
Movimento organizado por militantes da Unidade Popular junto com artistas populares no coração da cidade de Mossoró (RN) revive o “Beco dos Artistas”, espaço que celebra a cultura do povo
Redação RN
CULTURA – A expressão “pegar o beco”, comum no nordeste para dizer que se está indo embora de um lugar ou situação, vem ganhando um novo significado na cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte, graças ao trabalho desenvolvido pelos militantes da Unidade Popular. Engajados em oferecer à população um local de cultura e convivência. A travessa Martins de Vasconcelos é conhecida popularmente como o Beco dos Artistas e vinha sendo negligenciada pelo poder público municipal. Hoje, o que antes era um ambiente mal iluminado usado como mictório se tornou um ponto de encontro e apresentação de artistas da terra.
O movimento Ocupe o Beco dos Artistas surgiu como uma resposta concreta e organizada à luta desencadeada na eleição do Conselho Municipal de Cultura de Mossoró, órgão colegiado responsável por acompanhar e fiscalizar as políticas públicas de cultura. Artistas populares, movimentos sociais e culturais foram excluídos do processo eleitoral aparelhado pela prefeitura do então prefeito direitista Allyson Bezerra (União Brasil-UB), atual pré-candidato ao governo do RN. Com suspeitas de fraudes em um processo sem transparência, a conferência elegeu um conselho cooptado pela prefeitura e os interesses das oligarquias.
Com enfrentamento e denúncia das arbitrariedades, os artistas populares elegeram 3 suplentes das 10 vagas do órgão, saindo de cabeça erguida para construir a luta em defesa da cultura popular e dos trabalhadores em Mossoró.
A militância dos movimentos sociais, da Unidade Popular e artistas locais debateram que era preciso fazer um chamado público aos artistas mossoroenses e criar um espaço de resistência cultural e articulação dos trabalhadores para avançar as lutas culturais na cidade e fortalecer um campo político capaz denunciar e fazer o enfrentamento ao fascismo na cidade.
O espaço escolhido foi o Beco dos Artistas,, palco de ocupações culturais protagonizadas por movimentos sociais em momentos pontuais, como o Movimento Pau de Arara, mobilização estudantil nas jornadas pelo passe livre de 2013. . Também foi local de resistência na luta LGBT e feminista para terem acesso à cultura em espaços seguros na cidade.
Uma construção secular que chama a atenção de quem frequenta o beco é uma fachada colonial que ostenta o brasão da antiga União dos Artistas, uma associação que prestava auxílio aos profissionais filiados no século passado, antes da ideia moderna de sindicatos e previdência. O prédio, hoje abandonado e entregue às pragas urbanas, foi loteado e usurpado por empresários, dentre eles um tabelião, que retalharam e espoliaram o edifício em benefício particular.
Pega O Beco: o carnaval como trincheira
O pontapé inicial foi com um bloco de carnaval, em uma cidade que a tradição é abandonar a população trabalhadora que não tem condições financeiras, nem tempo, para viajar e aproveitar o feriado. O Bloco Pega o Beco contou com a atração musical de Dona Liberdade e ZAEL, cantores militantes da UP ,uma roda de capoeira de Angola, um urso, manifestação tradicional da cidade, e debates sobre a cultura popular.
Longe de apenas ser um evento festivo, o Pega O Beco nasce como um espaço de disputar a narrativa do carnaval e devolver à festa popular sua dimensão histórica de subversão e contestação.
Viver além de trabalhar e Por Memória, Verdade e Justiça
O fim da 6×1 com redução de carga horária sem redução de salários será fruto de mobilizações, manifestações e greves nas fábricas e postos de trabalho de todo país. Com isso em mente, a militância da UP em conjunto com os artistas organizaram um ato em frente à empresa de telemarketing AeC com agitação política e intervenções culturais denunciando as jornadas exaustivas na empresa.
Sendo um território de luta, que articulacultura e política para denunciar as formas de exploração do capitalismo, o movimento Ocupe o Beco promoveu o Samba no Beco: Pela vida além do trabalho evento que contou com a participação de nomes nacionalmente conhecidos como André da Mata e Bia Gurgel, reunindo público em torno de música e poesia usadas como tribuna de denúncia da superexploração dos trabalhadores.
Essa denúncia não ficou restrita à pauta econômica, mas se conecta profundamente com a luta por memória, verdade e justiça. Em um contexto marcado pelas feridas abertas da Ditadura Militar no Brasil, os cine-debates e rodas de conversa realizados no Beco resgataram a importância de enfrentar os crimes do passado para compreender as violências do presente. A exibição do filme O Agente Secreto (2025), seguida de debate, ajudou a construir uma consciência coletiva sobre o papel do Estado, da repressão e da resistência popular, ligando a história às lutas atuais da juventude e da classe trabalhadora.
Um centro cultural como espaço de resistência e colaboração
Com o objetivo de transformar o Beco dos Artistas em um verdadeiro centro cultural, lançamos uma campanha de financiamento coletivo e de doação de móveis que já nos renderam freezer, sofá, balcão, refletores, mesas, estantes, dentre outras coisas, expressão verdadeira da força que tem a construção coletiva.
Diariamente acontecem reuniões de artistas, movimentos sociais e da UP no espaço para articulação de projetos culturais e lutas. Como foi o caso do o Movimento de Mulheres Olga Benário que realizou um círculo de cultura para debater a onda de misoginia que aflige nossa sociedade sob o olhar conivente das autoridades públicas; E dos alunos de um curso de psicologia que participaram de uma aula de campo sobre o direito à cidade realizada no Beco dos Artistas.
Já se tornou habitual os trabalhadores do comércio no centro de Mossoró passarem no Beco para se informarem das próximas atividades e parabenizar o trabalho desenvolvido, que tem dado vida àquela região da cidade.
A vida noturna de Mossoró se concentra em duas avenidas ladeadas por estabelecimentos denominados lounges, halls e bistrôs com cartas de vinhos em cardápios de preços incompatíveis com a classe trabalhadora do município, majoritariamente composta por trabalhadores dos setores do comércio varejista e serviços segundo relatório do SEBRAE, é nessa faixa de empregos que se encontram as menores remunerações formais. Assim, o ambiente promovido no Beco dos Artistas é mais que apenas lazer, é oportunidade de confraternização, interação e direito à cidade, como bem ressalta a militante da UP Kássia Tarami’s: “fiquei feliz em ver as pessoas voltando a frequentar também a praça da igreja”, localizada nas imediações do Beco. Ela também relata a presença de ambulantes como um vendedor de batatas fritas que havia encerrado a noite e estava a caminho de casa contabilizando o prejuízo, mas acabou parando no Beco e vendendo toda a sua produção aos frequentadores.
A criação desse centro significa garantir estrutura, continuidade e autonomia para a organização dos artistas locais e possibilitando sua autossustentação. Mais do que um equipamento cultural, trata-se de afirmar um projeto de cidade em que a cultura popular, a arte independente e a luta política tenham lugar permanente, rompendo com o abandono do poder público e transformando o que já é resistência em referência viva de criação, formação e mobilização social.
Crescimento da Unidade Popular
Um dos resultados mais concretos do movimento é o reconhecimento do Jornal A Verdade na região como uma ferramenta de luta do povo. O jornal, que circula nas atividades do beco e é distribuído pelos próprios artistas e militantes durante eventos, encontrou no espaço um público receptivo e politicamente em processo de formação.
A relação entre a leitura do jornal e a participação nas atividades culturais do movimento evidencia uma metodologia eficaz: a arte abre portas e nos alcança em espaços que sem ela não atingiríamos. Quando as pessoas se identificam com o que veem e ouvem no Beco, tornam-se mais receptivas ao debate político aprofundado que o jornal proporciona. Trata-se de uma pedagogia da práxis, em que a experiência cultural e a análise de conjuntura se reforçam mutuamente.
No plano organizativo, o movimento contribui para o fortalecimento da Unidade Popular na região. Diversos artistas que passaram pelo centro cultural ingressaram na UP, tornando-se militantes em seus campos de atuação. A transição do papel de participante cultural para o de quadro político tem sido uma das marcas mais relevantes do trabalho do Beco.
O movimento Ocupe o Beco dos Artistas mostra-se um experimento bem-sucedido de articulação entre frente cultural e organização política. Que esse modelo, que combina ocupação de espaço público, produção artística autônoma, formação política e divulgação de imprensa revolucionária, sirva de referência para outros territórios onde a organização busque ampliar sua presença e sua capacidade de enraizamento popular.
O futuro do Beco dos Artistas é debatido nas reuniões gerais dos núcleos da UP-Mossoró realizadas no local, de onde surgem projetos para exposições de arte, feiras de artesanato e peças de teatro. O Movimento Correnteza já prepara um repertório de aulas públicas e o Olga tem espaço propício para realização de plenárias com as trabalhadoras dos estabelecimentos comerciais vizinhos.
Tudo isso é organizado de forma voluntária pelos militantes. Desde a limpeza e decoração do ambiente ao contato com os artistas e a divulgação dos eventos, tudo é realizado de modo coletivo. A UP vem demonstrar com o Ocupe o Beco dos Artistas que a classe trabalhadora pode conquistar tudo através da organização, desde transformar um ambiente inóspito em espaço de convivência até tomar o que lhe é de direito das garras da opressão capitalista.