violência e pelo socialismo.

Luiza Wolff (SC) e Larissa Mayumi (SP)


MULHERES – No dia 14 de março deste ano, o Movimento de Mulheres Olga Benario realizou 17 ocupações no mesmo dia, em diferentes estados, em todas as regiões do país. Sob o lema “Chega de feminicídios! Lute pelo socialismo!”, a jornada de ocupações denunciou o aumento dos casos de feminicídios e de violência contra as mulheres, além de construírem espaços para acolher e organizar mais mulheres na luta por seus direitos, contra a violência e pelo socialismo.

Com pouco mais de um mês, dez ocupações seguem resistindo e se estruturando, promovendo acolhimentos, reuniões de formação e organização de lutas, atividades culturais e salvando a vida de dezenas de mulheres. As ocupações levam o nome de mulheres que são símbolo de luta, bem como também homenageiam mulheres que foram vítimas de feminicídio. 

Em Goiânia (GO), onde o movimento realizou sua primeira ocupação, a homenageada foi Maria Augusta Thomaz, uma militante paulista, estudante de Filosofia. Com formação militar em Cuba, foi vítima da ditadura militar fascista, morta e desaparecida em Rio Verde (GO). Na ocupação, já foram realizadas atividades com Renato Dias, autor do livro “As quatro mortes de Maria Augusta”.

Em Florianópolis (SC), a homenageada, Liberata, foi a primeira mulher a ter comprado sua própria alforria no Estado. Ela foi vítima de violência a partir dos 10 anos de idade, quando foi escravizada no Estado do Paraná, mas, aos 23 anos, enfrentou seu patrão e conquistou sua liberdade. Ela entrou com um processo judicial e denunciou as violências que sofreu e os infanticídios que os escravocratas cometiam. 

A Ocupação Liberata já realizou atendimentos a mulheres que sofreram violência e, além disso, é um ponto de apoio aos que querem lutar no bairro do José Mendes. Também já sediou diversas atividades culturais e teve visitas de turmas de alunos das escolas da redondeza, além de receber muito apoio das mulheres da comunidade. A partir dos atendimentos realizados, novas mulheres se organizaram no núcleo do Movimento. 

A Ocupação Dandara dos Santos, em Fortaleza (CE), realizada em homenagem a Dandara, travesti assassinada na cidade, em 2017, também já realizou atendimentos e atividades culturais. Muitas mulheres que chegam à ocupação já procuraram atendimento pelos serviços institucionais da cidade, mas se queixam de não se sentiram ouvidas e acolhidas. Foi o caso de Vera (nome fictício), que, por preocupação com a vida das duas filhas pequenas e da sua própria vida, conheceu o trabalho do Movimento por meio de uma panfletagem em frente ao prédio ocupado.

No interior do Estado de São Paulo, em Sorocaba, foi realizada a Ocupação Ondina Seabra, em homenagem à primeira professora negra da região. Ondina alfabetizou a sua comunidade, foi militante da frente negra e atuou na Vila Leão, contribuindo para que o povo negro tivesse acesso à educação, cultura e lazer.

A ocupação resiste ao fascismo e desenvolve uma profunda luta ideológica na cidade. Apesar de sofrer constantes ataques dos vereadores fascistas, que promoveram o corte da água e da luz na casa, a ocupação teve uma grande vitória na Justiça, que recusou pedido liminar da reintegração de posse, alegando que as provas apresentadas, na verdade, comprovavam que o imóvel estava em estado de abandono.

Contando com a solidariedade popular, o Movimento avançou com doações de água, um gerador e combustível para mantê-lo e não param de chegar doações. Todos os dias, é divulgado o cronograma da casa repleto de atividades culturais e de formação. Além disso, foram iniciados os atendimentos às mulheres vítimas de violência. Outra coisa importante é que as mulheres do bairro já se tornaram militantes do Movimento de Mulheres Olga Benario e têm participado das reuniões e das lutas para a construção do socialismo.

A jornada de lutas organizada pelo movimento demonstra às mulheres de todo o Brasil que há alternativa para a violência e exploração que sofrem. As ocupações são espaços de luta e de organização dos territórios de onde fazem parte. Os bairros e comunidades onde estão organizadas são territórios onde as mulheres podem escolher lutar contra a violência que sofrem e por uma sociedade socialista.

Matéria publicada na edição impressa nº332 do jornal A Verdade